"AOS TEUS OLHOS" – JULGAMENTO VIRTUAL
Não é complicado para ninguém entender que vivemos na era da informação. Utilizar as redes sociais para falar com amigos e conhecidos, ou publicar informações, é algo comum, justamente por conta de seu alcance e rapidez. E por meio deste alcance várias pessoas cometem falhas, algumas delas gravíssimas e sem volta. Em um momento de raiva, é possível destruir a vida de uma pessoa justamente por não se refletir nas consequências de atos impensados. E são esses julgamentos apressados, que tomam proporções inimagináveis, o elemento catalizador da história de “Aos Teus Olhos”.
Na trama, somos apresentados ao professor de natação Rubens (Daniel de Oliveira), profissional dedicado e adorado por seus alunos - crianças, em sua maioria - ainda que fale deles, de modo inadequado, fora do trabalho. Certo dia, um de seus alunos, Alex (Luiz Felipe Mello), revela um suposto assédio do professor à sua mãe. Seus pais (Stella Rabello e Marco Ricca) seguem ideias diferentes de como lidar com a situação, o que acaba por exaltar os ânimos. No dia seguinte, o pai de Alex procura Ana (Malu Galli), a dona do clube de natação, e pede que tome providências sobre o ocorrido. Ela diz que irá averiguar tudo, antes de tomar qualquer decisão. Neste instante, a mãe de Alex acaba denunciando o professor nas redes sociais. E assim, Rubens vê sua vida virar de cabeça pra baixo, após o caso viralizar.
O longa-metragem de Carolina Jabor provoca o espectador e joga luz neste ambiente considerado, quase que unanimemente, hostil e sem lei, para tratar de um assunto ainda mais pesado: o do abuso sexual. Para quem gosta de assistir filmes de outras nacionalidades, é possível que, ao final da projeção, consiga perceber semelhanças com a obra “A Caça”, do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Ainda que neste filme nós saibamos que o professor da creche era realmente uma boa pessoa, sua vida já havia sido destruída, mesmo numa cidadezinha pequena e sem tais tecnologias de comunicação. Já o mérito da obra de Carolina Jabor é justamente trazer uma discussão sobre a carga do linchamento virtual, tão comum atualmente, e suas consequências, onde fatos, muitas vezes com pouca ou nenhuma averiguação, destroem a vida de todos os envolvidos.
Outra grande sacada do longa-metragem é a ambiguidade proporcionada pelo professor de natação, que faz com que pensemos com mais cuidado sobre toda a situação, antes que façamos julgamentos precipitados. Aliás, os enquadramentos de Carolina Jabor nos colocam constantemente com Rubens, seja ficando ao seu lado na piscina, enquanto promove suas aulas, ou encarando-o, incitando acharmos algum sinal de delação em seu semblante. Mérito de um grande ator como Daniel de Oliveira, que transfigura não só o olhar, mas também o físico de seu personagem, que carrega o peso das acusações dos pais, e colocando mais dúvidas do que certezas em relação a toda circunstância apresentada.
Há na trama outras discussões elencadas pelas situações por que passa o professor. Como se não bastasse Rubens ter de conviver com a suspeita de seus alunos, e dos pais destes, ele ainda passa pela preocupação e desconfiança de seus próprios colegas de trabalho, em relação ao acontecido. Talvez, a mais dolorosa delas seja a de sua chefe, amiga de vários anos, que carrega o dilema ético de confiar no amigo, ou salvar seu próprio emprego.
Ao final da projeção, não é tão complexo perceber o porquê do filme de Carolina Jabor se chamar “Aos Teus Olhos”. A diretora sugere que sejamos analistas não somente da história de sua personagem, mas nos coloquemos de fato no lugar desta sociedade, a qual fazemos parte, e pensemos em como seria o tipo de coletividade que desejamos. Como a dúvida sobre uma ação cotidiana, que não sabemos se aconteceu, se torna uma paranoia, uma psicose social? A simples suspeita, com julgamentos apressados, pode execrar socialmente uma pessoa. O fato é que essas ferramentas virtuais se mostram propagadoras de informações perversas, em sua grande maioria. Mas onde ficam as correções dessas situações? Imagino que não há como fugirmos dessa responsabilidade de reflexão sobre nossas próprias ações.
Leandro Alves é acadêmico do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás e graduado em Letras pela mesma instituição. Gosta de filmes, séries, desenhos animados, bem como escrever análises e críticas sobre eles. Já colaborou para o jornal O Popular e para a Revista Janela.