Erotic Melacholia
CapĂtulo 2: E mesmo que as janelas se fechem, meu pai, Ă© certo que o amanhecer chegarĂĄ
A igreja estava repleta do murmĂșrio das oraçÔes. Velas tremeluziam, projetando longas sombras nas paredes de pedra, e o cheiro de incenso pairava pesado no ar, tĂŁo pesado quanto o fardo que Padre carregava. O latim escorria de sua boca com a familiaridade de um antigo vĂcio, mas sua mente nĂŁo estava ali. NĂŁo na homilia, nĂŁo nas escrituras. Estava nela. Sempre nela. VocĂȘ o tinha sem tocĂĄ-lo. Os dias se tornaram penitĂȘncias interminĂĄveis, noites febris onde seus prĂłprios sonhos se transformavam em armadilhas terrĂveis. Ele tentara de tudo.
O ĂĄlcool queimava, mas nĂŁo queimava como ela. Os cigarros entorpeciam, mas nĂŁo apagavam sua presença. O açĂșcar acalmava, mas nĂŁo preenchia o vazio. E entĂŁo lĂĄ estava ele, um homem de Deus, reduzido a devorar compulsivamente potes inteiros de geleia, lambendo os dedos como um cĂŁo faminto enquanto tentava desesperadamente encontrar um sabor que jamais seria seu. E agora lĂĄ estava seu doce martĂrio. A figura velada sentava-se na quarta fileira, imĂłvel, silenciosa. O preto do tecido a envolvia solenemente.
Ele viu atravĂ©s do disfarce. Viu o vermelho do batom dela, um escĂąndalo. Viu suas unhas longas e impecĂĄveis, segurando um rosĂĄrio de pĂ©rolas com cinismo. O branco das contas deslizava entre seus dedos como promessas quebradas, nĂŁo estava rezando.Esperou por ele, Lucas sentiu um tremor percorrer seu corpo, um arrepio que começou na nuca e se espalhou como veneno por todos os seus membros. O peso da batina sobre sua pele nĂŁo era uma prisĂŁo. Ele engoliu em seco, desviou o olhar, tentou se concentrar na missa, nas palavras, em qualquer coisa que nĂŁo fosse o fogo que aquela mulher acendia dentro dele. Mas a cada instante que passava, ele sentia o olhar dela queimando sua pele, sentia sua respiração mesmo Ă distĂąncia, sentia-a dentro de si, como se fosse um espĂrito. E entĂŁo, no momento em que ergueu a hĂłstia, num gesto de rendição e redenção, ele viu o impossĂvel. VocĂȘ, sob o vĂ©u negro, sorriu. Um sorriso sutil, discreto, perverso. Lucas quase deixou cair o corpo de Cristo. Formou-se uma fila diante do altar, e ele tentou manter a compostura, prender a respiração, sufocar o corpo que o traĂa sob a batina. O murmĂșrio das oraçÔes se misturava ao farfalhar dos vestidos, ao eco dos passos no chĂŁo frio da igreja. Cada fiel se ajoelhou diante dele, e ele ofereceu o Corpo de Cristo como sempre fazia, mas suas mĂŁos tremiam.
Ele sabia. Ele sentia. Ela estava na fila. O vĂ©u negro ainda cobria seu rosto, uma viĂșva em luto por algo que nunca havia morrido. Mas quando chegou a sua vez, levantou o vĂ©u, mas apenas o suficiente para revelar a boca. E que boca! Seus lĂĄbios estavam vermelhos, Ășmidos, cheio de riso e malĂcia. O sorriso era quase imperceptĂvel, mas Lucas o sentiu como um soco no estĂŽmago. Tentou nĂŁo hesitar ao oferecer a hĂłstia. Os dedos do padre roçaram seus lĂĄbios que se fecharam em torno dos dedos, quentes, Ășmidos, demorando-se por um longo tempo. O toque nĂŁo foi acidental, um pecado cometido na casa de Deus sem a menor hesitação. O sacerdote congelou. O calor do contato percorreu seu corpo como fogo de um pavio. O sangue subiu ao seu rosto, ao seu pescoço, ao seu peito, Ă sua alma. E entĂŁo, quando ela se afastou, ele viu: seus dedos estavam manchados de batom. O vermelho brilhava ali, contra sua pele, uma marca visĂvel de pecado.
Num reflexo desesperado, ele fechou a mĂŁo e escondeu os dedos atrĂĄs das costas.
"Corpus Christi."
Sua voz vacilou. Ele havia terminado a missa Ă s pressas. Os fiĂ©is saĂram, um a um, suas vozes se perdendo na noite. Mas vocĂȘ permaneceu sentada. Esperando. E entĂŁo, lentamente, vocĂȘ se levantou. Lucas observou vocĂȘ atravessar a igreja, o vĂ©u esvoaçando com o movimento do seu corpo. Ela caminhou atĂ© o fundo, seus passos firmes, e entrou no confessionĂĄrio.
Ela estava esperando por ele. Ele fechou os olhos. O destino havia se cumprido.
O confessionĂĄrio era um nicho ainda mais escuro dentro da igreja jĂĄ escura. A madeira antiga rangia sob o peso dos anos, e o cheiro de incenso queimado se misturava com o mofo impregnado nas rachaduras. As paredes, adornadas com entalhes gĂłticos, pareciam vigiar os segredos sussurrados ali, enquanto a luz filtrada pelos vitrais projetava sombras coloridas que dançavam sobre os arabescos do chĂŁo frio. LĂĄ dentro, o mundo se reduzia ao som da respiração e Ă proximidade sufocante do pecado. Lucas entrou hesitante, sentindo-se como um cordeiro caminhando voluntariamente para a boca do lobo. A madeira dura do banco castigava suas costas tensas, e a treliça entre eles parecia frĂĄgil demais para conter o que estava prestes a acontecer. Do outro lado, vocĂȘ o esperava. Podia sentir sua presença antes mesmo de ouvi-la. O silĂȘncio carregado de intenção, a sombra feminina projetada contra a luz tĂȘnue do cĂŽmodo, a respiração lenta, como se saboreasse cada segundo de espera. Lucas engoliu em seco, preparando-se para ouvir qualquer absurdo. Ele estava pronto para qualquer confissĂŁo profana, qualquer blasfĂȘmia disfarçada de arrependimento. Mas entĂŁo, a voz dela quebrou o silĂȘncio, suave, quase um cĂąntico pecaminoso:Â
âPadre, quantos pecados cabem em uma sĂł oração?â
O som da pergunta percorreu seu corpo como um toque invisĂvel. Lucas fechou os olhos com força. Quantos pecados caberiam em uma Ășnica oração?
Ele sabia a resposta.
Todos eles.
Lucas pressionou os dedos contra os joelhos, ainda sentindo a marca de batom que não conseguira apagar completamente. A pergunta dela ecoou no confessionårio apertado, como um sussurro que roçou sua pele.
Ele deveria repreendĂȘ-la. Deveria dizer-lhe para levar a confissĂŁo a sĂ©rio. Mas ele nĂŁo conseguiu.
âQuantos pecados cabem em uma oração?â, repetiu ele, tentando parecer indiferente, mas sua voz saiu mais grave do que pretendia.
Do outro lado das grades, ela riu baixinho. Uma risada abafada, preguiçosa, cheia de segundas intençÔes.Â
âEu diria⊠todos elesâ, continuou ela. âMas a questĂŁo é⊠serĂĄ que cabem? Ou serĂĄ que transbordam?âÂ
Ele fechou os olhos, sentindo o calor se espalhar pelo peito.Â
âO pecado sempre transbordaâ, respondeu Lucas, com a voz rouca. âQuando nĂŁo Ă© contido.âÂ
VocĂȘ se inclinou um pouco para a frente. Ele nĂŁo conseguia vĂȘ-la direito, apenas sua sombra, mas sentia a proximidade dela como se fosse uma brasa quente pressionada contra sua pele.Â
âE vocĂȘ, Padre⊠conseguiu conter o seu?âÂ
Ele prendeu a respiração. Sentia-se preso, nĂŁo por ela, mas pelo prĂłprio desejo. Por dias de insĂŽnia, por noites de pesadelos e sonhos febris. Por hĂłstias manchadas de batom, por freiras murmurando bĂȘnçãos enquanto ele ardia em maldiçÔes.Â
Ela nĂŁo esperou por uma resposta.Â
âDizem que os homens de fĂ© tĂȘm os maiores desejos. Que a fome deles Ă© diferente⊠mais profunda. Mais difĂcil de satisfazer.â Lucas soltou uma risada baixa, mas nĂŁo havia humor nela. Havia algo mais sombrio, algo que ele nĂŁo reconhecia em si mesmo.Â
âE vocĂȘ acha que conhece a minha fome?âÂ
Ela suspirou, como se achasse a pergunta engraçada.Â
âConheço a fome de todos os homens. Mas a sua⊠oh, Padre⊠a sua tem gosto de desespero.âÂ
Aquelas palavras o atingiram como um golpe, um soco no estĂŽmago. NĂŁo era mentira. Ele estava desesperado. Por quĂȘ, ele nĂŁo sabia. Por absolvição ou condenação, por libertação ou ruĂna.Â
VocĂȘ continuou:Â
âSabe o que eu acho?â Sua voz era pura provocação. âQue, no fundo, vocĂȘ gostaria que essa cerca entre nĂłs nĂŁo existisse.âÂ
Lucas sentiu o coração disparar no peito.Â
âTalvez vocĂȘ tenha razĂŁoâ, disse ele, e surpreendeu-se com a firmeza em sua voz.Â
VocĂȘ ficou em silĂȘncio por um instante. Depois riu novamente, mas desta vez sem cinismo.Â
âFinalmenteâ, vocĂȘ sussurrou. " Achei que demoraria mais para vocĂȘ acordar."
Lucas encostou-se na madeira, os dedos agarrando o suporte, e pela primeira vez desde que tudo aquilo começara, sentiu que não era mais apenas o sacerdote.
Ele era um homem. O confessionĂĄrio parecia menor do que nunca, como se as paredes de madeira se fechassem ao redor deles, aprisionando o ar pesado, saturado com algo que nĂŁo pertencia Ă casa de Deus. O cheiro de incenso, que tantas vezes lhe trouxera conforto, agora se misturava ao perfume dela, uma fragrĂąncia doce e perigosa que invadia seus sentidos. VocĂȘ nĂŁo se moveu para o outro lado das grades, mas sua presença preenchia cada fresta daquele espaço apertado. Lucas podia ouvir sua respiração, lenta, paciente, como se vocĂȘ jĂĄ soubesse o desfecho antes mesmo que ele começasse a se desenrolar.Â
"VocĂȘ gosta de me provocar, nĂŁo Ă©?" Ele quebrou o silĂȘncio, a voz rouca, arranhada pelo peso de seus prĂłprios pensamentos.Â
Ela sorriu antes de responder; ele nĂŁo precisava vĂȘ-la para saber disso. Ele podia sentir.Â
âE vocĂȘ gosta de ser provocado.âÂ
Lucas fechou os olhos por um instante, com o maxilar tenso.Â
Aquela mulher era uma maldição ambulante.Â
Ele deveria tĂȘ-la repreendido, deveria ter se levantado e ido embora antes que fosse tarde demais. Em vez disso, suas mĂŁos se moveram por conta prĂłpria. Pela primeira vez, ele havia rompido a barreira invisĂvel entre eles. Seus dedos encontraram os dela na escuridĂŁo. A princĂpio, foi apenas um toque hesitante, as pontas dos dedos roçando sua pele quente. Mas quando ela nĂŁo se afastou, quando, em vez disso, seus prĂłprios dedos se entrelaçaram nos dele com uma delicadeza quase insolente, Lucas perdeu a batalha que travava consigo mesmo havia semanas. Ele virou a mĂŁo dela, os olhos fixos na palma exposta Ă sua frente. Seu coração batia forte, cada pulsação ecoando em seus ouvidos como um tambor de guerra. E entĂŁo, lentamente, ele levou os lĂĄbios Ă pele dela. O primeiro contato foi suave, quase reverente. Mas, Ă medida que seus lĂĄbios permaneceram ali, o beijo se tornou algo mais profundo, mais intenso. Lucas nĂŁo estava apenas a tocando; ele estava oferecendo algo de si naquele gesto. O desejo insuportĂĄvel. A ternura reprimida. O desespero de alguĂ©m que quer controlar e, ao mesmo tempo, anseia por se perder. Ele a provou, um toque de sal e tudo o que ele jamais deveria ter desejado. Mas desejou. E entĂŁo, sem pensar, virou o rosto levemente, roçando o nariz em seu pulso. Inalou seu perfume como se fosse seu prĂłprio sacramento, um veneno que ingeriu voluntariamente. VocĂȘ permaneceu em silĂȘncio, mas Lucas nĂŁo precisava de palavras para saber o que ela sentia. Ele sabia. Ela sabia. O toque se dissipou antes que ele cruzasse uma linha da qual nĂŁo havia mais volta. Ele soltou a mĂŁo dela. Virou-se. Abriu a porta do confessionĂĄrio e saiu sem olhar para trĂĄs. Mas quando chegou Ă sacristia e viu as mĂŁos dela Ă luz tĂȘnue das velas, o sangue gelou em suas veias. A marca do batom dela ainda estava lĂĄ. Um vermelho profundo e vivo, uma prova visĂvel do que acontecera naquele espaço sagrado. Ele passou a lĂngua pelos lĂĄbios, ainda sentindo o gosto dela. E ele soube, naquele instante, que aquela mulher jĂĄ o tinha conquistado.
Não importava quantas oraçÔes ele fizesse.
O inferno jĂĄ o aguardava.













