“Não seja um idiota, Luke!”
Roger respirou fundo, olhou para Luke e sorriu. Às vezes se pegava pensando em como era difícil manter sua amizade com Luke. Ele, um cara tão sintético e Luke um cara extremamente complexo e difícil de lidar. A sinceridade de Roger parecia não ajudar Luke em nada. A cabeça era mais dura que suas palavras, não infiltravam. Mas era por isso que Roger sorrira olhando para Luke. Ele tinha certeza de que a amizade deles era real, mesmo que árdua. Luke podia ser um tremendo desleixado com seus relacionamentos, mas sabia ser amigo.
Roger olhou para o barman e fez o sinal de “mais duas” . Segundos depois o barman os serviu com duas cervejas. Luke e Roger deram um gole simultaneamente e em seguida Luke começou a proferir.
– Certo. 2 meses e ela já está com outro. Ela fez toda aquela cena de amor para 2 meses depois sair com outro cara. – Luke manteve sua cara fechada, segurou a garrava e limitou-se em apenas beber.
– Por que isso te incomoda? – Questionou Roger.
– Não me incomoda! – Respondeu Luke com seu jeito normal, ríspido e frio.
– Então por que está falando disso? – Roger levou a garrafa até a boca e deu um longo gole. Ciente de que Luke estava desconfortável com a situação, ele estava determinado a tocar na ferida do seu amigo.
– Não sei, Roger! – Luke limitou-se a essas palavras. Os dois seguiram bebendo. Luke apoiou um dos seus braços no balcão, depositando o peso de corpo ali. Roger optou em manter-se calado. Conhecia Luke tempo o suficiente para saber como faze-lo desabafar: Desistindo do assunto.
– Tudo bem, Luke. Se você ‘não sabe’, então você não sabe. – Roger pigarreou e em seguida deu um gole em sua cerveja.
– Eu vou ligar pra ela! – Luke chacoalhou a cabeça, atordoado. – Oi? – Roger quase cuspiu a cerveja fora. Limpou o canto da boca onde havia resíduos de cerveja e continuo a falar. –Auto lá, rapaz! Você não vai nem se quer tocar nesse telefone! – Rapidamente Roger decidiu invadir a privacidade de seu amigo. Levou a mão até o bolso da jaqueta de Luke e sem permitir que o mesmo lutasse contra, capturou seu telefone. Guardou o aparelho em sua calça e manteve sua mão livre em cima do mesmo, bloqueando o acesso caso Luke decidisse recupera-lo.
– Cara, por que você fez isso? – Questionou Luke após lançar um olhar de desaprovação para Roger. – Porque sou seu amigo. Estou lhe impedindo de ser um idiota. – Retrucou Roger. – Idiota? Ela que é uma idiota. – Luke sorriu. Não era um sorriso alegre, era um sorriso de deboche e Roger foi capaz de lê-lo assim que o viu.
– Não, Luke. Ela não é uma idiota. – Roger falou agora com a voz dois tons a baixo, típico de alguém a beira da derrota. Roger estufou o peito e continuou. – Você é um idiota! – Dessa vez Luke quase cuspiu a cerveja fora. Levou a mão até cerveja de Roger e a afastou do rapaz, rindo. – Chega de beber por hoje, Roger. Você atingiu seu limite! – Luke manteve-se rindo da situação. Roger até abriu um sorriso meio de canto, mas sabia que a situação era critica demais para se deixar levar por uma brincadeira de seu amigo.
– Luke, eu estou falando sério! – Roger soou mais agressivo do que esperava. Tomou sua garrafa de volta e a colocou longe do alcance de Luke.
Luke olhou para Roger forçando uma feição triste, mas logo voltou a rir. Tomou mais um gole de sua cerveja e se perdeu por dez segundos em seus pensamentos. Em um rápido reflexo, Luke avistou uma morena adentrar o bar onde eles estavam. Retirou a cerveja da boca e curvou-se para acompanhar a moça que andava pelo corredor do bar quase como uma modelo em uma passarela. Levantou a mão para Roger, fazendo o sinal de “só mais um segundo”. Esperou a moça olhar para ele, mas morreu em suas expectativas. Voltou a senta-se de frente para o balcão, deu mais um gole em sua cerveja e por fim voltou a olhar para Roger.
– Você viu o que eu vi? – Questionou Luke, pasmo.
– Sim, Luke. Eu vi. – Respondeu Roger de mau gosto.
– Choraria por ela. – Disse Luke, levando a mão direita até o lado esquerdo do peito.
– Idiota! – Rebateu Roger. – Luke, O idiota. – Disse Luke mais uma vez em forma de deboche.
– É. – Respondeu Roger, já desistindo do assunto.
– Ir atrás dela me faz um idiota? Nos filmes quando os mocinhos vão atrás das mocinhas, por que ninguém o tarjam como idiotas? – Questionou Luke se fazendo de desentendido.
– Porra, Luke. Você apela mesmo. – Roger começou a rir enquanto levava sua cerveja até a boca.
– Oras! O que eu disse de errado? – Novamente Luke se fez de desentendido.
Luke fez muxoxo para a situação e preferiu parar de enrolar. Luke agia como um cínico, e aquele papo estava enchendo a paciência de Roger.
– Vou ser sincero e breve. Assim que eu disser o que eu tenho para dizer, esse assunto morre aqui e pronto. – Disse Roger se virando totalmente para Luke.
– Ui! Ele ficou sério. – Debochou Luke.
– Luke, é sério. – Agora a expressão de Roger era dura e fechada. Nada de risos ou sorriso. O papo era sério. A cartada final. Se Luke resolvesse ser um babaca após isso, Roger deitaria sua cabeça tranquilamente no travesseiro. Estaria ciente de que tentou ajudar da forma que pode.
Luke percebeu a diferença no tom de voz de Roger, mas como não costumava dar o braço a torcer manteve a pose de piadista, porém suas orelhas estavam em pé, peradas para ouvir as palavras de Roger.
– Ok, então diga “oh senhor da razão”. – Zoou Luke.
– Ir atrás dela não te faz um idiota... – Disse Roger.
– Ah é? Então o que me faz um idiota? – Questionou Luke.
– Deixe-me terminar, cara. Que saco! – Resmungou Roger.
– Ok, nossa! – Após responder, Luke manteve-se calado.
– Obrigado! Ir atrás dela não te faz um idiota, como eu já disse. – Roger fez uma breve pausa para organizar os pensamentos e logo deu continuidade. – Ir atrás dela faria com que ela visse que você sente algo por ela... – Roger parou assim que Luke o interrompeu novamente.
– Mas eu não sinto, eu só... – Luke parou assim que viu Roger dar um leve tapa no balcão.
– CARALHO LUKE, você é muito chato. Pare de interromper. Saia dessa defensiva e me deixe falar. – Rebateu Roger, já sem paciência.
Dessa vez Luke não respondeu. Olhou ao seu redor para ver se ninguém os observara. Roger se alterou um pouco ao ser interrompido, talvez aquilo pudesse alarmar outras pessoas para ficarem de fofoca sobre os dois.
– Eu vou continuar, Luke. Cale essa boca, tudo bem? – Roger olhou para Luke e viu o mesmo fazer que sim com a cabeça. Sorriu internamente ao perceber que Luke havia entendido a seriedade do que ele iria falar. – Continuando... Ir atrás dela faria acreditar que talvez você sinta algo por ela, sendo que você não sente. Você não sente por ninguém. Nem por sua pela sua falecida mãe e nem pelo pobre do seu pai. – Roger engoliu a seco as palavras que proferira, mas não se arrependeu de tal feito.
Luke não era do tipo familiar. Ele amava sua família, claro. Mas os odiava na mesma intensidade. Ele era do contra quando se tratava de sentimentos. Era mais apegado aos seus avós do que aos seus pais. Aos seus primos do que aos seus irmãos. Mais apegado a mim do que as sua ex-namorada, Anita. Era complicado entender por que ele agia de tal forma. Mas esse era o Luke. Sem motivos ele era assim.
Luke manteve-se apoiado no balcão enquanto prestava atenção nas coisas que Roger dizia.
– Continua, Roger. – Disse Luke desafiando Roger e demonstrando impaciência .
– Você não a quer de volta, Luke. Você só não a quer com outra pessoa. É isso que eu estou tentando dizer. – Roger apenas soltou a verdade, sem prolongar a enrolação.
– Não. – Disse Luke brevemente.
– “Não” o que? – Indagou Roger.
– “Não” sei se essas são as palavras certas. – Respondeu Luke.
– Ah “Não”? Então tenta me explicar o que é, porque eu estou bem perdido e totalmente ciente de que estou certo. – Desafiou Roger.
– Eu só acho que ela mentiu sobre me amar e fez todo aquele drama a toa. – Respondeu Luke totalmente indiferente.
– Idiota! – Rebateu Roger.
– De novo? – Luke olhou para Roger novamente com cara de deboche.
– Ir atrás dela por gostar dela não te faz um idiota. Mas ir atrás dela por capricho, por saber que ela está seguindo a vida em frente e está com outro, ai sim te torna um tremendo de um idiota. Possivelmente esse cara vai dar a ela o que você não foi capaz de dar, muito menos de oferecer. Acorda, Luke. Você está agindo como um idiota! – Roger cutucou Luke, como se estivesse tentando fazer o rapaz acordar de verdade, e em seguida levou a mão até o bolso da calça, tirou o aparelho telefônico e devolveu a Luke. – Você já sabe minha opinião. Sou o anjo que está no seu ombro direito dizendo “Não seja um idiota, Luke.” Mas a escolha é sua e as consequências também. – Roger deu um leve murro no ombro de Luke, selando a irmandade e finalizando o assunto.
Luke se manteve pensativo após ouvir o que Roger dissera. Levou a garrafa de cerveja uma ultima vez a boca e finalizou a mesma com um gole profundo. Passou a manga da jaqueta em sua boca, limpando a mesma.
– Tudo bem, Roger. – Em seguida pegou o celular e começou a perambular por sua lista de números. Clicou no numero de Anita e digitou uma breve mensagem.
Roger também finalizou sua cerveja. Olhou para o lado e viu Luke teclar várias vezes no celular. Seu instinto sabia o que Luke estava fazendo. Ele estava contatando Anita. Roger ergue a cabeça e voltou a olhar para frente.
– “Não seja um idiota, Luke!” – Roger sorriu, levou a mão até o bolso de sua calça, sacou a carteira e deixou o dinheiro das cervejas que ele e Luke haviam bebido. Levantou do banco em quem estava sentado, deu um tapa nas costas do amigo e saiu do bar, sem enrolação.
Para Roger era sempre a mesma coisa. Ele falava, falava e falava, mas a cabeça de Luke era dura demais para aceitar conselhos, mas Roger nunca desistia. Ele tinha em sua mente que nunca se deve desistir de um amigo e sempre fazia isso valer.
Naquela mesma noite, Roger dirigiu por trinta minutos até o outro lado da cidade. Era sexta-feira, mas Roger não era o tipo de cara que adorava sexta-feira por conta de uma festa. Ele sempre fora mais reservado.
Estacionou o carro em uma rua calma, porém cheia de casas, jardins bem cuidados e minivans . Desceu do carro e foi em direção à porta de seu destino. Tocou a campainha uma única vez. Em questão de segundos a porta se abriu, fazendo Roger sorrir. Uma moça de cabelos pretos nada uniformes e um pijama surrado retribuiu o sorriso. Roger deu um passo à frente e abraçou a moça pela cintura, mas a moça foi mais ousada e o beijou brevemente. Assim os lábios se afastaram, Roger soltou a cintura da moça, mas agarrou sua mão. A moça retribuiu o gesto interlaçando os dedos de ambos.
– Boa noite, senhor Roger. – Disse a moça em um tom brincalhão, o mesmo que quase sempre fizera o coração de Roger parar.
Roger tomou folego para se recuperar e por fim respondeu.
– Boa noite, senhorita Anita! –









