Se o Desejo não desperta, não se cria mais caminho de voltar às raízes
Vai vingar porque assim é semente em solo fértil. Basta um resvalar de sonho pra crescer um infinito dentro do peito. Um dia eu disse que precisava abandonar o 'apenas' depois de qualquer afirmação de prazer. Agora sei que, ou se é fluxo em toda sua complexidade e magnificência, ou nenhuma fórmula adianta.
Deixar de alimentar fragmentação é tarefa tão difícil quanto real, ninguém imagina o quanto. O desafio é compreender que não há desculpas pois não há culpas e sim responsabilidades que só deveriam nascer das razões para além dos medos ou dos superestímulos artificiais.
Há questões que pertencem apenas ao nosso ser bicho-planta, partículas de Vida involucradas de tecidos e pedras que somos. Manifestamos em nossos corpos todos os elementos. Cultivamos meios pra alcançar elementais.
Digo que sou devota da Linguagem. Expresso o que vejo no Tempo, não sobre, não através, mas aquilo que aprendi a tocar com os olhos, o fio sempre contínuo que brilha quando há uma chave, uma tocha, uma paixão.
A sequência é assim. Fogo. Primeiro a gente acorda. Terra. Depois começa a rolar ladeira abaixo. Água. Se quiser caminhar por si, precisa exercitar o pousar os pés. Ar. Precisa aprender sobre círculo, sobre ciclo, rumo, prumo, sobre as equivalências de céu, chão e mar.
No começo é como se nossos olhos jamais soubessem das cores. Se não conhecemos, como saber escolher? Demora um tanto até articular os saltos entre si e criar afetos de emaranhados. Somos de tamanhos muito variados. Uma vez sustentados nas entrelinhas, o próximo passo precisa ser Dança.
Disseram que eu não poderia esfregar poesia na fuça de desavisados. Pois digo que toda arte pode revolver solo até que se reencontre memória de querer ser mundo, querer ser alimento, querer verdejar. Antes de sermos divididos por proibições, sabíamos mergulhar em adventos. Foi a Dominação quem nos tirou a graça de ser junto. A graça de sagrar.
Se o Desejo não desperta, não se cria mais caminho de voltar às raízes. É assim, sequestrando a Vontade, que nos aprisionam. A medicina para o imaginário precisa ocupar qualquer lista de imprescindíveis. Todo corpo-palavra conta. Em cada fenda no asfalto, um ramo de beleza se abre. Como lembrar de olhar?
Artistas podem curar. O Mistério é esse.
} Uma reflexão nascida da experiência de participar da a pré-jornada de Agroecologia da Teia dos Povos: Encontro de Fortalecimento Comunitário em Serra Grande, Uruçuca, sul da Bahia dos Mistérios. Um porto de encruza pra continuar daí.