{flashback} Deadly State of Seduction | Daimie
Maimie já deveria saber que o dia seria especialmente ruim assim que acordou pela noite com o som estridente de garrafas quebrando alguns andares abaixo. Era sempre assim: dormia pela manhã para aguentar a noite alerta e acordada, bem de olho nas confusões piratas que a Madame Chaleira parecia sempre atrair. Pulou da cama com agilidade, apalpando o travesseiro pela adaga afiada que ali deixava por precaução e passando um de seus vestidos pela cabeça, afinal, não era de seu feitio aparecer desmantelada em público, mesmo que para apartar uma briga. Apertou bem o espartilho, como tinha o hábito de fazer para seu ex-marido, uma experiência romântica mal sucedida que resultou em morte para ambos os lados.
Os últimos meses estavam sendo difíceis; abrir uma taverna numa ilha de pouso pirata era como jogar mel num formigueiro ―logo todos eles estavam ali, com seus maus modos característicos e desrespeito evidente, afinal, a dona era uma mulher e sempre tinham os engraçadinhos que achavam que poderiam tirar vantagem desse fato. Abrira a taverna em pouco tempo e ainda não tinha o requisito primordial para se administrar um lugar como aquele: respeito. Já havia socado a cara de alguns piratas sem-vergonha, quebrado garrafas de rum em outros e feito pequenos cortes em mais alguns, mas, aparentemente, ser uma mulher bem próxima ao mundo pirata era ser sinônimo de mau agouro ―havia aprendido isso anos antes, quando abandonada, ainda bebê, em sua própria sorte e colocada no mar pelo seu digníssimo pai pirata. E ela estava farta de ser tratada de forma tão brutal por esta tão digna classe de trabalhadores. Estava farta de ser tratada como achavam que uma mulher deveria ser tratada.
Desceu as escadas carregando a faca nas fitas do corselet azul apenas para deparar-se com dois homens sujos e cabeludos, rolando no chão como duas morsas gigantes cruzando e urrando de ódio enquanto outro pirata entregava-lhes garrafas vazias para quebrar na cabeça do outro. O motivo ela não sabia – que poderia variar desde o assassinato do irmão até um desentendimento sobre quantos yo-ho a música possuía no refrão -, mas sabia que teria de tirá-los dali antes que tivesse de contratar mais gente para limpar o sangue e cacos de vidro que se espalhavam pelo chão. O homem do balcão encontrava-se bem encolhido no canto, mas Maimie não o culpava de fato, apenas tinha certeza de que deveria demiti-lo após aquilo tudo, pois de quê valia um homem ali dentro se este mesmo era o primeiro a se encolher quando uma briga começava?
Maimie dobrou-se sobre o balcão de bebidas para alcançar uma garrafa para chamar a atenção geral, mas, no entanto, sentiu uma mão se esfregar em sua cintura, subindo cada vez mais até o decote do corselet. Com um avanço rápido, ela puxou a adaga das fitas e virou-se, a lâmina brilhante ido de encontro ao pulso do pirata caolho. “E da próxima vez será em seu olho bom, skallywag imundo” advertiu, pisando no pé do homem. Com a garrafa em mãos, Eleanor Jones arremessou-a do outro lado da parede. Tudo cessou. Ela percebeu, com espanto, que a calmaria repentina não provinha de seu ataque à parede, mas sim das dobradiças da porta. Esta, por sua vez, abriam passagem para um novo grupo de piratas. E lá vamos nós novamente, Jones.













