ANTES DO TOQUE - PARTE 1
Nunca fui de escrever. Muito menos de me expor.
Mas algumas histórias não pedem silêncio. Pedem testemunho.
O que vou contar aqui não é ficção. São relatos das experiências que vivi ao lado da minha esposa, minha parceira, minha cúmplice.
Talvez seja por isso que escrever isso agora me deixe tão excitado quanto naquela época.
Meu nome é Bernardo.
Minha esposa se chama Monise, mas ninguém a chama assim. Para todos, inclusive para mim, ela sempre foi a Mona.
Quando nos conhecemos, eu tinha 25 anos. Ela, 27.
Eu cuidava bem do corpo. Tinha 1,89 de altura, era definido, firme. Chamava atenção, sim. Mas nada, absolutamente nada, se comparava ao efeito que ela causava quando entrava em qualquer ambiente.
A Mona sempre foi uma gordinha sexy no sentido mais perigoso da palavra.
Baixinha, 1,57. Seios fartos. Quadris largos. Curvas que não pediam licença.
Ela não implorava por olhares. Ela os tomava.
Sou de Minas. Ela, de São Paulo.
Nos conhecemos pelo Tinder, numa dessas coincidências modernas que parecem bobas, até não serem mais.
Eu estava de passagem pela cidade dela. Demos match, começamos a conversar e, quando percebi, já estava longe fisicamente, mas preso de um jeito que eu ainda não entendia.
A conversa fluía fácil demais. Gostosa demais.
Rapidamente ficou claro que não era só simpatia. Era atração. Daquelas que crescem no escuro.
A distância impediu o toque, mas nunca esfriou nada. Pelo contrário.
Com o tempo, criamos uma intimidade rara. Falávamos de tudo. Inclusive, e principalmente, de sexo.
Ela tinha um jeito provocador de contar suas histórias. Não era vulgar. Era consciente. Sabia exatamente o que dizer e o que deixar subentendido.
Eu escutava, imaginava, endurecia. E ela sabia.
Foram cinco anos assim.
Cinco anos de mensagens fora de hora. De fotos sugestivas. De confissões que não se fazem a qualquer um.
Vivíamos outras histórias, outros corpos, mas sempre carregando o mapa do desejo um do outro.
Quando finalmente decidimos nos encontrar, não era mais curiosidade.
Era fome.
Escolhemos o Grande Hotel, em Campos do Jordão. Um lugar discreto, elegante.
Perfeito para quem queria se perder sem ser visto.
O encontro foi no estacionamento.
Por coincidência, ou destino, paramos lado a lado.
Desci do carro e a vi pela primeira vez fora da tela.
Ela usava um vestido preto colado ao corpo, curto na medida exata para deixar claro que não estava ali para fazer amizade. Salto alto. Postura confiante.
O tipo de mulher que entra sabendo que o ambiente já é dela.
Ela me olhou sem pressa. Da cabeça aos pés.
Sorriu daquele jeito que eu já conhecia tão bem. Lento, cheio de promessa.
— Oi, Bernardo.
Meu corpo respondeu antes da minha boca.
— Oi, Mona.
Ela se aproximou mais um passo. Invadiu meu espaço sem pedir.
O perfume dela era quente, envolvente. Do tipo que fica na memória.
— Você demorou — disse, em tom calmo, dominante.
Em seguida, virou em direção ao elevador, caminhando na frente, sem olhar para trás.
Cada passo dela era um convite e, ao mesmo tempo, uma ordem.
Eu a segui.
Dentro do elevador, o silêncio era pesado.
O espaço fechado amplificava tudo. O cheiro, a proximidade, a tensão acumulada de cinco anos.
Quando a porta se abriu no andar do quarto, ela segurou minha gravata, puxando-me para perto, só o suficiente para falar no meu ouvido:
— Agora você é meu.
E caminhou até a porta.
Quando ela abriu o quarto e entrou primeiro, eu soube.
Aquela história não seria sobre mim.
Nunca foi.
E eu fechei a porta atrás de nós.










