Oh how you give me chills — Juthan
Era uma tarefa impossível resistir a algo que tanto desejava. Sentia-se como um viciado e no momento Julian era sua droga. Ele não o faria mal como tal, porém não havia se esquecido da desconhecida com quem esbarrou no momento em que entrou no apartamento. Agora a moça era tão irrelevante quanto à vontade que Ethan tinha de resistir ao outro, pois o desejava de uma maneira que não achou ser mais possível. Parecia ter se passado uma vida desde a última vez que quis alguém de forma tão intensa e lembrava-se com detalhes de todo o processo desse relacionamento que acabou de forma desagradável. Foi nessas circunstâncias em que encontrou o garoto Carter. Na época estava de coração partido, mas aos poucos o moreno foi remendando seu órgão ferido. Desde o princípio ele havia sido sua droga, mas uma droga que o beneficiava. Julian era mais como um medicamento do qual usou e abusou para que se sentisse completo novamente. Ele o ensinou a sentir algo novamente, algo que o jovem Harvey nunca achou ser possível. Seu coração já pertencia à outra pessoa, mas deu liberdade a Julian para que cuidasse bem dele e por um longo período ele exerceu bem sua função.
Por mais que Ethan desde o início previsse um rompimento nunca imaginou que mesmo após o acontecimento continuaria junto de Carter. Pouco menos imaginou que seria difícil superar o garoto. Nunca realmente se esforçou para seguir em frente, pois se acostumou mal com os tratos do outro e teve receio de que não recebesse tal tratamento de outra pessoa. E também gostava muito de Julian para deixá-lo ser apenas mais um que deixaria para trás. Não repetiria o mesmo ato duas vezes. E independente de seu novo comportamento que o atordoava, não conseguia deixá-lo só. Algo que Ethan sempre notou foi que além de sua companhia, Julian não possuía mais ninguém. Podia ter seus affairs, mas no final do dia era sempre o loiro que permanecia ao seu lado. Gostava de imaginar que, de certa forma, também fazia bem ao garoto e que era a razão dele ainda insistir em tentar ser o jovem que havia sido um dia. Também não possuía ninguém além do moreno, devido a sua incapacidade de se relacionar com pessoas e por deixar as que amavam para trás sem olhar para trás. Julian não seria outro caso desses, não importando o quanto ele mudasse.
A voz do garoto livrou Ethan de seu devaneio e após tanta reflexão nem mesmo lembrava-se o motivo do por que resistira tanto. Havia sido mais por charme, pois não existia um motivo convincente. Sentiu a presença do moreno junto de si. Seus lábios tocando sua bochecha fizeram com que os pelos de sua nunca se eriçassem e então um breve beijo formou-se e com esse breve gesto Julian conseguiu ganhar o loiro totalmente. Era inexplicável o quanto parecia fácil para ele persuadir as pessoas e com Ethan parecia ainda mais simples, pois já tinha uma grande vantagem devido aos seus sentimentos. – Você não me dá nem ao menos chance de ficar zangado. Qual a graça desse relacionamento, afinal? – Sorriu brevemente. Algo que não fazia há um bom tempo. Procurou então o catálogo na direção em que Julian apontava e assim que o encontrou o pegou desajeitadamente. O movimento lhe custou um pequeno corte, mas que não poupou o sangramento. – Droga! – Levou seu dedo em direção aos lábios como num beijo, na intenção de fazer com que parasse de sangrar. Não foi um gesto bem sucedido, entretanto. – Não deixe que isso o impeça de fazer o que você pretendia. – Não conseguia descrever exatamente o que via em sua frente, mas não era agradável a expressão no rosto do moreno. – É só um pequeno corte de papel, Julian. – Apesar de pequeno estava sendo um grande incômodo.
Não esperava outra reação do garoto. Sabia que causava grande efeito nas pessoas, não era muito difícil afinal. Tinha uma beleza cruel e habilidade com as palavras. Com Ethan não era diferente. Não bastava mais do que um simples gesto, como um pequeno roçar de lábios, para que o outro estivesse completamente na sua. Tinha seus receios, sim, que ele acabasse criando uma resistência natural contra si depois de um tempo; mas já estavam há um ano nessa dinâmica e nada havia mudado. Exceto, talvez, o fato de o outro ficar a cada dia mais bonito e radiante. E quanto a si próprio? Bem, ele não via muita diferença. Não envelhecia, não criava rugas; todo seu corpo havia parado de se desenvolver. Seus órgãos internos presos numa eterna luta contra o tempo. Estavam todos lá, imóveis, mortos, mas sem mudança alguma coisa. Tinha receio de que eles fossem apodrecer com o tempo, mas descobriu que tal coisa não aconteceria. Apesar de tudo, achava que só podia afirmar que sua pele parecia mais pálida a cada dia. Havia chegado a Sydney com um enorme bronzeado, já que era naturalmente latino, mas agora parecia com um garoto que passou tempo demais em frente a um computador.
Não se importava com isso, contudo. Havia aprendido a desprender-se das coisas desse mundo. A única coisa – ou melhor, pessoa – que ainda resistia a isso era Ethan. Que o mundo todo se explodisse, mas que Harvey continuasse do seu lado. Preferia não demonstrar isso, entretanto, já que mostrar fraqueza implicava em uma dependência. E, até o exato momento, era Julian quem tinha o loiro na palma da mão, e não o contrário. Preferia manter as coisas assim. Ethan era adorável quando decepcionado, e por Carter eles talvez nem tivessem interrompido aquele momento; mas tinha consciência que o outro precisava de comida tanto a si próprio. E talvez, por uma ironia do destino, aconteceu aquilo. Foi tão rápido que nem pode notar, mas em um segundo Ethan estava rindo; no outro, a ponta do seu dedo estava sangrando. Havia se cortado com o papel, maldito papel. Devia ter sabido de tal coisa no momento, mas estava ocupado demais flertando com o outro. Seu estomago revirou e suas presas saíram involuntariamente, ferindo seus lábios. Cobriu a boca com a mão, afastando em seguida do outro até cair no chão.
Seu coração martelava forte. Sentia o suor brotando da sua testa. O cheiro das hemoglobinas se tornando mais alto, chegando ao seu nariz, penetrando seus poros. Podia sentir, mesmo que rapidamente, os próprios membros ficarem enrijecidos, prontos para o bote. Sentia-se, subitamente, como um predador prestes a atacar um viado que bebia água à beira de lago. Seria cômico se não fosse tão trágico. Geralmente Julian era bastante controlado, mas isso era quando estava muito bem alimentado. Naquele exato momento, estava com mais fome do que nunca. Seu apetite estava tão elevado que estava tendo um ataque — Ethan... — balbuciou, sentindo o gosto metálico de o próprio sangue invadir a boca. Não era deleitoso, porém. Sangue de vampiro é coagulado, velho. Morto. Mas o sangue de Harvey era do tipo mais vivo e delicioso que existia. E, exatamente por isso, ele correu. Correu para o banheiro, lavando o próprio rosto e sentindo os lábios cicatrizarem. Fechou a porta de sopetão, trancando-a — Estou bem. — gritou, sem saber se o outro estava escutando ou não — Não se preocupe, estou bem. — a própria voz diminuindo o ritmo, virando apenas ruído, à medida que ele escorregava até o chão. Quase perdera o controle e atacara a única pessoa que queria defender em toda a face da terra. Sentia-se tão culpado que era capaz de se auto-flogelar. Mas sua própria existência já era castigo o suficiente.















