Ouçam: https://youtu.be/-0y9r30qV4Q Rayanne acordou e abriu as cortinas do quarto. Ela se espreguiçou e deu uma olhada nos bebês que estavam ao seu lado. - Bom dia, meus amores. - Rayanne sorriu e deu um beijo no rosto dos filhos. - Dormiram bem? - Mã. - Luna abraçou Rayanne o mais forte que seus bracinhos conseguiram e sorriu. - Mama. - Douglas Jr sorriu e mandou um beijo para a mãe. - Eu vou fazer alguma coisa pra vocês comerem. - Ela avisou e saiu do quarto. Rayanne caminhou até a cozinha e preparou leite quente nas mamadeiras dos bebês. Ela deu um sorrisinho fraco ao terminar de preparar as mamadeiras e começou a chorar. - Acabou. - Ela colocou as duas mamadeiras em cima da pia e colocou as mãos no rosto. - Eu não aguento isso, mas eu tenho que aguentar pelos meus filhos. - Ray concluiu e olhou para a aliança em seu dedo anelar na mão esquerda. Ela retirou calmamente a aliança e em sua mente os momentos do casamento começaram a rodar em sua cabeça como num flashback. Ray abaixou a cabeça e colocou a aliança em cima do microondas. Ela secou as lágrimas e levou a mamadeira dos bebês até eles. - Mã. - Luna começou a bater palmas e estendeu as mãos para pegar a mamadeira. - Mama. - Douglas Jr fez o mesmo que Luna e também segurou sua mamadeira. - A mamãe vai fazer tudo que vocês quiserem, tá bom? - Ela deu um beijo na cabeça dos dois e se levantou. - Não saiam daí. A mamãe já volta. Rayanne foi até a sala de estar e colocou ração na tigela dos dois cachorros. Pocker e Leke foram até os pés dela e ela se abaixou e os abraçou. - Meus meninos. - Ela continuou fazendo carinho nos dois animais. - Meus menininhos. Ela sorriu e se levantou. Ray preparou alguma coisa para comer e recomeçou a chorar quando viu que estava sozinha na mesa de café da manhã. - Por que ele tinha que me trair dessa maneira? - Ela mordeu um pedaço de pão enquanto chorava. - Por que ele tinha que ter engravidado aquela louca? Por que ele fez isso comigo? - Ray tomou um gole de suco e colocou as mãos no rosto. - Acho que tô depressiva. Ray terminou de comer e lavou tudo. Ela voltou para o quarto e viu os bebês deitados lado a lado e um puxando o cabelo do outro. - Não pode! - Rayanne repreendeu seus filhos. - Una! - Douglas Jr apontou para a irmã e Luna colocou as mãos na boca e deu um sorrisinho. - Você tá irritando seu irmão? - Glas! - Luna disse irritada e cruzou os braços. - Mã. - Não chora, Luna. - Ray pediu e olhou para os dois filhos. - Não pode puxar o cabelo do seu irmão. - Ela repreendeu Luna. - E nem puxar o cabelo da sua irmã. - Ela também repreendeu Douglas Jr. - Ulpa. - Luna fez bico. - Ulpa mã. - Ela abaixou os olhos e tampou o rosto. - Una Má! - Não, você não é má. - Ray tentou desfazer a manha da filha, mas Luna recomeçou a chorar. - Não! - Mama. - Douglas Jr olhou a irmã chorando e também começou a chorar. - Não! - Ray pediu e olhou para os bebês desesperados. Ela fechou os olhos para não chorar junto com eles e começou a cantar uma música aleatória. Douglas Jr e Luna pararam de chorar e se olharam e depois olharam para Rayanne. - Pa. - Luna disse baixinho para o irmão. - Pa. - Papa. - Douglas Jr recomeçou a chorar e Luna choramingou. - A mamãe tá aqui. - Rayanne passou a mão pelos fios de cabelo dos filhos e eles se acalmaram. - A mamãe tá aqui. - Mãmã. - Luna olhou para Rayanne e a acariciou no rosto. - Mama. - Douglas Jr sorriu e engatinhou até Rayanne. - Amo. - Amo também. - Ela sussurrou. Rayanne resolveu colocar os dois bebês na sala enquanto terminava um dos quadros que estava pendente. Enquanto Rayanne pintava o céu da paisagem, ela ouviu um estalo. - Que isso? - Ray parou de pintar e olhou para seu lado. - Mama. - Douglas Jr sorriu e Rayanne viu três quadros prontos no chão. - Não, pode Douglas! - Ela bateu na mão do menino e fez cara de brava. - Não pode destruir as coisas, muito menos, as coisas da mamãe. - Ulpa. - Douglas Jr continuou emburrado e jogou os pincéis também. - Douglas! - Rayanne repreendeu o menino e ele saiu correndo pela casa. - Não corre que você vai se machucar, pelo amor de Deus! - Una quer. - Luna apontou para a pintura de Rayanne e olhou para suas mãos. - Você quer? - Rayanne suspendeu a filha e deu o pincel nas mãos dela. - Passa assim. - Ela colocou a mão em cima da mão da garota e a demonstrou como pintar. - Quero. - Luna confirmou e Rayanne a ajudou a pintar, mas agiu como se ela não estivesse ajudando. - Muito bem. - Ray soltou a mão da filha e a colocou em seu colo. - Ficou lindo, filha. - É. - Luna concordou e apontou para o chão. - Mã. - A garota riu para a mãe e apontou o chão. Rayanne colocou Luna no chão e a menina foi atrás do irmão. Ela levantou do banquinho e observou a pintura. As cores não eram tão alegres, o roxo, o preto, o azul escuro e o verde predominavam o quadro e Ray engoliu a seco tudo que estava lhe machucando. Ela sabia que precisava continuar. Douglas se levantou de onde estava e não conseguiu encontrar nada para comer no café da manhã. O armário estava vazio e ele não fazia a mínima ideia do que comprar primeiro. - Culpa da Rayanne. - Ele fechou o armário com raiva e rolou os olhos. - Ela é muito criança, nunca vi. Sai de casa e ainda leva os meus filhos. Rayanne não tem direito. - Douglas olhou para um vaso que estava perto e o encarou. Ele foi até o objeto e o jogou no chão. - Isso é culpa de quem? Da Rayanne. Não é justo que por causa de uma vez, eu perca o direito de conviver com os meus filhos. Ela é criança demais. Ainda deixa merda de carta de despedida. Ele olhou para a varanda e percebeu que estava com a porta meio aberta. Douglas foi até lá e encontrou uma caixa vazia, ele se esticou até a garagem e não acreditou no que viu. - Caralho. - Douglas saiu do apartamento desesperado e foi até a garagem. - Porra! - Ele fechou os olhos não acreditando que todas suas roupas sociais estavam jogadas no chão do estacionamento do condomínio. Douglas começou a catar suas roupas e viu que algumas estavam em poças d'Água. Depois de recolher todas suas roupas, Douglas voltou ao seu apartamento e jogou tudo em cima do sofá. Ele respirou fundo e discou o número de Rayanne em celular. - Ela vai me ouvir. - Douglas disse irritado e a ligação foi direto para a caixa postal. Douglas jogou o celular em cima do sofá e sentiu vontade em quebrar tudo no apartamento. Ele respirou fundo, tentando se controlar e deu um sorrisinho para si mesmo. Num impulso, ele pegou uma das fotos do casamento que estavam num porta-retrato na estante e jogou no chão, enchendo o chão de cacos de vidro, ele encarou o isqueiro no canto da estante e o pegou. A foto foi arrancada com raiva do que restava do porta-retrato e consumida pelas chamas derretendo bem ali na frente dele. - Você que quis assim. - Ele viu a imagem dos dois desaparecendo e forçou um sorriso. - Eu vou descobrir onde você está, Rayanne. Ele pegou outro porta-retrato e jogou no chão, dessa vez não quebrou. Era uma foto de Rayanne sozinha, sorrindo com a praia ao fundo da imagem. Douglas pegou a moldura e jogou novamente no chão e novamente não quebrou. Ele retirou a foto de Rayanne e sua raiva desmontou assim que ele olhou para o sorriso dela. Faziam poucas horas, mas ele já sentia saudade dela. Douglas parou de olhar para a foto e piscou os olhos jogando a foto no chão e levando o isqueiro consigo. Ele foi até seu quarto e tirou uma caixa preta de dentro do closet, Douglas abriu e encontrou várias carteiras de cigarro. Ao abrir uma das carteiras, tirar um cigarro e colocar na boca, ele não conseguiu acender na primeira vez porque lembrou da promessa que tinha feito a Rayanne, mas na segunda vez, ele acendeu normalmente e em menos de uma hora, fumou a carteira inteira. Quando terminou de fumar, Douglas foi até a cozinha e pegou um copo no armário, ele se abaixou e abriu um compartimento escondido no armário e tirou uma garrafa de whisky. Ele encheu o copo e levou a garrafa e o copo até a varanda, depois voltou ao quarto e pegou o isqueiro e as carteiras de cigarro. Douglas se sentou na cadeira da varanda e colocou os pés em cima da cadeira da frente, ele se dividiu entre fumar e beber - Mas que maravilha! Vida de solteiro. Uhul! - Ele comemorou e quando viu tinha acabado com a garrafa. Um carro de som passou na rua tocando Pablo e ele já estava vendo tudo distorcido novamente. - Você foi a culpada desse amor se acabar. Você que destruiu a minha vida. - Ele cantou junto com o carro de som com um sorriso no rosto um pouco alterado pela bebida e se levantou da cadeira para dançar. - Você que magoou meu coração, me fez chorar e me deixou num beco sem saída. Estou indo embora agora, por favor, não implora. Porque homem não chora. - Ele se sentiu incomodado com a música e tacou a garrafa e o copo no chão e acabou pisando num caco de vidro. Douglas saiu da varanda e sentou no sofá sentindo a dor pelo caco de vidro em seu pé. Ele suspirou. - Rayanne! Rayanne! Amorzinho! Vem me ajudar. - Douglas se atrapalhou com as palavras e se levantou para procurar por Rayanne, ele acabou pisando nos cacos de vidro do porta-retratos que tinha quebrado e sentiu ainda mais dor. - Rayanne! - Ele foi gritando até o quarto e se deitou na cama. - Ah é, ela foi embora sem nem se despedir de mim. Mulher ruim! - Douglas gritou e levantou da cama, tirando o colchão com raiva. - Que merda! Mulher é um bicho pra destruir a nossa vida mesmo, né? Mulher ingrata. Sempre paguei tudo pra ela, dei presente caro e ela vai embora por uma besteira e ainda leva meus filhos. Mulher louca, interesseira, só queria meu dinheiro mesmo. - Douglas se irritou e saiu do quarto ainda com os cacos de vidro no pé e se jogou no chão da sala para retira-los. - Mas tudo bem, eu não preciso de você, Rayanne. Eu me viro. Eu me viro. - Depois de tirar os cacos de vidro, ele chutou os outros e foi até a varanda se curvando e gritou. - Eu não preciso de você, Rayanne. Eu sei me virar sozinho. Melhor ficar sozinho na minha companhia que mal-acompanhado com uma mulher que não entende o que é a porra de um casamento. - Cala a boca, porra! - O vizinho do andar de cima gritou. - Ah vai tomar no cu! - O outro vizinho gritou e Douglas encarou o chão. - Vão se fuder vocês! - Ele gritou e saiu da varanda, fechando a porta. - Tomar no cu todo mundo. - Ele se jogou em cima do monte de roupas e respirou fundo. - Inclusive eu. Rayanne estava terminando de arrumar as roupas dos bebês no armário e viu Luna indo em sua direção tentando puxar Pocker. - Que isso? - Rayanne olhou para a filha e para o cachorro. Pocker estava com as orelhas abaixadas. - Não pode fazer isso com o Pocker, Luna. Assim vai machucar. - Ela ajudou o cachorro e repreendeu a filha. - Ulpa. - Luna fez bico e Douglas Jr apareceu no quarto jogando a bola em cima de Rayanne. - Não pode, Douglas! Douglas! Volta aqui. - Ele saiu correndo e Luna foi atrás. - Vocês querem me enlouquecer, é isso? - Ela foi atrás dos filhos. Luna estava correndo atrás dos dois cachorros enquanto Douglas Jr continuava a destruir o ateliê de Rayanne. Ele jogava quadros, pincéis, tintas e tinha derrubado o cavalete. Rayanne colocou as mãos nos olhos e respirou fundo. - To vendo que foi uma péssima ideia colocar seu nome de Douglas. - Rayanne comentou e puxou o braço do filho. - Você é tão atentado quanto o seu pai. - Papa. - Douglas Jr sorriu e bateu palmas e continuou derrubando as coisas da mãe. - É, seu pai. - Ela rolou os olhos e pegou o menino no colo. - Que foi? Resolveram fazer uma revolução na minha vida? Querem me enlouquecer? Rayanne levou Douglas Jr até o sofá e pegou Luna e colocou junto dele. Ela ligou a televisão e zapeou os canais até encontrar um canal infantil. Era um desenho de vários dinossauros gigantes e coloridos que cantavam e dançavam. - Bubu. - Douglas Jr disse e bateu palmas. Ray não entendeu e preferiu continuar sem entender. - Buba. - Foi a vez de Luna sorrir e bater palmas. - Deve ser o desenho. - Ela começou a catar as coisas do chão e respirou fundo. - Preciso pegar o ber... - Rayanne se lembrou de uma coisa e foi correndo até sua bolsa. Ela abriu a carteira e riu com o que estava lá. - Interessante. - Mama. - Douglas Jr chamou Rayanne e ela foi até ele. - Bubu. - Ele apontou para o dinossauro verde. - Buba. - Luna apontou para o dinossauro rosa. - Nós vamos dar um passeio daqui a pouco. - Rayanne avisou e os dois bateram palminhas. - Até eu vou bater palminhas com vocês dessa vez. - Ela debochou e bateu palmas. Rayanne colocou os bebês na cadeirinha no banco de trás e dirigiu até o shopping. Ela montou o carrinho assim que estacionou o carro e colocou os gêmeos dentro. - Vamos gastar. - Rayanne deu um sorrisinho e saiu empurrando o carinho dos bebês pelo shopping. Ela entrou em lojas de móveis para bebês e comprou um berço e mandou entregar em seu novo endereço, depois entrou em loja de bebês e comprou sapatinhos, roupinhas e mais acessórios. Por último, Rayanne foi até uma das melhores lojas de roupa feminina e comprou tudo que queria, além de alguns pares de sapato e lanchar. Depois que terminou essas compras, ela levou os bebês e as bolsas até o carro e voltou para o apartamento. Ao estacionar de volta em seu condomínio, Ray levou tudo até seu apartamento e Pocker e Leke a recepcionaram. - Bebezinhos. - Ela cumprimentou os cachorros e jogou todas as bolsas em cima do sofá e tirou os bebês do carrinho. - Meus filhinhos. - Mama. - Douglas Jr disse e deu um sorriso. - Que foi, bebezinho? - Ela olhou para o filho e ele fechou os olhos e saiu correndo até os quadros dela e começou a jogar no chão. - Que isso, Douglas? - Ray tentou parar o menino, mas ele começou a jogar outras coisas da casa também. Douglas estava com raiva, além de seu pé estar começando a doer ainda mais, ele não acreditava que Rayanne tinha comprado todas aquelas coisas que mandaram como notificação para seu celular. - Interesseira! - Ele gritou e deu um soco no sofá. - Falsa! Ela vai me ouvir, ela vai me ouvir, ela vai me ouvir. - Douglas repetiu seguidas vezes e discou o número de Rayanne. - Alô? - Ela disse assim que atendeu. - Que alô o que? - Ele aumentou o volume da voz e grunhiu. - Vamos com calma que eu não tô gritando com você. - Rayanne disse irônica. - Você que fuder a minha vida, né? Interesseira, mentirosa, falsa, cobra do deserto. - Ele estava furioso e Ray estava rindo do outro lado da linha. - Tem algum motivo pra me ligar ou só ódio gratuito pós-ter sido abandonado? - Você usando a porra do meu cartão de crédito pra comprar merda. - Ele gritou. - Comprei coisas muito legais. Não chame as coisas de merda porque a única merda aqui é você. - Ela rebateu ainda com a voz calma. - Já falei pra falar baixo comigo porque eu não tô gritando com você. - Eu quero falar com os meus filhos. - Douglas alterou o tom de voz e ficou com mais raiva ainda pelo deboche de Rayanne. - Meus filhos não tem nada pra falar com você. - Ela pôs ênfase no "meus" e ouviu uma espécie de rosnado. - Que isso? Virou cachorro? - Faz logo o que eu to te pedindo. - Não! - Rayanne negou com firmeza. - Você não merece ter contato agora com eles. Os dois estão muito felizes pra te ouvirem falar merda, porque é só isso que você fala. - Rayanne! - Douglas estava cada vez mais irritado. - Eu vou encontrar onde você está morando e vou... - Vai o que? Me bater? Ficar me perseguindo? - Ela questionou e Douglas se calou. - Se você encostar um dedo em mim ou se aproximar sem que eu queira, eu te denuncio. - Você tá me julgando por causa de uma vez. - Para com isso! Guarda isso pra você! Você não precisa ficar falando isso! É um problema seu. Eu nunca fiz isso. - Muita palhaçada a toa. Você não tem o direito de fazer o que está fazendo. - Eu só quero que você assine a merda do divórcio e me deixe em paz. Não sei quem é você, Douglas. Já não sei quem é você. Será que algum dia eu soube realmente? - Você tá levando tudo pro seu lado. - Ele gritou mais uma vez e Rayanne desligou. - Me responde, porra. Me fala. - Douglas percebeu que ela tinha desligado e jogou a cadeira no chão da sala de estar, quase quebrando o piso. Depois tirou e jogou a aliança no chão da sala de estar. Rayanne desligou o telefone e respirou fundo. Ela ouviu um grito vindo do quarto e correu até os filhos. Luna estava gritando enquanto Douglas Jr jogava tudo que encontrava no chão. Ray ficou sem reação com a cena e respirou fundo, tentando entender o que iria fazer para acalmar o pequeno. - Vou colocar aquela merda de Bubu e os dinossauros. - Ela guardou o nome do desenho em sua mente e procurou o desenho no registro dos canais. - Vem aqui. Rayanne foi até o filho e o colocou em cima do sofá, Douglas Jr arrancou o controle das mãos de Rayanne e jogou no chão e começou a gritar desesperado. Luna também gritou e tampou os ouvidos, assustada com as atitudes do irmão. Pocker e Leke foram correndo até a sala e começaram a latir alto e sem parar. - Eu não mereço isso. - Ray fechou seus olhos e respirou fundo tentando não chorar de nervoso. Douglas Jr parou de chorar e gritar e começou a cantar com o desenho animado e Luna fez o mesmo. Pocker e Leke pararam de latir e Rayanne abriu os olhos como se estivesse com medo de ser uma ilusão. Ela abriu os olhos lentamente e viu a paz e tranquilidade de volta ao ambiente. - Aleluia. - Ela fez o sinal da cruz e começou a recolher tudo que o menino tinha jogado no chão. Douglas pegou outra garrafa de whisky dentro do compartimento escondido do armário, além do copo, e levou até a varanda, chutando os cacos de vidro para um canto. Ele também pegou seu isqueiro e a nova carteira de cigarros e colocou tudo em cima da mesinha da varanda. Douglas se sentou na cadeira e abriu a garrafa. O líquido foi despejado dentro do copo e ele tomou a dose de uma vez só e tirou um cigarro do maço e o acendeu. - Ela quer me destruir. Ela acha que eu preciso dela. - Ele disse ao soltar a fumaça e tomou mais uma dose. - Ela não vai conseguir me destruir. Rayanne acha que eu preciso dela, mas eu não preciso. - Douglas devolveu o cigarro a sua boca e encheu o copo. - Rayanne acha que eu preciso do bom dia dela ou do beijo dela, do cheiro, do carinho, do jeito que só ela tem, da forma que ela me faz sorrir, das coisas que ela preparava pra gente almoçar, do companheirismo, da amizade, da fidelidade... Coitada. - Ele deu mais uma tragada e tomou a metade do que tinha no copo. - Ou do amor dela, da forma que ela me beijava, a forma que ela sempre fazia tudo pra me agradar, o jeito que ela se entregava pra mim e de como ela dormia na nossa cama ou de como eu sempre queria acordar antes pra ficar olhando pra ela ou... - Douglas sentiu um nó na garganta e continuou sua reflexão. - Da forma que ela fazia de tudo pra ser a melhor esposa do mundo. - Ele sentiu seus olhos marejarem e tomou um palmo da bebida direto da garrafa. Douglas apagou o cigarro e fechou seus olhos. - É... Talvez eu precise. Douglas se levantou da sala e foi até a sala, tropeçando em tudo e procurando pela foto que estava ali até o dia anterior. Ele passou a mão pelos porta-retratos em busca de um específico e foi ali que lembrou que tinha queimado a foto. Seus olhos marejaram ainda mais e ele respirou fundo olhando para como estava o apartamento. Coisas destruídas, fotos queimadas, promessas quebradas... Tudo fora de ordem. Ele sentou na beira do sofá e olhou para suas roupas manchadas por terem caído numa poça de água suja. Então ele olhou para a única coisa que estava no chão e não estava quebrada, Douglas suspendeu o porta-retrato com as mãos trêmulas e virou a foto para ele. - Talvez eu precise de você. - Ele passou a mão pela foto de Rayanne, que não tinha conseguido destruir. - Talvez eu realmente te ame. - Douglas finalmente liberou as lágrimas que estava prendendo desde cedo e abraçou o porta-retrato. - Eu preciso de você. - Ele caçou a aliança pelo chão e ficou com ela nas mãos, fechou os olhos e continuou abraçado ao porta-retrato. Amanheceu. Douglas acordou em cima do monte de roupas no sofá e nem pensou direito, viu a forma que estava e respirou fundo. Ele estava fedendo e ainda estava um pouco bêbado. - Preciso dar um jeito nisso. - Ele caminhou até a garrafa de whisky e tomou o restante. - Bom dia seus filhos da puta. - Douglas gritou da varanda e achou graça. - Tudo vizinho filho da puta. - Ele gritou mais alto. - É você, seu arrombado. - O vizinho de cima respondeu e Douglas esticou para enxerga-lo. - Arrombado. - O vizinho deu o dedo do meio para Douglas, que retribuiu. - Bêbado filho da puta, fica acordando os outros, enfia um... - Douglas fechou a janela e não ouviu o restante. - Tenho que dar um jeito. - Ele repetiu e pegou a chave do apartamento, saindo e tropeçando nos próprios pés. Rayanne acordou e viu que os bebês também estavam acordados. Ela preparou a mamadeira deles e os colocou no chão da sala de estar. Os pequenos estavam assistindo a Bubu e os dinossauros enquanto Ray tomava seu chocolate quente. Ela ouviu quando eles trocaram de canal. - Papa. - Luna disse desesperada e Ray parou de beber seu chocolate e olhou para a pequena. - Que foi, Luna? - Rayanne perguntou a filha que estava com as pupilas dilatadas. - Papa. - Foi a vez de Douglas Jr dizer e começar a chorar. - Que foi? - A mãe dos pequenos se levantou e Luna apontou para a televisão. Ela encarou a televisão e fechou os olhos, respirando fundo. A manchete "Urgente! Homem tenta se jogar da ponte!" lhe fez rir. - Aí que ridículo. - Rayanne viu a câmera focar em Douglas e riu enquanto os pequenos choravam. - Mas é um idiota mesmo. - Ela trocou o canal e colocou o desenho para acalmar os bebês. Eles não pararam de chorar. - Papa! Não! - Douglas Jr era o que mais chorava. De repente ele se jogou no chão e Ray arregalou os olhos. - Que isso? - Ela foi até o filho e ele ficou de olhos fechados. Rayanne sentiu um aperto e o menino a abraçou. - Papa. - Luna também fechou os olhos e deitou no sofá. Rayanne tirou os pequenos da sala e os colocou no quarto com a porta fechada. Ela voltou a notícia e viu que a cobertura do canal ainda estava lá. - Um homem que responde pelo nome de Douglas está tentando se jogar da ponte nessa manhã. Nossa equipe está completa e acompanhando o caso segundo a segundo. - Gente, eu não tô acreditando nesse mico. - Rayanne rosnou com raiva e pegou seu celular, discando o número de Douglas. - Parece que alguma coisa está acontecendo! - O apresentador gritou e Rayanne colocou no mute. - Alô? - Douglas atendeu e Rayanne suspirou. - O que você tá fazendo? Sai daí. - Como você sabe? - A cidade inteira sabe. Para de pagar mico, pelo amor de Deus. Tenta resolver a situação como homem e não tenta expor os seus filhos e a pessoa que você esteve com você. Qual o seu problema, Douglas Sampaio? Você precisa de um acompanhamento psicológico, não pode ser normal ser assim. - Ray... - Ele começou a choramingar. - Ray... - Para Douglas! - Rayanne se irritou. - Desce já dai e para de passar vergonha. Você queria chamar atenção de todo mundo, né? Pronto, já conseguiu. Agora deixa de ser ridículo e libera a polícia pra coisas realmente importantes. - Enquanto você não voltar pra mim, eu vou continuar aqui. - Então, você vai ficar aí pra sempre. - Ela foi sincera e rolou os olhos. - Eu agradeço muito se você descer e parar com isso. Eu já to com vergonha e é uma questão de tempo deles descobrirem que você tem filhos e tá assim porque foi um idiota comigo. - Me perdoa. - Ele pediu e Rayanne olhou para a televisão. A imagem estava em Douglas com o celular e ela rolou os olhos cada vez mais irritada. - Quer saber? Pula mesmo. Tanto faz, quem tá pagando esse papel ridículo é você. - Ela desligou a televisão. - Seus filhos estão chorando porque te viram na televisão e agora? Você não sabe ser pai, né? Espero que o seu próximo filho com a Bianca te ensine a ser pai, já que os meus gêmeos não ensinaram. - Rayanne desligou o celular e respirou fundo, tentando se acalmar. Ray voltou a ligar a televisão e viu Douglas sendo retirado da ponte. Ela rolou os olhos e engoliu a seco. Depois foi até o quarto e tirou os pequenos de lá. - Tudo bem. - Rayanne sorriu para os dois e Douglas Jr começou a berrar sem motivo. - Colo. - Luna pediu e Rayanne a pegou no colo. A menina abraçou a mãe e deu um beijo na bochecha. - Papa bobo. - Ela assegurou e Ray concordou. - Muito bobo. - Papa! - Douglas Jr disse irritado e pegou o controle, jogando com raiva no chão e fazendo as pilhas voarem para todos os lados. - Que isso? - Rayanne perguntou e Luna se agarrou a seu pescoço, se escondendo do irmão. - Para! - Ela viu o bebê jogando as almofadas do sofá no chão e depois deitando no chão e gritando. - Medo mãe. - Luna se forçou a completar a frase e começou a chorar. - Não precisa ter medo. Fica calma, Luna. - Ela viu a bebê realmente assustada e a menina escondeu o rosto deitando a cabeça em seu peito. - Calma. - Pelo Papa. - Douglas Jr anunciou e continuou derrubando e tentando chutar tudo que via pela frente.