Sobre o filme, “Mary e Max - Uma Amizade Diferente” de 2009*
Resenha Psicanalítica Sobre a Amizade, a Falha e a Possibilidade de Reparação
* Resenha com spoiler. Melhor assistir ao filme primeiro.
“Mary e Max” é um filme de animação em stop-motion (uma técnica em que objetos são fotografados quadro a quadro), sem uso de CGI (Computer-Generated Imagery). Ou seja, nada ali é digitalizado: tudo existe fisicamente em estúdio. O filme levou cinco anos para ser concluído. Cada segundo do filme exigiu 24 fotografias, todas manipuladas manualmente. Cada personagem foi inteiramente construído à mão, com silicone, argila e estruturas internas de metal. Os cenários — ruas, casas, objetos, comida, roupas — também foram produzidos artesanalmente, peça por peça. Assim, cada movimento, por menor que fosse, exigia que os animadores deslocassem os bonecos milímetro a milímetro antes de fotografar. O diretor, Adam Elliot, recusa o uso de CGI para “suavizar” a animação, pois acredita que o stop-motion expressa melhor a vulnerabilidade humana — algo magistralmente retratado no filme.
O filme aborda temas humanos com profundidade: solidão, falhas ambientais, conteúdos fantasmáticos, a busca pelo outro e a possibilidade de reparação emocional. Mary e Max criam, através das cartas, um espaço emocional compartilhado, no qual a subjetividade de um afeta a do outro e ambos se transformam, ora colapsando, ora reorganizando partes fundamentais de si mesmos. Forma-se um território psicológico conjunto, co-criado, onde a experiência emocional ocorre entre dois sujeitos, e não apenas dentro deles.
Nas cartas que enviam um ao outro, revelam-se conteúdos que descrevem seus medos mais infantis, com vulnerabilidades ainda sem defesas elaboradas. Emergem afetos primários, arcaicos, com núcleos de angústia que, em um contato face a face, permaneceriam recalcados. Mary nasce em um ambiente emocional marcado pela negligência materna, alcoolismo, violência simbólica e ausência de vínculo seguro. Isso produz nela angústias primitivas de cisão: sua mãe é vivida quase sempre como exclusivamente má, instável, descontrolada, desonesta, imprevisível, emocionalmente inacessível e não confiável. Sobre essa figura materna, Mary deposita projeções de angústia e confusão que não consegue metabolizar, o que se manifesta em ansiedades persecutórias (“as pessoas não gostam de mim porque minha mãe é feia”, “sou estranha”, etc.). “Uma alma complicada”, como dizia a própria Mary.
Ela relata tudo isso com a naturalidade de quem apenas se acostumou a um ambiente desorganizador, diante relações negligentes, pouco empáticas, ameaçadoras, sem condições de integração emocional. Nesse funcionamento, cada personagem é vivido como totalmente bom ou totalmente mau.
Em contraste com a mãe, Max surge, no início do filme para Mary, como alguém — mesmo nunca tendo sido encontrado fisicamente — idealizado positivamente: compreensivo, acolhedor, confiável e incapaz de rejeitá-la. Mary opera com defesas primitivas, mantendo tendência de separar o mundo entre figuras idealizadas e figuras persecutórias, sem nuances intermediárias. Com o tempo, à medida que a troca de cartas se intensifica, Mary começa a projetar em Max partes intoleráveis de si. E Max responde emocionalmente a essas projeções, sentindo exatamente aquilo que ela não consegue elaborar sozinha.
Ele passa a experimentar ansiedade, confusão, medo de perdê-la e sobrecarga emocional diante da responsabilidade de responder. As cartas de Mary o reativam a lembrança de dores antigas — dores que nem acontecimentos extremos, como ter sido acusado injustamente de homicídio culposo ou até ganhar na loteria, conseguem igualar em impacto emocional. Max sofre um colapso e acaba internado em um hospital psiquiátrico. Mary também atravessa tragédias — a morte do pai por afogamento e, depois, a morte da mãe ao confundir o frasco de bebida com fluido para embalsamar animais —, mas o que precipita seu próprio colapso é a ruptura com Max.
Já adulta, Mary aparentemente refeita de suas dores infantis, após um casamento e sua entrada na Faculdade, publica em seguida um livro sobre a Síndrome de Asperger, usando a vida de Max como base de seus estudos, sem o consentimento dele. Para alguém com Asperger, isso representa uma quebra profunda de previsibilidade e violação de intimidade, levando Max a entrar num colapso ansioso e agressivo típico de seu funcionamento. Ele sente-se traído, usado e reduzido a um objeto de estudo. Corta completamente o vínculo e devolve o ursinho que Mary lhe dera, simbolizando o fim da relação.
A partir disso, Mary entra em derrocada emocional: culpa persecutória intensa, sensação de ser “má”, destrutiva, tóxica; passa a beber como a mãe, abandona o autocuidado e mergulha em vazio existencial. Ela atinge um ponto grave: planeja suicídio, entra em desespero e vive um estado de “não-ser”, uma perda profunda de continuidade do self — o que expressa, ao mesmo tempo, a angústia kleiniana de destruição interna e a falha ambiental primária descrita por Winnicott sendo reencenada.
Mary sobrevive à tentativa de suicídio. A partir de então, começa gradualmente a integrar suas partes quando reconhece que feriu Max e tenta reparar.
Na última carta que Max escreve para Mary, ele diz que a perdoa justamente porque ela não é perfeita. “Ninguém é. Eu também não sou”, afirma. Explica que todos carregam falhas — e que são essas imperfeições que nos tornam humanos.
Diz que ninguém escolhe os próprios defeitos: são partes que simplesmente compõem quem somos, e com as quais precisamos viver.
Compartilha sua metáfora preferida: a vida é como uma longa calçada. Algumas são lisas e bem cuidadas; outras, como a dele, têm rachaduras, cascas de banana e bitucas de cigarro pelo caminho.
Afirma que, apesar das falhas — as dele e as de Mary — ela continua sendo sua melhor amiga. Que o vínculo entre eles é raro, precioso, insubstituível.
Max escreve que, por mais dificuldade que tenha de compreender o mundo e as pessoas, Mary foi uma das poucas que ele conseguiu amar do jeito que sabia amar: de forma sincera, constante e silenciosa.
Mesmo quando ela o feriu, ele aprendeu que a dor também faz parte dos vínculos verdadeiros.
A carta funciona como um legado emocional: Max deseja que Mary continue vivendo, estudando, errando, acertando — apenas existindo. Diz que a maior descoberta de sua vida foi perceber que não precisava ser perfeito para amar ou ser amado.
A reconciliação tardia ocorre quando Mary decide procurar Max e viajar para encontrá-lo para pedir perdão e restabelecer o vínculo. Ao chegar ao apartamento, encontra Max morto, sentado em sua poltrona. Max morreu feliz, com todas as cartas de Mary penduradas no teto, formando seu “céu pessoal”. Ele a perdora silenciosamente.
O perdão de Max atua nela como reorganização psíquica: desfaz a fantasia arcaica de ser intrinsecamente defeituosa ou destrutiva. Ao ler a última carta, Mary entra em contato com um tipo de amor que não exige perfeição, que não abandona, não humilha, não pune. Mary percebe, pela primeira vez, que realmente foi amada. O encontro com as cartas guardadas rompe seu fantasma de desamor fundamental e a permite viver um luto que, em vez de destruí-la, a integra.
Diante daquele arquivo silencioso de afeto, ela vive algo radicalmente novo: a experiência de ter sido importante para alguém — verdadeiramente importante.










