Sobre a vez em que li vários livros sobre a autora.
Algumas vezes no ano acontece de eu ficar completamente obcecada por algum assunto e sair pesquisando sobre ele, até que a exaustão apareça e eu enjoe do tópico. Em novembro, o tema de meu interesse foi inesperado: Sylvia Plath. Não me lembro com exatidão como aconteceu, mas foi assim, do nada. E então, é claro, pesquisei muito (ou melhor, li muito), até me enjoar e ninguém mais aguentar me ouvir falar dela aqui em casa.
Faz quase um ano desde que li pela primeira vez “A Redoma de Vidro”, livro quase autobiográfico lançado em 1963, e decidi que iria ler as outras obras de Sylvia Plath, autora de um dos meus poemas favoritos e cuja história sempre me despertou certo interesse. Dessa vez procurei sua obra com uma curiosidade especial quanto aos seus poemas e contos, que tanto ouvi falar nos últimos anos. E foi justamente com uma coletânea de contos chamada “Johnny Pannic e a Biblia de Sonhos: e outros textos em prosa” que dei início a esta jornada de descoberta da literatura da autora durante as últimas quase três semanas.
A coletânea foi lançada originalmente em 1977, mas a edição a qual me refiro – que, além dos contos já mencionados, abriga também alguns textos dos diários de Sylvia – foi lançada esse ano pela editora Biblioteca Azul, com direito a uma capa lindíssima que, admito, me atraiu de forma absurda. Além disso, o livro tem aproximadamente 460 páginas em sua totalidade, quantidade essa que parece ser muito menor durante a leitura.
Impossível falar desse livro sem, antes, falar de Sylvia Plath. A autora, nascida em 1933, perdeu o pai aos 9 anos e, desde essa época, sempre gostou de escrever contos e poemas. No seu terceiro ano de faculdade, trabalhou como editora convidada em uma “revista feminina” localizada em Nova York – e, caso tenha percebido alguma semelhança com a sinopse de seu único romance publicado, saiba que é realmente este fato que a inspira a escrever a obra “A Redoma de Vidro”, que narra o período que passou por lá.
“Tem um coração no meu estomago, e ele pulsa e zomba de mim.”
Sylvia Plath, 20 de fevereiro, segunda-feira
Em 1956, na mesma época em que estuda no Smith College, em Northampton, Sylvia conhece o já então poeta famoso Ted Hughes. A paixão acontece à primeira vista, e os dois se casam no mesmo ano, em julho, permanecendo quase 7 anos casados. Em 1959, Plath se muda para Londres com o marido e os filhos, onde vive até a data de sua morte – que ocorre em 1963, após separar-se de seu marido e escrever o famoso livro de poemas “Ariel”, cujo manuscrito deixara pronto em cima de sua escrivaninha, antes de cometer suicídio.
Quase toda a obra de Sylvia foi autobiográfica: percussora do gênero de poesia confessional, Plath colocava também em seus contos um pouco de si, de seu marido, vizinhos e pessoas que viera a conhecer durante sua vida. Por exemplo, e aqui cito uma curiosidade que achei extremamente interessante, o conto “A tal da viúva Mangada”, escrito no outono de 1956, trata-se de uma viagem que a autora realizara naquele mesmo ano, na companhia de seu marido; os acontecimentos dessa viagem também são narrados em um trecho de seus diários, onde ela conta exatamente o que acontece na viagem do conto, mas sem utilizar-se de nomes fictícios.
Outro conto em que, conhecendo a história da autora, podemos identificar personagens reais é “O Quinquagésimo Nono Urso”, de 1949, que na realidade se trata de uma metáfora sobre o seu relacionamento com o então estudante de medicina, Dick Norton, com quem namorou por um tempo*. Isso também acontece em alguns outros contos, como por exemplo aqueles em que Plath usa como inspiração situações vividas por ela com seus dois vizinhos, Rose e Percy (estes, em um dos textos, a autora nem chega a mudar seus nomes).
“Johnny Panic” é uma obra extremamente interessante e uma ótima pedida para quem está iniciando-se nos textos de Sylvia Plath. Os contos que, em sua maioria, foram escritos entre os anos 40 e 50, numa tentativa da autora de publicar em revistas femininas de grande circulação, entretém de forma surpreendentemente leve, através de uma linguagem simples e divertida. O humor de Sylvia é algo que merece destaque nos textos desse livro – ela não fará o leitor soltar uma gargalhada com o que escreve, mas sim dar um meio sorriso e reconhecer a genialidade do que está escrito.
Depois de terminar a leitura da coletânea de contos, decidi que era hora de ler a principal obra da autora: “Ariel”, livro de poesias lançado postumamente. Alguns dos poemas contidos no livro são famosos e podem ser encontrados de forma avulsa na internet – todos eles, aliás, podem ser encontrados no Youtube, sendo declamados pela autora em algumas de suas passagens pela rádio BBC na época em que estava viva. “Lady Lazarus”, inclusive, é um dos poemas que mais gosto, não só da autora, mas também de forma geral.
– Sylvia Plath, “Lady Lazarus”.
Como dito anteriormente, a obra da autora é quase que inteiramente autobiográfica. “Lady Lazarus”, por exemplo, fala das tentativas de suicídio da autora, com um tom bastante único e comparações bastante fortes. “The Other” (ou, em português, “A Outra”), um dos meus poemas prediletos presente no livro, fala sobre a traição de Ted Hughes, que culminou na separação dos dois em setembro de 1962.
Outro poema muito importante dentro desta seleção e que, com o passar dos anos, adquiriu certa notoriedade por sua força e significado, é “Daddy”, um “poema-exorcismo” em que a autora fala sobre a sua relação com a morte de seu pai. É um poema intenso, onde é possível perceber e sentir a forma como Sylvia utilizou a escrita numa tentativa de dar fim na dor que sentia e nas questões mal resolvidas que permaneceram depois da morte de seu pai.
"There’s a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I’m through."
A edição de “Ariel” publicada em 2018 pela editora Verus possui capa verde e uma série de fac-símiles dos poemas deixados por Plath, além dos poemas organizados na mesma ordem na qual a autora deixara cuidadosamente separados antes de sua morte (ordem essa que difere da edição publicada pela primeira vez na Inglaterra, onde Ted Hughes decidiu deixar de fora alguns dos poemas por “expor demais” a vida do casal e, através de uma censura explicita, “querer proteger a memória da autora para seus filhos”; este fato, mencionado logo no início do livro, fez com que eu criasse uma antipatia quase irreversível pelo poeta e ex-marido da autora). Fiquei encantada pela edição e, ainda mais, pelo apêndice localizado ao final do livro, com todas as referências que a autora usara em seus poemas.
Os poemas são inegavelmente fortes, mostrando uma Sylvia sarcástica, cheia de questões, cicatrizes e raiva, mas que, aparentemente, via aquele período do fim de seu casamento como uma libertação e uma forma de renascer. Confesso que perceber isso ao final do livro fez com que surgisse uma pergunta inevitável na minha cabeça: como teria sido a vida de Sylvia caso houvesse permanecido viva, se alguém a tivesse encontrado minutos mais cedo naquela noite de fevereiro?
Após mergulhar de forma tão intensa nos livros da autora, e em um período tão curto de tempo, é natural que eu quisesse saber com um pouco mais de clareza sobre como foi a vida de Sylvia Plath, além de seus poemas e contos. Eu tinha mil questões na minha cabeça – quem era Robert? O que aconteceu com ela nos anos de faculdade? Como foram os últimos meses de vida dela, enquanto escrevia “Ariel”? – e eu tinha duas opções: ler os diários da autora, que foram publicados nos anos 70, ou procurar alguma biografia que me parecesse completa e que não focasse apenas na história do casamento da autora. Decidi pela segunda opção, escolhendo “Isis Americana”, biografia de Carl Rollyson, como o meu guia.
O que eu não esperava era um texto tão esteticamente feio, eticamente desrespeitoso e literariamente mirabolante (por que raios insistir em comparar Plath com Marilyn Monroe? Sai fora, bicho), tratando a ambição da autora em conseguir um espaço entre os principais escritores da época como algo vil e “prova de sua loucura” - e aqui abro um questionamento: teria Carl o mesmo posicionamento caso a história não fosse a respeito de uma mulher?
Enfim, abandonei o livro depois de ler quase 100 páginas, e essa meia leitura fracassada e decepcionante fez com que eu aprendesse uma lição: sempre pesquisar as notas do livro no Goodreads (o Skoob, apesar de ser meu queridinho por possuir uma interface muito mais intuitiva, está bem morto). “Isis Americana” é uma biografia que carrega um potencial enorme, principalmente por ter sido lançada após alguns materiais pertencentes ao poeta Ted Hughes terem sido integrados à Biblioteca Britânica, mas decepciona com uma escrita horrorosa e opiniões contraditórias.
Decidi não encerrar a minha busca por saber um pouco mais sobre a autora, e dei uma chance para uma biografia melhor avaliada nas redes sociais de livros: “A Mulher Calada”, de Janet Malcom. Este livro me trouxe diferentes sensações, principalmente depois de eu descobrir que ele não é uma biografia sobre Sylvia Plath, e sim um livro sobre as biografias de Sylvia Plath. Apesar de não trazer o conteúdo que eu esperava e apenas eventualmente citar algumas situações vividas pela poetisa norte-americana, a escrita envolvente de Janet me fez continuar a leitura e me interessar um pouco mais sobre a relação dos Irmãos Hughes, a censura e as então publicadas biografias de Sylvia.
Ao final do livro, fica claro a posição da autora sobre os atos de Ted com relação as obras da ex-esposa, da qual eu, como leitora, não compartilho. Mas, apesar de ainda carregar uma certa antipatia pelo poeta, consegui, através da narrativa de Janet, ver um outro lado da história – a de um homem que em um curto período de tempo teve que lidar com o suicídio assustadoramente similar de duas mulheres com as quais se relacionou, além da morte de sua filhinha.
Ainda assim, a declarada destruição dos diários de Plath e a não-publicação de alguns poemas cuja publicação havia sido planejada por ela em vida é, na minha opinião, um modo imperdoável de censura, onde a vítima nem mesmo pode se defender e escolher como a obra de sua vida (seus textos e poemas) será compartilhada no mundo. O ato se torna ainda pior, em minha opinião, se pararmos para pensar que a escrita era a coisa mais importante da vida de Sylvia.
Por fim, conhecer o texto de Sylvia Plath foi uma das melhores coisas que me aconteceram em 2020 – ano esse que pode ser considerado o que mais li, nos últimos cinco anos – colocando ela no pódio de Minhas Autoras Favoritas. Recomendo a leitura dos livros citados e a passar longe de Isis Americana (a menos que queira sentir um pouco de raiva).
O post ficou enorme e, se você chegou até aqui, saiba que já ganhou um lugar no meu coração <3
* A curiosidade sobre o conto “O Quinquagésimo Nono Urso” foi retirada do livro “Ísis Americana”, sendo assim uma das poucas coisas legais que encontrei por lá.