Eartha não era uma pessoa que normalmente se envolvia nos problemas pessoais alheios. Na verdade, ela temia que se pedisse a autorização de Aspen para fazer o que estava prestes a fazer, o irmão seria capaz de agredi-la fisicamente, como quando tinham seis anos e a mãe precisava separar os gêmeos pelas orelhas. O frozen iogurte com frutinhas vermelhas em sua mão claramente era uma oferenda de paz, e ela esperava que funcionava. Ao avistar @daringdcrling ela acenou para a amiga com a cabeça. --- --- Hey, Jane! --- --- Murmurou. --- --- Trouxe pra você! --- --- Ofereceu um dos pequenos potinhos em sua mão para a garota. --- --- Faz tempo que eu não te vejo... Eu não te vi em Neverland... Se eu bem te conheço, aposto que você evitou o máximo que pode a visita por lá, mas vim saber como você está, então.... Como você está? --- --- Ali estava o motivo pelo qual ela não se envolvia em problemas pessoais alheios. Ela era horrível nisso.
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Repassara incontáveis vezes o mesmo assunto em sua mente e, ainda que tentasse desviar-se do pensamento, ele tornava a aparecer. Fizera o esforço descomunal de não refletir demais a respeito desde que o sonho em questão acontecera, talvez pudesse se iludir de que não fora premonitório, só um sonho aleatório e sem significado, como boa parte dos seus colegas alegava diariamente ter. Não era o que acontecia com ela, claro, mas tentaria se iludir apenas para se permitir ao mínimo de paz. Se é que era possível quando se estudava em Aether. E, justamente por Aether ser Aether, que agora andava em círculos por seu quarto sem parar, novamente debatendo-se com a questão de semanas antes. O que seu sonho queria dizer? Teria de, depois de tanto tempo, procurar por @daringdcrling? Não, não, não, não faria isso. Mas e se...? A leve menção do pensamento a amedrontava. Certo, iria atrás dela.
A passos lentos e incertos, totalmente divergindo do seu usual caminhar decidido, encaminhou-se ao local o qual ela sabia carregar a maior probabilidade de encontrar a outra livre de qualquer companhia. Ainda com anos tendo se passado, imaginava que aquele velho costume de Jane não havia se perdido com o tempo. Conhecia-a bem demais, afinal. E, lá estava ela, na torre de astronomia — como de praxe. Encarava um ponto muito distante, cena essa que ajudou Autumn a tomar tempo suficiente em se recompor. Os últimos eventos a deixaram mais traumatizada do que já estava antes — se é que era possível — e, estar na presença da jovem Darling, em nada ajudava a manter seus pensamentos em ordem. ❝Jane?❞ Chamou, e aquela teria sido a primeira palavra que trocavam em... bem, muito tempo. Como era estranha a sensação de estarem apenas as duas ali. ❝E-eu... eu preciso falar com você.❞
Este sonho, mais uma vez, não é um sonho qualquer, caro leitor. Tratando-se de Autumn Rose, quase nunca é. Dificilmente sua própria mente se dá a esse privilégio, a essa dádiva, a essa sorte excepcional que é ter uma boa e tranquila noite de sono. Era sempre um esforço descomunal para desejar e responder "bom dia" aos demais colegas, quando suas noites raramente eram dignas de serem chamadas de boas. Naquela madrugada, não fora diferente. Boa passara longe do seu vocabulário.
Há anos, fazia de tudo para aliviar os próprios pensamentos antes de adormecer, seguindo superstições dos mais variados tipos; indo desde não deitar com a face encarando o teto a tomar um chá quentinho de camomila com mel. É certo dizer que em pouco adiantavam todos aqueles planos, os pesadelos continuavam a vir, mas uma garota podia tentar, não é? E, no caso dela, podia sonhar. Infelizmente, podia sonhar até demais. Seguira todo seu ritual silencioso, como de praxe, na expectativa de que, algum dia, tudo aquilo viria a funcionar. Bastara fechar os olhos e se deixar ser tomada pela inconsciência, no entanto, para saber que, não, ainda não havia funcionado.
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O ar era gelado, cortante. A pele formigava num pedido de algo para aquecê-la, confortá-la em meio àquela atmosfera ainda desconhecida. Suas costas apoiavam-se num chão irregular e úmido debaixo de si, as folhas secas quebrando-se levemente conforme as pressionava para se levantar. A respiração profunda que tomou em seguida fez apenas com que a gélida ventania penetrasse também por seus pulmões. Autumn, naquele momento, era uma personificação da sensação de frio, cada centímetro de seu corpo refletia isso. Numa tentativa de entender mais da cena ao seu redor, abriu os olhos.
E tê-los abertos foi o mesmo que tê-los fechados.
Estava tomada pela mais repleta escuridão. As pupilas, já dilatadas, quase nada contribuíam para uma melhor visão do todo. Ergueu levemente os braços para a frente e se permitiu poucos passos curtos em linha reta, ainda receosa de dar prosseguimento a uma caminhada às cegas. Interrompeu-se bruscamente ao mínimo toque numa superfície, a sensação áspera e familiar das árvores logo a dando noção de onde se encontrava. Uma floresta. Assimilava a informação antes de tomar qualquer outra decisão, quando um andar que não o seu próprio pôde ser ouvido à distância.
"Alguém aí?" E, não estivesse num local aberto, teria muito bem ouvido o eco de seu questionamento. Parecia tão sozinha quanto antes. "Se alguém estiver aí, apareça!" Suplicou enquanto virava o corpo numa tentativa de procurar pela outra presença. Não gostava nada da ideia de estar rodeada por um estranho numa escuridão daquelas, não era um pensamento lá muito agradável.
Subitamente, a luz da lua cheia preencheu toda floresta. Em plena noite, ali era quase dia novamente. As folhas agora eram visíveis, chacoalhando-se levemente com a ventania ainda presente; o horizonte não mais parecia assustador, agora plenamente visível. Teria suspirado aliviada, não fosse o fato de que, finalmente iluminada, a figura distante revelara-se ao longe. E a encarava.
Jane.
Se o nome ficara apenas em sua mente ou de fato deixara seus lábios num sussurro, não saberia dizer. Há tanto tempo não ficavam frente a frente, mesmo que separadas por metros de distância, apenas as duas, fitando uma a outra, que aquela simples imagem mexia com algo dentro de si. Evocava memórias adormecidas, distantes demais do momento atual, dos caminhos divergentes as quais cada uma escolhera seguir — silenciosamente, pois não trocaram uma palavra sequer desde então. Não sabia dizer se ousaria trocar ali, se ousaria quebrar a quietude.
Caminharam uma em direção a outra, poucos centímetros apenas, as respirações sendo a única coisa audível ali naquele momento. O que estava fazendo? Se não tinha algo a dizer, o que pretendia neste exato instante? Monólogos mentais ao longo daqueles anos sobre o que acontecera eram de mínima serventia para ajudá-la, reflexões tornaram-se todas em vão. Era cada vez mais possível fitar a filha de Wendy nos olhos e ela aparentava estar prestes a dizer algo. O ar se preenchia do que parecia ser expectativa por parte de ambas.
Quando Jane se rodeou de sombras e... desapareceu dali.
Deixando a aderense novamente sozinha, confusa. A escuridão voltara a tomar o ambiente, o frio subia por seu corpo mais uma vez — quando sequer notara ter deixado de senti-lo até então —, uma voz em sua mente tornava a preenchê-la.