Cuidado com a língua! | 9
Não diga que passabilidade cis/hétero são privilégios.
O que é isso?
Passabilidade cis: quando uma pessoa trans ou genderqueer consegue passar por cis. Por exemplo, quando uma pessoa trans ainda não transitou, quando pessoas não-binárias têm um estilo pessoal que seria o esperado por parte do género que lhes foi atribuído à nascença, ou mesmo quando fazem cis-playing (fazer de conta que são cis) no trabalho. Ou então, se tiver feito transição, é lida como cis simplesmente prque não se enquadra no que as pessoas assumem ser “parecer trans”
Passabilidade hétero: quando uma pessoa não-hétero consegue passar por hétero. Por exemplo, bissexuais em relacionamentos com alguém (percepcionado com sendo) do “género oposto”, assexuais heterorromânticos ou alguém que está a fingir que é hétero.
Mas se conseguem passar por cis/hétero, então não sofrem preconceito. Logo, é um privilégio, certo?
Errado. Conseguir passar por cis-hétero ajuda, de facto, a escapar de macro-agressões - violência física, ser expulso de casa/ser despedido ou outras situações de abuso. Contudo, não poupa as pessoas de micro-agressões, como:
Ouvir comentários discriminatórios - Ainda que não direcionados à própria pessoa, ouvir isso cria uma sensação de desconforto e insegurança, principalmente se não se puder interferir com menos de ser descoberto.
Invisibilidade, apagamento e desvalidação - A pessoa não pode mostrar quem é e perde também as chances de encontrar quem seja parecido, e é sufocante não se poder ser autêntico nem se ver representado.
Sentimento de culpa - Apesar de fazer isso por necessidade/segurança, há quem se sinta culpado por não contar a verdade às pessoas com quem convive, como se estivesse a ser desleal ou pouco confiável.
Ser discriminado pela própria comunidade lgbt+ - Gatekeepers são pessoas que acham que quem não é homossexual e/ou, eventualmente, trans, não sofre preconceito que chegue (apesar de a estatística provar que até sofre mais) e como tal não precisa nem merece fazer parte da comunidade, chamando toda a gente que não se enquadre nos seus padrões de cis-hets ou bihets ou trans-trenders.
E isto é presumindo que a pessoa está a fingir ser cis/hétero. Mais grave ainda é quando a pessoa já saiu do armário, faz questão de dizer que é lgbt+, mas continua a ser desvalidada, silenciada e invisibilizada, não podendo falar da sua identidade porque as pessoas torceriam o nariz ao ver assuntos lgbt+ a serem “esfregados na sua cara”, ficam aborrecidas com problematização, e acham que a pessoa está a exagerar e não é realmente lgbt+ - normalmente por não atender os estereótipos da sociedade.
Ser invisível não é um privilégio, e é importante travar expressões que transmitam essa ideia.

















