Mancha Negra tinha uma respiração pesada enquanto dormia. Encolhido junto ao peito de Madeus, era possível o mais velho sentir o tórax dele subindo e descendo lentamente e ouvir os gemidos tímidos que ele soltava de vez em quando. Mancha Negra estava sonhando, Madeus sabia disso. O que queria saber era com o quê. Estaria a raposa num sonho mágico e agradável, no seu mundinho pessoal de campos abertos cheios de pequenas colinas verdes onde o vento bate fresco? Ou estaria tendo um terrível pesadelo, daqueles que dá vida aos nossos piores medos? O verdadeiro mistério era saber do que Mancha Negra tinha medo.
Talvez fantasmas... Não, Mancha Negra não tinha medo deles. Os respeitava, convivia com eles todos os dias e os adorava. Costuma dizer que aprende coisas com eles.
E os outros animais? Também não, ele não os temia, somente os desprezava. Achava-os imbecis e gostava de dizer isso a eles. Estúpidos como gente fútil, aquelas que nada tem a acrescentar em nossa vida. Quando irritado, Mancha Negra desejava-lhes a morte.
Ora, Madeus disse a si mesmo, o maior medo dele é estar longe de mim. Meu servo, meu amante, meu amado.
Mancha Negra puxou a camisa de Madeus com os dedos finos e aninhou as pernas mais perto de Madeus. Este apertou o braço da poltrona onde estavam, Mancha Negra no colo de seu mestre, apertando seu corpo contra o dele. O mais novo gemeu baixo e abriu os olhos amendoados devagar. Estavam cheios de tristeza, mas quando o olhar ganhou foco, suas pupilas tremeram de alívio. Os braços leves e graciosos antes junto ao corpo, agora envolviam o pescoço de Madeus. A raposa aconchegou o rosto no ombro de Madeus e deixou que este tocasse seus cabelos. O cheiro de Mancha Negra era muito bom.