FOLHETIM – MATHEUS PIOLHO
Vem-me a mente uma história que conheci por curiosidade, quando decidi conhecer um pouco sobre a cultura indígena brasileira que estava cada vez mais apagada.
Jaci e Guaraci eram deuses da cultura Tupi-guarani. Guaraci representava o Deus Sol e Jaci representava a Deusa da Lua. Ambos se apaixonaram, mas quando Guaraci acordava, Jaci dormia, e por isso, mesmo que o amor fosse recíproco, estava destinado a trazer mais tristeza do que alegria.
A história tem uma bela continuidade e um final cheio de romance, muito parecida com o inicio do meu romance com Jandira.
Que começa com as visitas dela ao Marcio. Visitas próximas do horário de fechar a loja.
Era hábito um jogo de dominó entre os dois no entardecer. Jandira era mais velha que Eu, era filha de um marceneiro e a mesma trabalhava em um bar no horário noturno. A sua beleza chamava atenção, a sua forma de vestir chamava atenção, o seu sorriso chamava atenção, a sua confiança chamava atenção e toda essa atenção criava cenários românticos pelos muitos lugares que ela passava. Seus olhos negros se destacavam tanto quanto a sua voz nos bares.
Não é a toa que existia uma gama de pretendentes e amantes a procurá-la. Mas, mesmo seu pai lhe dando liberdade para escolher o seu pretendente, o que era muito incomum na época, ela rejeitava com toda delicadeza de um pé na bunda.
Com a freqüência de suas visitas na quitanda, aumentaram-se também a freqüência das minhas insônias e delírios ao deitar.
Naquela época meu coração a amava, tanto quanto o meu corpo a desejava.
Em nossas poucas conversas, antes do nosso relacionamento, me lembro, como se fosse hoje, a maneira como ela contava as suas aventuras noturnas, eu me derretia. As minhas memórias daquele ano com ela eram apena um monte de histórias com uma cereja por cima, a mais gostosa cereja que já provei. Essa Cereja foi nossa primeira dança que aconteceu na noite da véspera de ano novo de 61 ou 62.
Nessa noite Marcio me pediu para cuidar da loja, pois sua mulher estava acamada depois de cair do cavalo, literalmente. E por ser Véspera do ano novo, como de costume na família Oliveira, haveria visitas na casa deles.
A fim de ajudar um amigo e evitar uma noite chata, sozinho e dentro de casa, aceitei, e passei aquela noite inteira na loja protegendo o estabelecimento.
Era a primeira vez que trabalhei no horário noturno, logo na véspera.
E como vocês podem imaginar, Jandira passou pela loja a procura do hábito de um bom jogo de dominó ao entardecer. Evitando perguntas até por causa das fortes emoções mais na minha barriga do que nessa história, Eu disse a ela o que havia acontecido com a mulher do Marcio.
Em alguns segundo depois do nosso dialogo Ela se despediu e foi em direção a casa dos Oliveiras. Acabei por passar a virada do ano novo sozinho.
Era quase 1 da manhã e sem vontade de voltar para casa fiquei ali no estabelecimento, todo esgotado. Já estava praticamente no primeiro sono quando alguém bateu na porta.
De mansinho vi quem era, Abri e lá estava a Ruiva que causou minhas insônias:
- Nada de casa hoje Jair? Ouvi minha antiga companheira do lado de fora falando.
- Prefiro passar aqui no silêncio, do que passar em casa sozinho mais uma vez. Falei eu, um filosofo bem fajuto.
- Jair, o que você acha de passarmos então um tempo juntos no silêncio de um bom bate papo? Disse Jandira entrando no estabelecimento com uma garrafa de champanhe.
- Não me faria mal algum! Reagi.
- Marcio me disse que você é tímido, mas não acho que esses olhares são de um rapaz tímido. Ela sorriu e foi em direção aos espaços das maças.
Eu a acompanhei, mas fui atrapalhado por algo no cenário me levando a pisar no salto da moça.
- Você olha apenas para cima? Riu Jandira e acrescentou: - preciso sentar para encaixar o meu pé no salto.
Vendo a situação e o pedido, sentamos em duas cadeiras próximas do caixa. E lá nós começamos a beber.
- Esse é o seu primeiro Champanhe? Disse Jandira que parecia, como dizem os jovens de hoje, flertar comigo.
A conversa continuou e me lembro depois disso, apenas do momento em que nos colocamos a dançar valsa, juntos. Rimos e ficamos olho no olho.
Parecia que eu tinha que tomar uma atitude, mas o medo da resposta me travava. Cheguei a ficar de cabeça baixa por um tempo e isso a levou a parar a dança, levantar a minha cabeça e começar a rir. E a partir dali decidi que ela seria a minha mulher.
E consegui tal proeza por muitos anos e dias da minha vida, pois o perfume dela, até hoje, fica nas minhas lembranças e as roçadas que acabávamos por ter naquela noite, ainda é o bastante para me deixar eufórico em vê-la novamente.
O Folhetim é uma narrativa literária do gênero prosa que ganhou repercussão no século XIX. Essa obra, MÉRITOS DE UM ADVOGADO, será lançado semanalmente nos sábados, espero que você goste e tenha bom proveito.