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E lá estava ela novamente: Na sala branca como um documento vazio, enquanto esperava as palavras surgirem para expressá-las numa outra tentativa desesperada de melhorar.
A Criadora encarava as próprias palmas com um ar reflexivo. Ela pensava sobre a própria existência e como sentia-se mais leve quando entrava nesse plano tão extenso e desprovido das limitações que seu mundo de origem possuía. Aqui, ela não precisava preocupar-se com o fato de ter um corpo frágil e carregado de dores. Sua figura poderia assumir a forma que quisesse num piscar de olhos. Não havia necessidade de se sentir impotente e refém das circunstâncias quando ela, enfim, detinha em mãos o poder sobre o mundo à própria volta que tanto desejava.
No entanto, o poder que tinha sobre si mesma ainda era tênue, oscilante como as ondas do mar.
Às vezes, suas emoções se concentravam de forma tão intensa num ponto invisível acima do seu coração que se tornava difícil de respirar. O seu mundo de origem — tão caótico e injusto — mudava de cor de forma tão brusca diante da sua percepção em constante mudança que a deixava desnorteada. Ora brilhante, amarelo e agradável; ora desbotado, cinza e angustiante. Ela poderia viver nele para sempre. Ela não gostaria de passar mais um segundo experienciando aquele lugar.
Alguns dias, no conforto do silêncio e das sombras da noite, a Criadora se perguntava se deveria continuar em frente diante da loucura que era viver. Previsivelmente, a resposta que encontrava dentro de si mesma era que ela amava criar. Era isso o que dava sentido à sua existência. E, o ato de criar implicava, essencialmente, existir e processar estímulos. Ressignificar as dores, os prazeres, as dúvidas e os conhecimentos.
Logo, sem existência não há criação. E a Criadora pensava que, enquanto tivesse a oportunidade, gostaria de permanecer retornando a mundos abstratos com fundos brancos para misturar, recortar, espalhar, juntar, separar, refazer e transformar ideias.
Sua infelicidade residia no fato de não ser capaz de fazer jus à magnitude das coisas que gostariam de vir à existência. Todavia, esse era apenas um dos ossos do ofício.
Conforme ia encontrando o caminho entre signos e sons, a sala branca encheu-se de letras através das paredes. A Criadora riu com o absurdo de todas as coisas — ela própria, o ato de pensar, o porquê das coisas, tudo, tudo, tudo — e transformou o local na sala de estar da sua casa no mundo de origem. Familiar, com as marcas de um passado excêntrico e um presente moldável.
Existe um jeito certo de ser humano? Ela costumava se perguntar.
Claro que não, a palavra certo é apenas um conjunto de signos abstratos que se referem a um espectro tão incerto de conceitos. Talvez, questionar-se sobre as coisas seja a expressão mais típica da humanidade. Sempre possuir ambição para além das coisas que possui e nunca ser capaz de estar satisfeito. Sofrer pelo passado, sofrer pelo presente, sofrer pelo futuro. Sofrer por aquilo que possui e o que não possui. Sofrer pelo o que os fatos são e não são. Sofrer pelo o que, abstratamente, eles poderiam ter sido ou um dia poderão ser. Sofrer pelo invisível e o visível.
Sofrer. A humanidade, com a sua autoconsciência, sofre como nenhum outro animal.
A Criadora suspirou, sem saber o que sentir diante dessa linha de pensamento. Ela deitou-se no chão e ficou a gravar na memória as infiltrações e os mofos que adornavam a pintura velha do teto. Não havia ninguém ali, naquele espaço sem limitações. Ela poderia enchê-lo de pessoas. Ela poderia ter escolhido qualquer outro local mais interessante e agradável que aquele — o qual carregava tantas memórias.
Porém, ela percebeu com pesar que havia sim uma limitação impossível de ignorar dentro daquelas formas abstratas. A própria mente, as próprias percepções, os próprios sentimentos e o próprio conhecimento. Ela estava presa dentro de todas essas coisas, não importava o que fizesse.
Quebrando o silêncio, ela ousou se expressar em voz alta:
“O que estou fazendo aqui, afinal de contas? Qual era o meu objetivo vindo para um mundo de ideias que me fogem e não me levam a lugar algum? Eu já não me lembro mais e, mesmo assim, continuo vomitando palavras na esperança ingênua de algo.”
Como não se lembra? Você mencionou no início do texto. Queres melhorar, não queres? Somente um bom diálogo interno poderá ajudá-la nessa árdua tarefa. Vamos, coloque para fora que te aflige.
“E quem exatamente seria você?” Ela olhou ao redor, não avistando ninguém. Todavia, a sensação nítida das palavras na sua consciência persistiu, tão clara como a luz solar que entrava pelas janelas. Tão óbvia quanto a pessoa que fazia essas palavras virem à vida no fundo branco.
Essa é uma pergunta que somente você mesma pode responder, não acha?
“É, você tem razão.” A Criadora pôs as palmas sobre os olhos, tentando organizar os próprios pensamentos. Era tão difícil olhar para dentro de si com olhos honestos, despidos de idealização e impressões com viés externo. “Tenha paciência comigo, por favor. Eu sei que estendo as coisas desnecessariamente a grande maioria do tempo.”
Não há ninguém com pressa aqui. Leve o seu tempo. Se não conseguir terminar hoje, temos amanhã. E todos os dias depois dele, até a morte interromper subitamente nossos planos. O tempo passará rápido de qualquer maneira, mas não há como apressar esse tipo de coisa.
“Obrigada. Eu não sei porque estou agradecendo, considerando as circunstâncias dessa interação, mas obrigada.”
Você agradece em partes porque se sente um fardo e em partes porque possui uma gratidão genuína dentro de si, produto dos tempos em que foi privada do básico. Você agradece porque quer que o outro indivíduo se sinta bem, mas também porque é assombrada pelas palavras duras que te chamaram de ingrata desde que possui consciência de si mesma e do mundo ao seu redor.
Como parte do ciclo, você se comporta sistematicamente para provar todas as crenças enraizadas dentro de si erradas, porém isso apenas alimenta essas crenças e te impede de crescer, de se libertar. O que mais você carrega como eco do passado?
“Eu… Eu penso que, às vezes, não sou uma companhia agradável para as pessoas que convivem comigo. Eu tento me fazer útil para haver alguma razão para elas permanecerem ao meu lado. Quanto às emoções, eu me reprimo pois tenho medo de demonstrar fraqueza ou ter o meu sofrimento invalidado, como já ocorreu diversas vezes.” Ela sentia o próprio corpo se distanciando daquilo que dizia, como se estivesse falando de outra pessoa. Como se estivesse não mais na sala de estar da sua casa, mas num lugar tão escuro que engolisse toda a luz que ousasse se aventurar por ali. “Eu tento dar sentido ao meu sofrimento e à minha existência de maneira que ele não dependa majoritariamente de outras pessoas, mas a minha vida inteira foi ouvindo que era meu dever cuidar dos meus pais e do meu irmão, que tinha sido para isso que eu fui colocada na Terra. Eu nunca fui o suficiente. Eu me sentia facilmente descartável uma vez que minha função relacionada ao outro se dissipasse.”
A Criadora sentia um nó se formando na sua garganta, um amontoado de emoções borbulhantes querendo subir à superfície. Era por isso que ela não costumava falar sobre isso tão abertamente, de forma a reconhecer o que havia acontecido. A não eufemizar a gravidade da situação.
É um mal necessário. Continue, por favor. Você vai se sentir melhor após. O início é sempre a parte mais difícil.
“Estou me esforçando, eu juro.”
Eu sei que está, em nenhum momento duvidei disso. Você não precisa justificar em toda oportunidade que está sendo forte de alguma maneira. Está tudo bem admitir que está com medo.
“Então... Eu admito. Eu estou com medo. Estou com vergonha e me sinto como uma criança abandonada toda vez que entro nessa parte da minha vida, tão determinante para a minha formação e tão necessária de eu ser exposta a ela para ser capaz de seguir em frente.” Ela soltou um longo suspiro, ignorando todos os instintos que a diziam para desconversar e ir embora. “Eu me sinto injustiçada por ser obrigada a esquecer tudo o que aconteceu e tratar como se não fosse nada somente porque o tempo já passou e é esperado de mim que eu tenha superado. Eu penso que ser abraçada por alguém que reconheça o que passei e poder chorar no ombro dessa pessoa tiraria um peso de anos das minhas costas. Eu penso que isso é infantil e esse pensamento deveria sumir. Eu penso muitas coisas das quais não me orgulho.”
E está tudo bem, pois nossos pensamentos são desprovidos de filtro e eles não representam em sua totalidade a pessoa que somos. Assim como tudo o que já te disseram não representa de forma precisa o ser que você é. Podemos começar pelo fato de que as atitudes dos seus pais dizem muito mais sobre eles do que sobre ti. É importante lembrar que você era uma criança e ninguém pode te julgar por não ter sido capaz de lidar de forma saudável com as duras condições que foram impostas a você.
Ninguém irá te julgar aqui. Permita-se apenas expor sem julgar a si mesma antes de qualquer coisa. Se te conforta, somente o fato de você ter interrompido a sua rotina para vir aqui é um grande passo na direção da sua melhora. Não será hoje que questões de anos serão resolvidas, mas podemos ter a consciência de que essa atitude irá render frutos ao longo prazo.
Você não é um objeto ou uma máquina feita para servir, Criadora. Assim como o trabalho que você realiza de construir coisas que possam ser ressignificadas, a sua criação — pela biologia, pela escolha inconsequente de outro ser, pelo acaso, sem qualquer forma de consentimento – pode ser ressignificada por você e pelos outros. Pelo papel que você exerce na vida daqueles que te rodeiam e pela visão que constrói acerca de si mesma. Encare-se como alguém livre para escolher novos caminhos ou alguém fadado ao sofrimento da escolha. Permita-se. O mundo é um lugar grande demais para se prender a 18 anos vividos dentro de uma única casa.
Não irei dizer que você é digna de afeto, pois isso seria mentir pelo conforto. Ser digno, assim como o modo correto de fazer ou ser algo, não existe realmente. Mas, posso lhe oferecer as palavras de que é possível construir afeto e aceitação e que isso depende apenas da sua permissividade para mostrar-se às pessoas.
Mesmo que você seja um monstro, ainda haverá alguém capaz de encontrar um motivo para te acolher.
Incrédula, a Criadora riu. "Eu deveria me sentir confortada por essa última parte?"
Já havia se passado um dia inteiro no seu mundo de origem. As horas escorreram pelo relógio, os acontecimentos reduzidos a um mero borrão de cores, luzes e sensações engarrafadas. E, outra vez, lá estava ela: mergulhando em palavras diante de uma tela com luz artificial.
Não é para isso que você está aqui me escrevendo, lendo e interpretando?
Um suspiro. "Eu não sei mais o que estou fazendo com as minhas horas. Eu não sei porque estou aqui. Tantas coisas hoje me trouxeram o pensamento de que o suicídio seria a melhor opção— Estou com raiva. Estou com raiva de mim mesma e das pessoas. Estou entediada. Estou ansiosa. Eu sinto demais e faço de menos. Nada faz sentido. Só queria deixar de existir e receber tantos estímulos por alguns minutos." Por trás do mundo abstrato, um ser humano com expressão cansada e neutra fazia todos esses signos aparecerem. Ele não se importava com a Criadora de verdade. "Não possuo coerência o suficiente para falar sobre tudo o que gostaria. As palavras me cansam. A linguagem poderia deixar de existir que eu não me importaria. Preciso de coisas tangíveis, vivas, sólidas debaixo da minha palma, pois meu cérebro não consegue se conectar com tudo isso. Eu não consigo me conectar o suficiente para sentir alguma coisa hoje."
Mas você vem aqui para se utilizar de todos esses recursos. Não soa um pouco contraditório? Especialmente com todos os pensamentos que foram apresentados no início.
"Eu não me importo. Eu não me importo. Apenas me deixe ser irracional e contraditória. Estou cansada. Não aguento mais começar frases com 'Eu' ou 'Estou'. Irei embora."
Vá. Você sabe que voltará de alguma forma em outro momento. Chore, se precisar. Às vezes, reações físicas são melhores que palavras para expressar o que se sente.
É apenas um dia ruim. Não deixe a sua mente te convencer de que tudo é extremamente ruim e sem solução. E não se automultile. Tens consciência de que cortes e cicatrizes efêmeras não irão resolver seus problemas.
Vá, menina. Vá viver e respirar um pouco de ar puro para se reconectar com o seu corpo e a sua realidade.
(14/15 nov 2023)
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A vez da #criadora fazer o #antesdepois da #criatura #makeup #treinar #fuimodelo #aulademaquiagem #aulapratica Ps : A pele foi feita pela @make_drovetto mas o #batom e a #mascaradecilios https://www.instagram.com/p/B20JFZ7piVX/?igshid=3w0996s8kvt8
"Corpo que segue o fluxo, sem autonomia, porém, em constante luta por encontrar-se, identificar-se e desconstruir-se, em transformação e processo de resignificação. Corpo absurdo, corpo em trânsito, corpo em crise." Segunda parte da pesquisa e processo de construção "Corpo Absurdo" #bailarina #pesquisa #interprete #criadora #dança #dance #dancer #contemporaryart #video #videodança (em Curitiba, Brazil) https://www.instagram.com/p/BxNN02WBsM_/?utm_source=ig_tumblr_share&igshid=8i3d7iv31x7l