Eu tenho um irmão caçula que hoje tem sete anos. E com apenas essa idade, ainda se tem o fantástico dom da inocência. Com ela, o mundo fica mais simples mesmo sendo pouco compreensível, porque nos julgamos capazes de entender as coisas como parecer mais conveniente. Quando aprendemos algo novo, simplesmente encaixamos aquela nova peça no quebra-cabeça da vida de forma que faça sentido.
Hoje a manhã foi pequena, daquelas que você precisa estabelecer prioridades e fazer o que tem de fazer, sem dar atenção às questões pessoais afetivas. Daquelas que não dá pra ficar atendendo a todos os pedidos do pequeno e nem doar-lhe tempo para responder a todas as suas perguntas, coisa que, infelizmente, ocorre com frequência. Entretando, a conversa que ele me trouxe hoje é digna de refeição para o Megatron de Arroz.
Eu saí do banheiro após escovar os dentes e me dirigi para o meu quarto respondendo sem pretender dar muita importância para a questão:
- E.T.’s não existem – falei, na tentativa de represar qualquer ameaça de paranóia e medo infantil.
- Existem sim! – insistiu.
- Na verdade, ninguém sabe se eles existem. Ninguém tem certeza. Não dá pra saber, ok?
- Eu sei que existem. Eles podem querer vir aqui na Terra e matar todo mundo! Tem gente que já viu.
- Não, olha. E.T.’s são como vampiros ou lobisomens. Alguém, muito distante daqui, um dia se sentou numa mesa, pegou um lápis e escreveu um livro sobre essas coisas, simplesmente inventou tudo isso.
- Não, mas eu vi na televisão.
- Eu não já falei pra você que tudo que se passa nos filmes e nos desenhos é de mentirinha?
- Mas passou no jornal! Passou na reportagem. Mostrou as navezinhas batendo naqueles prédios!
Quando eu percebi que ele se referia à homenagem dos dez anos do ataque ao World Trade Center, embaracei-me em riso. Minha mãe que escutava lá de dentro também não conseguiu se conter.
- Ok, Luan. Escuta. Aquilo não era uma nave. Aquilo que você viu era um avião, desses normais, que a gente usa pra viajar, sabe? Uns homens lá do outro lado do mundo seqüestraram esse avião, com passageiros e tudo, e jogou contra o prédio, matando muita gente. Isso se chama atentado terrorista.
Ele ficou estático diante de mim com os olhos eletrizados. Acho que esse é o momento em que se recebe uma nova peça do quebra-cabeça, e tenta descobrir como ela deve se encaixar no seu mundo. Ou talvez eu só devesse ter afofado mais as palavras, do tipo “...e assim muita gente foi pro céu”, mas não calculei direito a situação.
- Então E.T.’s são do mal?
- Não, calma. Quem te falou que os E.T.’s são do mal? Não tem como saber, eles podem querer ser seus amigos...
- Então como que eles matam gente?
- Mas não foram E.T.’s, foram homens!
- Homens mataram homens? ...Por quê?
Esse foi o duro momento em que houve um silêncio. Foi quando eu não sabia como falar sobre religião, globalização, pobreza, ganância, e uma infinidade de causas e elementos desse mundo conturbado dos adultos. Foi o momento em que eu não estava em condições de ajudá-lo a encaixar sua peça do quebra-cabeça.
- É. Isso é complicado. Você precisa crescer para entender essas coisas – eu disse. Mas fica tranqüilo que se eles existirem, serão bonzinhos, ok?
Fiquei maravilhado em como, para ele, fazia tão pouco sentido homens matarem indivíduos de sua própria espécie. É curioso como no universo das crianças é preciso monstros e alienígenas para que algo ruim aconteça. Que lugar é esse de perigos fantasmas, aventuras e mistérios da imaginação, onde tudo é conquista, tempo não é problema, deixa saudade e ainda se tem uma vida inteira pela frente? Eu, que uma vez já estive lá, diria que é o fascinante mundo dos monstros.
Diego Neves Cotta – Crônica baseada em diálogo real. – 13/09/2011.