Oh how you give me chills — Juthan
Ainda era difícil para Julian se acostumar a sua segunda vida. Depois de tudo havia passado, incluindo a fuga da Inglaterra e o encontro com o retiro espiritual que mudou seu modo de ver as coisas, a última coisa que ele esperava nessa vida era se tornar um vampiro. Não que isso fosse uma coisa ruim, é claro. Sempre lia muito sobre tais criaturas míticas, e uma das características que eram atribuídas a uma pessoa, depois da mordida fatal, era o ganho de uma beleza mais gélida. Mortal. Carter sabia que possuía certo charme natural, sua pele latina e seus olhos claros eram a prova disso, mas agora ele parecia simplesmente... Irresistível. Mesmo que não pudesse se olhar no espelho, ou em qualquer reflexo, ele sentia que tinha um novo impacto nas pessoas. Podia ver nos olhos dos seus vizinhos, das pessoas que encontrava em clubes noturnos, e até mesmo no olhar de Ethan. A seu ver, era tudo parte da natureza que fazia dele uma fera, um predador. Assim como as cobras podem hipnotizar pequenos pássaros, leopardos se moverem a velocidades gigantescas, Julian podia atrair quem quer que fosse para uma armadilha.
E na noite em questão não havia sido diferente. Havia saído cedo, o sol havia acabado de se por. Ainda podia sentir a diferença na temperatura, a mudança repentina do dia para a noite, mas isso não o atingia mais. Estava acostumado. Havia escolhido uma garota aleatória, que pela roupa parecia estar saindo do trabalho. Usava uma camiseta branca, lisa, e um crachá listrado com seu nome. Não se deu ao trabalho de lê-lo. Sabia que isso era apenas um detalhe sem importância, sem falar que isso implicaria em trazer sua humanidade a tona. Ainda que estivesse morto, podia sentir, no seu coração parado, uma pontada de pena das pessoas que precisava matar para saciar a própria fome. Não saber o nome dos indivíduos ajudava muito. Alimentava-se vorazmente, uma vez que sua ultima caçada havia sido pelo menos cinco dias atrás. Geralmente esperava uma semana para fazê-lo de novo, mas dessa vez estava tão faminto que provavelmente morreria – mais uma vez – se ficasse mais uma hora sem comer. Ela estava parada, seu rosto demonstrava prazer, êxtase; algo que só uma mordida de vampiro podia proporcionar a alguém. Não se lembrava com precisão como havia sido a sua, apesar de ter acontecido há menos de um ano. Mas ele sabia que havia sido bom. Não se conteve dessa vez, e acabou espalhando bastante sangue pela roupa dela. Ela não parecia ligar, contudo. E nem precisaria, afinal as roupas seriam despojadas, junto do corpo, em algum terreno vazio. Mas ainda faltava muito tempo para que ele terminasse o que havia começado.
Foi quando, subitamente, ouviu a porta do apartamento abrir. Droga. Desgrudou-se do pescoço da menina, tirando um pouco do próprio sangue e passando acima do ferimento dela. Podia ouvir com precisão as chaves sendo postas em cima dela, os passos no cômodo ao lado. Mil vezes droga. Não esperava que seu companheiro de apartamento fosse voltar tão cedo. Quando terminou seu ritual, olhou-a bem fundo nos olhos, hipnotizando-a para que se esquecesse do que quer que houvesse acontecido. Segurou-a pela mão, colocando o próprio casaco acima da roupa melecada de sangue dela. Não poderia lidar com isso agora. Chegou, enfim, até onde o outro se encontrava, deixando que a garota se guiasse até a porta — Te vejo depois. — disse, soando distraído — E ai Eth? Como foram as aulas hoje? — sorriu, então, jogando-se ao sofá enquanto tentava afastar a própria fome. Teria que finalizar sua janta depois.