Era como se eu já não coubesse só em mim.
Eu era um resto vivo de tudo o que amei. Um ajuntamento de presenças, de vozes, de mãos antigas ainda encostadas na minha matéria.
Sou eu virando neblina, feito margem quando o rio decide esquecer seu nome.
Então entendi que havia coisas que não se seguram sem ferir.
Era preciso soltar.
E eu soltei, como quem abre a mão para um pássaro cansado ou devolve ao escuro uma estrela que caiu cedo demais.
Aceitei a noite.
Não como quem perde, mas como chão.
E fui desaparecendo devagar, como desaparecem as coisas que, de tão fundas, deixam de ter contorno.
Só que o amor dela ficou.
Ficou maior.
Maior que corpo, que distância, que fim.
Ficou como água debaixo da terra:
ninguém vê,
mas é ela que ainda umedece o mundo.











