A 1ª vez da Mulher-Maravilha em live-action
“Mulher-Maravilha” já chegou como um marco. Não, ele não é o primeiro filme solo baseado em uma heroína dos quadrinhos, Supergirl já havia tido essa oportunidade em sua película dos anos 80 e mesmo anti-heroínas como Mulher Gato e Elektra (da Marvel) tentaram sua sorte, além de muitas outras tentativas com personagens que não vieram dos gibis, resultando, porém, em obras que costumeiramente pouco fizeram sucesso e em quase nada ajudaram a consolidar as mais famosas figuras femininas das HQs em papéis protagonistas nos cinemas. Essa é a importância do novo “Wonder Woman”, que desembarca na sétima arte com uma maior aprovação de público e critica e servindo para celebrar o atual momento dessas adaptações (que vivem uma espécie de “era de ouro”) e abrir ainda mais espaço para as mulheres mais maravilhosas da arte sequencial.
Curiosamente, “Mulher Maravilha” foi também uma precursora nas páginas criadas por William Moulton Marston em 1941 e mantém o posto na transposição live-action, Gal Gadot, a estrela da atual produção, herdou o manto que havia sido imortalizado por Lynda Carter no famoso seriado lá dos anos 70, contudo, a honra de ter encarnado Diana Prince em seu primeiro filme coube a Cathy Lee Crosby, um ano antes da própria Carter! Em 1974 a Warner (então, comprada pela Kinney National Company, que também adquiriu a DC Comics em 1967), desenvolveu o primeiro longa para TV que serviria como episódio-piloto para um possível seriado da amazona. Dirigido pelo veterano da televisão John D.F. Black, a produção apresentou uma Diana completamente loira e influenciada pelos programas e longas setentistas de espionagem internacional estilo 007 e Charlie’s Angels. Sem o mesmo glamour e bilheteria de suas contrapartes melhor sucedidas, claro.
Pouco da mitologia original é aproveitado, Steve Trevor (o ator Kaz Garas) comanda uma agência governamental de espionagem e sua secretária faz dupla jornada como “Mulher-Maravilha”, vinda de uma ilha paraíso comandada por mulheres para “viver” no mundo dos homens, aguentando a papelada do dia-a-dia e as cantadas de seus colegas de trabalho antes de partir em missões secretas de conhecimento somente de seu patrão (figurantes também lançam seu olhar pervertido a cada caminhada charmosa de Lee Cosby e mesmo os vilões parecem interessados em uma noite de amor com a moça). Impregnada de maneirismos e músicas da época, a atração sofre com algumas concepções que permeavam as comics do período, quando Diana perdeu seus poderes e se especializou em artes marciais. Essa “visão” impacta a produção, que ao copiar tais características se distancia da roupagem clássica que hoje associamos a W.W.
Felizmente para os dcnautas, a editora logo desfez essas mudanças editoriais e trouxe a criação de Moulton Marston para mais perto de suas poderosas origens, justamente quando o especial em carne-e-osso chegava às telas, resultando em números moderados de audiência e uma reavaliação póstuma dos executivos, que optaram por continuar apostando na marca, mas seguindo a corrente e dando sinal verde para a gravação de outro piloto (apelidado de “The New Original Wonder Woman”), que estreou no ano seguinte, agora com Lynda Carter no elenco (ela tinha sido cotada para o anterior, perdendo o papel para Lee) e trajando o uniforme icônico das HQs (totalmente descaracterizado nessa versão “jumpsuit c/ jaqueta” de 1974). Resgatado num lançamento em DVD (nos EUA) através da linha Warner Archive Collection, essa fita “perdida” é um achado que nos ajuda a entender o enorme caminho que precisou ser percorrido, cheio de tropeços e alguns acertos impulsionando à frente, chegando até o contemporâneo título dirigido por Paty Jenkins - que faz justiça a (provavelmente mais) importante ‘super mulher’ da cultura Pop.
PS: Aqui, o vilão é vivido por ninguém mais, ninguém menos, do que Ricardo Montalban - o Khan de “Jornada nas Estrelas”. Sua voz marcante e imediatamente identificadora torna inútil o clichê de tentar esconder seu rosto (algo típico em histórias de agentes secretos) durante boa parte da projeção, até a revelação nem um pouco bombástica de que o ator se trata mesmo de Montalban!