Eu sempre apreciei os pormenores, as entrelinhas que ninguém nota. Um sorriso de canto de um desconhecido no meio do dia, uma palavra qualquer trocada com aquele velho amigo que adora falar sobre qualquer coisa. Aquele sopro frio de final de tarde que bagunça o cabelo. Nunca me imaginei dona de um sentimento tão avassalador, não me via na pele dos grandes apaixonados. Os grandes romances sempre me pareceram distantes da minha realidade morna e monótona. Não imaginava que algo tão grande pudesse habitar um espaço tão pequeno. Tantas sensações causaram um enorme rebuliço e eu não era mais capaz de me reconhecer. A manhã sem graça e cansativa ganhou um tom que eu jamais havia experimentado antes. Tudo isso foi possível depois dos nossos encontros rotineiros na cafeteria. Tudo se resumia em nós. Eu me obrigava a sobreviver a todas as tardes frias e vazias porque sabia que teria a oportunidade de te encontrar quando a noite chegasse. Era um ciclo vicioso e você o sustentava. Tudo girava em torno da sua presença para reanimar tudo que pudesse ser desagradável. A vida nunca foi tão grandiosa como quando eu estava junto a ti. O simples som da sua respiração, seu jeito de caminhar pelas ruas. O jeito que você calçava seus sapatos e sua insistência em trocar o som do despertador toda semana. Tudo tão particularmente seu e por esse único motivo, aos meus olhos tudo sempre soou tão esplêndido. Desde as minúcias aos grandes gestos, tudo era imensamente apaixonante. Sua atitude perante a vida, seu jeito malicioso de encarar as oportunidades. Sua paixão pela vida, inclusive pelo próximo. Seu jeito de me olhar… você me ganhou por completo e até mesmo aquele cara que conhecemos no banco soube disso de primeira. Conhecer você foi como experimentar o amor na ponta da língua, tão doce no começo mas imensamente amargo quando digerido de mau jeito. Ao seu lado eu enfrentei extremos maravilhosos que eu jamais imaginei que pudessem existir aqui, na vida real, na correria dos dias cansativos. Eu conheci meus limites e me assustei quando descobri que não conseguia delimitar um ápice para eles. O maior erro de entrar com tudo, de se doar ao máximo é que na maioria das vezes você deixa tudo pelo caminho, em cada curva se perde mais de si mesma e quando chega no fim do caminho e precisa seguir para outro lado você se vê vazia, uma carcaça sugada. O amor é capaz de te tirar até mesmo as angústias mais profundas e te apresentar o que há de mais bonito e o problema é exatamente este, no acerto de contas o que te resta? O que somos quando deixamos de ser? Para o que apelamos quando perdemos nossa capacidade de enxergar além de uma única pessoa? Qual é o próximo passo e quem nos ensina a encará-lo? Aonde irei me esconder dos meus temores, sendo que hoje sou feita deles? Eu poderia enumerar os motivos que me encaminharam até aqui, mas hoje tudo me parece tão inútil. Já não me importam os meios termos, os erros e os desvios que me jogaram nesse precipício, só quero me reerguer. A mesma mão que te segura te empurra. E na maioria das vezes é você quem provoca tudo isso e reconhecer o erro é sempre mais doloroso. Entregamos tudo o que somos a alguém e nos esquecemos de como é ser só, você com você contra um mundo inteiro lá fora. O amor machuca sim e cobra. Escâncara todas as suas fraquezas e te toca bem lá, no âmago da ferida que ainda insiste em sangrar. Mas quando você percebe, já é tarde demais. Ele, sempre tão esquecido, te prendeu aqui. Tempo, espaço. E esqueceu de voltar para te buscar. A vida seguiu para ele e você ainda continua aqui, estagnada. A galáxias de distância daqui, ele iniciou uma nova história. E nem sequer se importou com o caminho que você iria tomar. E a vida não parou. O velho amigo ainda adora falar sobre tudo, mas você já não consegue se concentrar em nenhuma palavra dele. A brisa do entardecer te sufoca e te causa náuseas. E a única coisa que você consegue fazer é remoer. Insiste e persiste mas não consegue entender o verdadeiro sentido de toda essa confusão. E hoje, depois de ter andado por várias cordas bambas, eu volto aqui para dizer, esclarecer a esse meu antigo eu que tanto se desgasta relembrando, certas coisas. O erro nunca fui o amor. Eu sei que ele é capaz de nos apresentar o mundo e no mesmo segundo roubá-lo de nós. Mas tudo isso gira em torno da força que uma pessoa pode ter sobre nós. E elas são ingratas, semeiam, regam e no momento de colher desaparecem. E isso dificilmente é algo incomum, é mais rotineiro do que você espera e deseja. Mas passa! Eu me lembro, na flor da pele, no rasgar do coração de como tudo isso doeu. E mesmo que tenha parecido uma eternidade, foi mais curto que esse texto. Não desista, porque daqui pra frente existe algo melhor. Todos os vazios se complementam e viram algo bem maior, algo do qual você nunca ouviu falar, mas existe, guardado de baixo de sete chaves esperando por você. Uma decepção é apenas uma erva daninha que morre em um campo enorme de margaridas. O que é uma gota diante de um oceano? O amor vale apena sim, mas só somos capazes de sentir isso quando enfrentamos dificuldades que nos mostram seu verdadeiro valor. Um coração cegado pela dor nunca saberá a verdadeira cor de um sorriso se não puder amar novamente. Antes eu não sabia disso. Hoje posso te garantir, é cor de céu azul depois da tempestade. Até a escuridão se torna mais branda quando ele sorri.
Sobre o primeiro amor, Bruna Calderaro.








