Há dias em que a gente mora dentro de uma casca.
Por fora, o mundo passa com seus sapatos limpos, suas notícias, seus relógios de ferro.
Por dentro, uma coisa pequena tenta continuar respirando sem fazer barulho.
Não é tristeza comum.
É uma espécie de bicho sem nome, desses que nascem no escuro e aprendem a roer silêncio.
A vida, às vezes, inventa mentiras com roupa de verdade.
E a gente corre atrás delas como quem persegue uma pipa rasgada no vento.
Quando alcança, só encontra linha, dedo ferido e céu vazio.
O tempo também tem seus dentes.
Vai comendo a gente pelas beiradas.
Primeiro leva a infância.
Depois leva algumas vozes.
Depois leva a coragem de pedir colo.
E ainda assim, alguma coisa em nós continua em pé.
Torta.
Suja de mundo.
Mas em pé.
Há batalhas que não fazem barulho de espada.
Acontecem dentro do peito, numa sala sem testemunha.
Ninguém vê.
Ninguém aplaude.
Ninguém pergunta se doeu.
A gente só aprende a carregar o próprio escombro com certa elegância.
O pior não é estar sozinho.
É não encontrar um lugar onde a alma possa tirar os sapatos.
Um lugar onde a gente não precise explicar a rachadura.
Onde ser inteiro não seja uma exigência.
Onde ser quebrado também tenha direito de sentar à mesa.
Porque há uma violência pequena em não poder ser quem se é.
Uma violência limpa, sem sangue, sem grito, sem boletim.
Ela entra pelos olhos dos outros.
Pelas expectativas.
Pela invasão.
Pelo nome que colocam na nossa dor antes mesmo que a gente consiga entendê-la.
E então tudo o que entregamos de mais puro volta arranhado.
Mas talvez exista, no fundo da casca, uma semente ainda teimando.
Uma coisa mínima.
Quase nada.
Um resto de luz sem vocação para espetáculo.
Talvez seja isso que salva:
não a força bonita dos vencedores,
mas essa insistência feia das raízes.
Mesmo quando ninguém escuta,
mesmo quando não há casa,
mesmo quando o mundo parece grande demais para um coração cansado,
alguma coisa continua dizendo: