Porquê que se devia parar de reagir mal a labels
Eu já fiz um texto um pouco extenso [aqui] - que pode ser lido para obter mais detalhes, e que é resumido facilmente nos seus parágrafos de conclusão - mas agora decidi completar e clarificar algumas ideias, apresentando-as em forma de lista.
O objetivo deste post é ser label-positive - não no sentido de obrigar toda a gente a usar labels (detalhes no ponto 1), mas no sentido de apontar alguns pontos positivos do uso destas, e assim promover o respeito por quem escolhe usá-las. Esse respeito passa por:
Achar que todas as labels são igualmente válidas e que nenhuma é mais relevante que outras
Parar de tratar labels como algo necessariamente limitador/empoderador, pois isso depende do quão confortável um indivíduo se sente com elas
Reconhecer que, em dadas ocasiões, podem ser tão úteis como qualquer outra palavra
Não torcer o nariz perante certas labels (ex: dizer que elas são feias ou implicar com prefixos)
Entender que labels não têm um significado estrito e que não há uma definição única delas, possuindo diferenças subtis para cada pessoas que as usa.
Reconhecer que labels não são definidas pelo histórico de relacionamentos e/ou género de uma pessoa, e sim pela sua identificação, que pode ser fixa ou evoluir/mudar com o tempo.
Então, agora vou desmistificar algumas noções sobre elas, algumas já subentendidas nos vários pontos que o seu respeito exige:
1) São para uso pessoal.
1.1 - Ninguém tem o direito de determinar de que forma alguém usa ou deixa de usar labels. E independentemente da atitude de um indivíduo perante elas, está no direito de reclamar se vir a sua escolha desvalidada, embora reclamar seja diferente de "vingança": ou seja, se desvalidar o outro lado em troca, perde a razão toda.
1.2 - Assim, as pessoas não deviam ficar irritadas ao ver quem abraça labels com facilidade, desde que essa pessoa não as obrigue a usar. E têm o direito de expressar o porquê de não se darem bem com elas, mas sem generalizar isso ao ponto de atribuir uma condição absoluta às labels (Errado dizer: Labels são limitadoras/complicadas; Certo dizer: Sinto que as labels me limitam/são muito complicadas para mim). Palavras e conceitos são o que as pessoas fazem delas, então por favor não diga que quem usa labels está a limitar-se a si próprio.
1.3 - Por outro lado, quem vê um grande significado nas labels não pode impingir o seu uso a ninguém. Se a pessoa não vê um porquê de as usar a nível pessoal, e/ou não se sente confortável ao usá-las independentemente de entender ou não porquê que são importantes para algumas pessoas, está no direito de as recusar.
2) Podem validar e deixar pessoas mais confortáveis com a sua identidade
2.1 - Algumas pessoas te dificuldade em aceitar ou entender quem são enquanto não descobrirem que o que são tem um nome e que a sua identidade é comum suficiente entre outras pessoas. Palavras são muitas vezes uma forma de auto-afirmação, e isso não devia ser tirado de ninguém.
2.2 - Não há labels "a mais", e um argumento desses é particularmente hipócrita (ou pelo menos inconsciente) quando usado por pessoas lgbt+ das 4 primeiras letrinhas. Lá porque tiveram a sorte de ver a sua label mais reconhecida, não serem (pelo menos em teoria) invisibilizadas quando a maioria do pessoal se esquece do "+", e estarem mais fortemente enraizadas na história, isso não lhes dá o direito de achar que labels criadas depois (ou que simplesmente não sejam mainstream) têm menos valor, são menos necessárias, ou confusas demais. Esse é literalmente um dos argumentos que sempre foi usado contra pessoas lgbt+: não faz sentido que alguns grupos da comunidade o atirem aos outros.
2.3 - Não apenas labels, termos relacionados com uma comunidade ou com a sua história podem ajudar a trazer à luz e a questões mainstream alguns dos problemas enfrentados pelas pessoas, que precisam de ser discutidos. Campanhas precisam de nomes. Problemas recorrentes também. Apropriação, queerbait, queercoding, as várias formas de preconceito específicas, invisibilidade, políticas opressoras como a "don't ask, don't tell", a questão das casas de banho (bathroom bill), tropes como a Bury your gays, representatividade, entre outros, não podem ficar conhecidos nem receber atenção sem um nome.
3) São úteis/práticas, embora isso dependa do contexto
3.1 - São um vocabulário específico a uma comunidade, e da mesma forma que áreas de futebol/jogos/ciências/basically everything têm uma terminologia associada, lgbt+ também tem. Se alguma palavra desconhecida surgir a meio de uma conversa, a maioria das pessoas ou a) pesquisava o significado no telemóvel ou b) perguntava à pessoa com quem estava a falar. Independentemente de perceber ou não tudo o que a palavra incorporava, a conversa prosseguia, e a palavra não deixaria de ser útil para encurtar uma definição inteira entre pessoas que compreendessem o seu significado. Então não faz sentido desvalorizar a utilidade de se ter bastantes labels, se se compreende facilmente que o número assustador de palavras relativas a um único tema surgiram com um propósito.
3.2 - Em alguns casos, termos guarda-chuva (ou seja, que são frequentemente usados para incluir termos ainda mais específicos - ex: assexual, bissexual/bi+/polysexual/multissexual/m-spec/pluralian) podem servir, mas há alturas em que é preciso especificar. Por exemplo, se nos quiséssemos referir às experiências específicas de quem só sente atração sexual após formação de um laço emocional forte, é muito mais fácil substituir essas palavras todas por demissexual.
3.3 - Se uma pessoa quiser aprender sobre si própria, não dá muito jeito escrever no google, por exemplo, "tipo de gay que só sente atração romântica por pessoas de géneros diferentes do seu" - o nome disso seria assexual heterorromântico, mas a descrição anterior nem se aproxima da definição, e decididamente o google só detetaria como keywords "gay" e "atração", levando a resultados inteiramente diferentes dos alvejados. Então, labels são úteis para deixar as ideias mais concisas, e mais simples de transmitir.
3.4 - Não são tão úteis assim se as pessoas as desconhecerem, pois nesse caso perde-se tempo com explicações - que são frequentemente ignoradas, o que só mostra que a pessoa que faz isso não têm grande solidariedade para com os outros. É compreensível que alguém não saiba todas as definições - nem pessoas lgbt+ sabem, e ainda por cima, como dito em (4), é difícil concordar com uma definição única.
4) Não têm definições únicas nem critérios
4.1 - As labels lgbt+ são como cores: é difícil encontrar 2 pessoas que concordem com o nome [desta cor]: azul, roxo, azul-arroxeado, violeta, azul-escuro, índigo, azul-marinho, anil? Agora, apesar de não sabermos a que cor exatamente correspondem esses nomes, as várias sugestões deixam claro de que cor NÃO se trata: vermelho, amarelo, verde, cinzento... Da mesma forma, pode ser difícil, por exemplo, arranjar definições inclusivas de todos os motivos que levam alguém a escolher entre a label bi e pan, a tratar queer e lgbt+ ou como palavras sinónimas ou como palavras politicamente opostas, usar assexual como termo guarda-chuva ou como extremo de um espectro, ser não-binárie mas rever-se ou não como trans. Mas decididamente, uma pessoa pan não é homo/heterossexual, e isso fica claro com QUALQUER definição.
4.2 - Não há um conjunto de regras e critérios que se tenham de atender para alguém se qualificar com certas labels. "Eu cumpro estes requisitos todos mas como falhei o 43º já não sou A e sim B" - não é assim que funciona.
4.3 - Também não é preciso ter um certo histórico de relacionamentos ou géneros ou expressões de género para alguém poder usar qualquer label. Nesse sentido, é ridículo pedir "provas" de que alguém é, por exemplo, m-spec (não é preciso ter namorado com sequer ninguém para se ser m-spec, muito menos com uma pessoa de cada género pelo qual se sente atração), lésbica/gay (ter namorado com alguém do género "oposto" no passado não torna essa label menos válida, até porque se pode ter devido a pressão externa ou homofobia internalizada), assexual ou alguém no espectro (ter feito/fazer sexo não é o mesmo que sentir atração, e não sentir atração sexual não implica não sentir atração romântica), trans e/ou não-binárie (roupas e formas de expressão de género não têm de ter qualquer relação com o seu género, e a orientação da pessoa ainda menos se relaciona).
4.4 - O único critério para se usar uma label é a identificação. Há uma certa palavra que capta bem a experiência, percepção interna, ideais e/ou sentimentos de alguém? A palavra "soa bem"? Então provavelmente é uma das mais adequadas. Para que conste, é perfeitamente ok que uma pessoa se reveja e sinta bem com mais do que uma label.
5) Podem criar um senso de comunidade
5.1 - Palavras são muitas vezes aquilo que une e fortalece as pessoas. Stonewall Riots são um dos eventos históricos mais conhecidos pelas pessoas LGBT+ e queer pois foi quando a) a comunidade se consciencializou de que até era numerosa b) as pessoas perceberam que tinham como lutar pelos próprios direitos. Quando mais gente se juntar por uma causa - e ser lgbt+ não só é uma identidade como uma causa - mais recebe atenção, se torna visível e pode fazer pressão para ser bem tratada.
5.2 - LGBT+ inclui uma série de identidades totalmente distintas, e contudo, o propósito da comunidade pode ser entendido com a metáfora que encontrei [aqui]: É como ter 10 pessoas numa sala, mas para 9 serem notadas por uma (sendo essa pessoa representante de pessoas cis-hétero), tiveram de se unir - resultou, mas com o sacrifício da sua individualidade. Então, embora grupos mais genéricos chamem mais a atenção e possam partilhar e aprender bastante entre si, também é importante que hajam grupos mais específicos e que permitam às pessoas encontrar quem seja cada vez mais semelhante a si. E mesmo assim, isso é impossível, porque ninguém é só uma coisa, e grupos de pessoas não são monólitos.
5.3 - Comunidades são um espaço de lágrimas e sorrisos. Encontrar pessoas minimamente semelhantes pode ajudar a acabar com um sentimento de isolamento, tornar mais fácil comunicar os sentimentos, encontrar quem tenha passado por situações complicadas semelhantes e possa ajudar a resolvê-las, partilhar experiências e enriquecer com as dos outros, entender que pessoas iguais num aspeto podem ter tido uma vida muito distinta, encontrar quem lamente ou celebre os mesmos acontecimentos históricos, achar quem goste das mesmas coisas, e até fazer trocadilhos com a própria label.
6) Podem ter um propósito político
6.1 - Clamar labels pode ser uma forma de ajudar a lutar contra estereótipos. Se, por exemplo, a bissexualidade é associada a traição, a assexualidade a uma ideia de inocência, entre outros, a melhor maneira de associar as palavras com comportamentos distintos é fazer com que pessoas que não se enquadrem nesses estereótipos as apliquem a si mesmas. Isso não só se aplica a pessoas reais, como a personagens fictícias, onde termos lgbt+ só costumam ser mal aplicadas ou usadas com o intuito de manchar a palavra.
6.2 - Mostrar que há muitas pessoas de um determinado grupo pode ajudar a arrecadar fundos para o mesmo - fundos estes ajudarão a, por exemplo, conseguir criar mais resources, informar as pessoas, ajudar organizações... Ainda há uma grande noção de que a bissexualidade não existe ou é uma fase, e esse é uma das razões que pode levar a sociedade a investir apenas em grupos gays, lésbicos e lgbt+ (que maioritariamente se centram nos dois grupos anteriores anyway), mas nunca noutros - a ironia do exemplo que citei é que a bissexualidade e um dos grupos lgbt+ mais numeroso, mas recebe apenas 1% dos fundos, e outras comunidades ainda recebem menos [fonte | mais detalhes].
6.3 - Já mencionei no ponto 2.3 como o uso de certos termos pode ajudar a trazer luz a alguns assuntos que precisam urgentemente de ser discutidos e, se possível, enfrentados com medidas.
Pronto, estes são os assuntos em que consegui pensar. Sintam-se livres para acrescentar a vossa opinião, mas aviso já que se aparecerem a desmerecer quem usa labels ou a desmerecer algumas identidades em específico, deviam ler melhor o post.










