jorg. - Coisas Pequenas (2019)
Demora um tempo até cair a ficha que ganâncias juvenis não são o que realmente importa É longo o caminho que leva à compreensão da trivialidade que dita os triunfos de uma vida. São nos pormenores que os dias ganham impulso e sentido. Ao mesmo tempo, são as poeiras imperceptÃveis que obstruem a visão e é a minúscula pedrinha no sapato que incomoda de verdade. Para o bem ou para o mal, e quase num irônico paradoxo, os ditos momentos irrelevantes ganham mais relevância, ao longo do tempo. Ao passo que as megalomanias da mocidade se esvaem ao longo dos embates com a realidade. Nem sempre essa percepção se desenvolve tão rapidamente quanto deveria. Calejar no desencanto nunca é um processo agradável.
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Ensaisticamente, jorg. põe lentes macro sobre situações e detalhes da vida que poderiam, facilmente, passar despercebidos. Nessa onda de recordar — que é viver — e refletir, o alagoano organiza um álbum — em ambos significados da palavra — pessoal que revela, através de memórias, a ironia e o pesar que tensionam relações e correspondências. Em visitas a conflitos internos, desconfortáveis circunstâncias e agradáveis surpresas, o registro é como uma lúdica costura de emoções que o protegem pela noite e faz sombra durante o dia. Num esboço a grafite, os versos de jorg. formam um olhar particular sobre as pequenas coisas que o rodeia.
Chega a maturidade, e uma das algemas que se desprende é a infame preocupação sobre o julgamento alheio. Com o tempo, a gente se desprende e aprende a se permitir ser o que quiser, mesmo que não faça tanto sentido assim. Quase como um receptáculo da cultura noventista, Coisas Pequenas reúne em um só lugar as sonoridades que protagonizaram o rock alternativo da virada do milênio. Na amplitude de ramos que crescem ao derredor do veio dos anos 90, o indie e o emo — meio midwest, meio pós-punk — ganham ênfase na estreia do cantor. Mas sem deixar a nostalgia comandar, elementos da música brasileira e sonoridades contemporâneas entram em cena, em uma tentativa obtusa de unir timbres e vozes de tempos distintos.
Pitadas de rock clássico, emulsões de ritmo com poesia e a textura assinada pelo rock independente do Brasil atual. Num sarapatel de inspirações, nascem e se dissolvem incontáveis ingredientes, que nem sempre se harmonizam entre si. Embora o contraste dos elementos não comprometa a degustação, há um vão a ser preenchido e guiar o trabalho para uma tônica, que não seja todas ou qualquer uma. Falta tempero nesse caldo.
Na tentativa de exaltar as coisas pequenas, jorg. acaba tentando abraçar o mundo. É a mais pura ironia contraditória, que conspira contra o mérito da simplicidade. Buscando aproximar referências basilares a novas fontes, emerge um trabalho levemente lânguido, moderado até demais. TÃmidas sugestões de para onde seguir. O problema é que, nas muitas predileções que surgem ao alcance das mãos, Coisas Pequenas acaba ficando no meio do caminho — ou no mesmo lugar. Vai saber, à s vezes a glória esteja nas amenidades. Talvez o problema seja eu, que não cheguei à boa idade.
Duração: 30 minutos
Selo: Independente
Gênero: Rock Alternativo
Melhores músicas: Essa Semana, Plataforma, Vitória VÃdeo
Você também irá gostar de: Tom Gangue, Slaughter Beach, Dog, Miêta, Baztian
Nota: 6 e 8 VHS’s