– Hey, bro, tá tudo certo? Ainda tá vendo as coisas em dobro? – Jaime se aproximou de Mário para checar se o amigo estava bem depois do que pareceram horas, afinal Carmem já havia saĂdo atrás de Adriano há bastante tempo.
– Ah, isso? – Palillo riu e passou a mão sensualmente pelo tórax desnudo propositalmente para provocar o já instável menino com quem conversava. – Eu estou indo pro quarto do Davi com umas companhias fazer umas coisas bem safadas. Quer se juntar a nós?
Jorge, em segundos, imaginou como seria fazer tais safadezas com Jaime, mas quase que imediatamente pôs uma expressão ultrajada em seu rosto. – Claro que não! Imagina se eu me faria esse tipo de coisa com você! Eca! – Ele pôs o máximo de desprezo que conseguiu nessas palavras para disfarçar o fato de que ele realmente considerou a possibilidade. – Enfim, sai da minha frente que eu tenho coisas melhores para fazer.
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– Alô. Paulo? – Ela tentou não demonstrar em sua voz o que sentia.
– Carmem. Onde você está?
– Em casa terminando o projeto de Biologia. Por quê? – Indagou. O misto de certa dúvida e empolgação começando a crescer nela.
– Certo, certo. Quer que eu vá te buscar? – Se ofereceu Paulo do outro lado da linha.
– Hmm... – A garota ponderou por alguns instantes. O projeto era importante demais para ser abandonado. Todavia a suposta seriedade monótona na voz do outro lado a fazia querer jogar tudo para o alto e ir com para onde quer que ele a levasse. – Se não for incomodar...
– Não vai. – Ele a interrompeu. – Espera só um pouco que estou chegando.
– Paulo, não... – Ela foi interrompida mais uma vez quando o rapaz encerrou a chamada. Sem muitas alternativas, ela tomou um banho muito rápido e pôs um vestido, arrumou o cabelo em um perfeito rabo de cavalo, colocou as lentes de contato, deu uma desculpa qualquer para sua mãe que ainda achava que sua garota estava acima de qualquer suspeita e entrou no táxi com Paulo assim que o rapaz chegou para apanhá-la.
– EntĂŁo... – O rapaz se aproximou dela. A mĂŁo esquerda pousou discretamente na perna da garota. Paulo cheirou-a no pescoço e mordeu-a no lĂłbulo da orelha. A menina suspirou de leve e entrou em estado de quase ĂŞxtase por alguns instantes. Apesar de ser uma garota forte, aquela era uma das poucas fraquezas de Carmem: Paulo. O calor do corpo dele, cada toque, cada palavra a deixava inebriada e ela embarcava fácil em qualquer viagem abstrata que ele a guiasse. A mĂŁo boba do garoto perambulou pela perna dela enquanto sua boca já beijava a de Carmem, que retribuĂa quase que toda submissa.
– Paulo, espera... – Depois de uma intensa batalha intensa, a vontade da razão conseguiu subjugar os anseios do corpo e a jovem afastou o menino de si enfim. – Eu não quero começar tudo de novo... – Ela foi interrompida novamente, dessa vez por um simples dedo nos lábios.
– Você se arrepende muito desde que a gente era criança, Paulo, e, sinceramente, nunca vi mudança real. – Ela disse sem encarar o garoto, que já preparava a carinha de coitado que tanto a desarmava.
Na grande garagem da residência dos Rabinovich, área principal da festa, apenas Adriano e Davi se mostravam como rostos mais amigos. Adriano viajava tão alto que seus olhos já estavam a ficar esbranquiçados, portanto de nada adiantava interroga-lo, então Davi se fez a escolha mais obviamente sensata. Sem necessidade de uma interpelação, o judeu começou a contar o acontecido assim que os dois se aproximaram dele.
– O que aconteceu exatamente? O Davi me contou lá embaixo, mas algo me diz que ele está omitindo muitos fatos importantes. – Carmem lançou a pergunta para qualquer um dos três que quisesse responder.
Maria Joaquina fez um resumo do que de fato acontecera sem parar para respirar em nenhum momento. Ao final, Paulo se encontrava atrás de Carmem com um dos braços em volta de sua cintura. A garota percebeu os olhares confusos dos três amigos quando ela não se desvencilhou do rapaz.
Com um sorriso, ela deitou-se ao lado de Adriano, a cabeça sobre o peito do rapaz e os braços em volta dele calorosamente. Ele, por sua vez, abraçou Carmem com carinho. E eles conversaram sobre tudo que era agradável para se falar naquele momento e riram de leve e trocaram carĂcias e se aninharam ainda mais um no outro. E se deixaram ali, como se nada mais fosse tĂŁo importante, como se aquele momento e aquela pessoa fossem os Ăşnicos em todo o mundo. E eles cultivaram sentimentos.
– Ei, Carmem, sabe de uma coisa? – Adriano perguntou despretensiosamente.
– O que? – Carmem indagou ainda deitada na mesma posição e com o mesmo sorriso satisfeito.
 – TĂŁo frágil. – Ela afastou uma mecha de cabelo da face da amiga. – E tĂŁo meiga. – As mĂŁos de AlĂcia agora afagavam uma das de Marcelina.
 Enquanto divagava em lembranças de quando eram crianças, de quando o sorriso da amiga era sempre bonito e constante e alegre e cheio de vida, ela percorreu com o indicador uma cicatriz que se apresentava hedionda num dos pulsos da outra.
 – Como nĂłs deixamos chegar a esse ponto? – O criado-mudo com inĂşmeras caixinhas de comprimidos fez AlĂcia sentir-se um pouco mais culpada. – Se eu tivesse te dado mais atenção... Se eu tivesse mais com vocĂŞ... As coisas poderiam ter ido por um caminho totalmente diferente, nĂŁo? – Sentada no chĂŁo e se apoiando na cama, ela encostou a cabeça na de Marcelina. – Mas talvez nĂŁo seja tarde demais. Eu tĂ´ aqui e vou estar sempre. – Como se a outra estivesse ouvindo e a encarando, AlĂcia disse aquelas palavras como uma promessa. E postou um beijo carinhoso nos lábios adormecidos para selá-la.
 Devagar, ela pôs a cabeça de Marcelina a repousar em suas pernas e pôs a passar os dedos nas madeixas da que dormia, afagando-as. Cantarolou várias músicas enquanto devaneava, ignorou algumas várias chamadas telefônicas e acabou adormecendo ali mesmo.
 – Fala aĂ, casal meloso da escola! – Jaime aproximara-se jocoso como de costume. Cirilo o acompanhava. Para Mário era estranho nĂŁo ver Maria Joaquina pendurada no namorado em um evento social.
 – Jaime. Cirilo. – Daniel cumprimentou-os ainda sorrindo e ainda agarrado ao pescoço do parceiro.
 – Pra vocês. – Cirilo atirara uma garrafinha de caipirinha para cada um.
 – Valeu! – Mário abriu a sua e sussurrou um “não vai exagerar” no ouvido de Daniel antes de tomar um bom gole de sua bebida. – Cadê a Maria Joaquina, Cirilo? Ela tá sempre com você. Achei que ela pudesse distrair o Dani pra’gente dar uma azarada por ai. – Brincou. O namorado apenas fez um gesto negativo e o completou com um beijo.
Era ainda nove da noite, mas a casa dos Rabinovich já retumbava com a mĂşsica alta. Pernas e corpos se entredançavam conforme a batida eletrĂ´nica invadia os jovens tĂmpanos dos presentes. O anfitriĂŁo, Davi, andarilhava todo prosa por lá e acolá com petiscos, bebidas e o que mais fosse que os adolescentes ali quisessem. A garagem era grande e os carros que ali viviam nĂŁo lá estavam, tal como os pais do rapaz, que trabalhavam em todo o paĂs. O judeu incorpora o tĂpico garoto da elite paulistana: rico, sem apreensões, inconsequente. Há algumas latinhas de cerveja, a preocupação com as posses ainda se fazia presente, mas agora tudo vibrava em ondas alucinadas.
– Paulo, cadĂŞ a Marcelina? – AlĂcia indagara. – Já procurei muito, mas nĂŁo acho ela.
 – Ela não quis vir. – Respondeu Paulo quase que insolente sem nem desviar o olhar.
 – E ela ficou sozinha?
 – Quando eu saĂ a empregada ainda estava lá. – O rapaz finalmente olhou para AlĂcia. Desvencilhou-se da menina que se agarrava a ele e tirou dum bolso da calça um molho de chaves. – Vai lá. Talvez ela goste de te ver. – E atirou as chaves para a morena, que as apanhou no ar e se virou nos calcanhares para sair, mas nĂŁo sem antes um gesto de desaprovação.
 Carregando uma garrafa de vodca em uma mão e Maria Joaquina na outra, Cirilo apareceu todo sorrisos e gracejos. Agora os Cuecas Sobreviventes estavam todos ali. A namorada do moreno, como de costume, pisava em ovos ao andar e olhava os desconhecidos de esguelha e com os lábios tão retorcidos que ela mais parecia sentir dor a repulsa.
 – E ai, Davi! – Cumprimentou o amigo com o ritmado clape-clape de sempre.
 – E quem mais seria? – Essa foi a resposta. – Tó. Experimenta ai.
 Quase instantaneamente, Jaime se aproximou. Sozinho. Bochechas, lábios, queixo e testa manchados de diversas cores. Respiração ainda ofegante e sorriso satisfeito. A gola da camisa polo estava desmazelada e os botões já nĂŁo mais entrariam em suas casas. Os braços arranhados e o pescoço era uma confusĂŁo de chupões que brigavam por espaço tais quais as garotas que os fizeram. Davi e Cirilo o encararam com tĂpicos olhares que significavam algo entre a surpresa e a banalidade, já que Jaime era sempre o centro das atenções femininas nas house parties. Reunidos, os Cuecas Sobreviventes clapearam todos juntos a saudação do clube.
 – Qual foi, Cirilo? – Jaime sorriu de braços abertos para o amigo. – Eu acho que você já tá nessa de Maria Chatonilda há tanto tempo que tá ficando muito acomodado. Tudo tá bom, tudo de boa.
 – Esse daqui já nasceu com essa fixação de Maria Joaquina. Vai morrer com ela. – O amigo judeu debochou antes de virar uma garrafa da tal caipirinha.
 Uma mordidela na orelha e um beijo no pescoço depois, Davi se desvencilhou da ruiva, apanhou o vestido e entregou a ela. Confuso, alto pelo álcool e excitado, o menino quase se deixara levar pelo desejo. Pediu para que ela saĂsse da sala e se desculpou enquanto ela colocava o vestido no corpo novamente. Já na porta, Davi a chamou.
 – Tu fumou o quê, cara? – Davi estava completamente vermelho. – Quer saber, vaza da minha festa. Vaza logo, vadia! E sai pela porta de trás. – Saiu da cozinha depois de encarar a garota com olhos furiosos. Do lado de fora, encarou a porta e a socou. “Que merda foi essa?” Mas virou-se de supetão quando ouviu uma voz familiar lhe chamar.
 – Eu? Nada nĂŁo. – A voz saiu trĂŞmula demais. – Era sĂł uma garota que queria vomitar na cozinha. Mas eu mandei ela pra fora. – Desculpa pĂfia. Agora estava completamente denunciado. – Por que nĂŁo vem dançar comigo? O Paulo trouxe umas paradas bem maneiras. – Desconversou.
 – Não sei por que motivo, mas não tá colando essa sua conversa. – Disse a loira enquanto ambos se encaminhavam de volta à garagem, onde a festa acontecia.
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