08 I don't trust her
Acordei com o som do despertador tocando alto no criado-mudo ao lado de minha cama, e o desliguei o mais rápido possível para que America não acordasse.
- Odeio quando essa música toca – ela sussurrou com a voz falha pela falta de uso, e então olhei pra trás vendo Meri se espreguiçar e abrir um sorriso ao olhar em meus olhos. Aquele sorriso seria capaz de pôr fim a guerras e curar o câncer.
- É horrível acordar cedo, eu sei – coloquei uma mexa de seu cabelo atrás da sua orelha.
- Não é esse o motivo – ela suspirou.
- E qual mais seria?
- Quando ela toca é sinal que você logo vai sair – e não pude evitar sorrir.
- Mas sempre volto.
**
Eu já estava com acesso a alguns arquivos do Projeto Chronos para que pudesse me atualizar sobre tudo que o envolvia e ajudar nas pesquisas de desenvolvimento.
O Chronos era basicamente divido em três etapas - escaneamento do colaborador/desenvolvimento do DNA e celular/implantação de memórias - e tenho que admitir que me impressionei com a fase do desenvolvimento ósseo e muscular, porque a "pele" das pessoas era completamente transparente e eu conseguia ver todos os músculos e veias se formando em um corpo humano. Era algo incrível, mas para fins tão cruéis. Esses seres em desenvolvimento ficavam eu bolhas gigantes envolvidos por algum tipo de substância gelatinosa enquanto seus órgãos eram desenvolvidos. O processo todo durava cerca de dois meses. Perguntei pro meu pai se não acontecia de alguns órgãos atrofiarem por causa do tempo que os clones ficavam “hibernando” e ele disse que já havia desenvolvido um sistema para que isso não acontecesse, mas que me contaria mais sobre isso apenas quando eu estivesse 100% no Projeto.
Durante a tarde fiquei estudando tudo o que pude sobre o Projeto e busquei também pela ficha de Meri. Sua ficha era enorme devido aos inúmeros testes que foram realizados com ela, e um deles me chamou muito a atenção.
“Teste 189 – Janeiro de 2016
X2 apresenta alto nível de capacidade de armazenamento cerebral e memórias não implantadas, o que gera conhecimento impróprio para seu estado como Projeto. Sua capacidade de luta é muito forte e instintos de sobrevivência também. Sugerido reiniciar ou descartar Chronos America x2.
Jeremy Bieber – 10:00 pm”
O teste fora realizado, talvez, dias antes de America fugir e ele apontava que ela tinha memórias não implantadas, ou seja, ela não é apenas um ser criado em laboratório a partir do nada. Ela tem um patrocinador e ela tem memórias do mesmo. O resto da tarde minha mente ficou ocupada com possibilidades de encontrar a patrocinadora da America e de alguma forma sabotar o Projeto. Só parei de pensar nessas coisas quando um dos cientistas envolvidos me chamou.
- Queremos que você vá até a fase quatro e faça relatórios do desenvolvimento, ok? – assenti e então fui em direção ao setor cinco. Assim que entrei segui por um longo corredor de paredes brancas e entrei em uma porta e tive que pegar um elevador. Dois andares abaixo parei em um corredor pouco iluminado e depois de mais uns minutos caminhando entrei na área da fase quatro. De cima, parado em uma plataforma pude ver inúmeras capsulas em forma de bolha abrigando os corpos em desenvolvimento, e mais uma vez fiquei impressionado com o corpo humano.
Peguei um outro elevador – não sei porque tantos elevadores - e desci até o local em que as capsulas estavam e então comecei a fazer anotações sobre cada um dos corpos, e então me assustei ao ver escrito em uma das capsulas o nome do presidente dos EUA. O ponto em que o egoísmo do ser humano pode levar. Tudo bem que todo esse Projeto tem seu lado, mas ele não é usado. Se toda a tecnologia nele investida fosse utilizada para coisas maiores, como sei lá, desenvolver uma super cura para o câncer, e não só trata-lo como é feito até hoje, mas ao invés disso os seres humanos só pensam em viver para sempre. Óbvio que eu gostaria de viver por muito tempo, mas não seria capaz de matar outra pessoa para ela me dar seu rim, seu fígado, seus olhos, seu coração.
Passei quase toda a tarde fazendo anotações sobre a fase quatro e então quando terminei voltei para minha nova sala. Ela era alta e bem ampla, com as paredes brancas, os móveis em prata e com detalhes azuis. Tudo que envolvia o Chronos tinha azul, nem que fosse um pontinho na parede. Novamente busquei informações sobre America e quando estava quase na minha hora de ir pra casa encontrei o que procurava.
America’s point of view
Não gostava nada quando Justin tinha que ir trabalhar. Primeiro porque isso significava que teria que ficar o dia todo longe dele, e segundo porque ele estava cada vez mais envolvido no Chronos e isso, mesmo que sem querer, me causava certa repulsa, mesmo sabendo que ele estava nisso por mim.
Umas duas horas depois que Justin saiu escutei o barulho da porta do apartamento abrindo e fui correndo na esperança de ver Justin sorrindo para mim, mas encontrei aquele seu amigo. Como era mesmo o nome dele? Justin tinha me falado...
- Oi, ruiva! - ele fechou a porta e colocou algumas coisas na bancada da cozinha – Tudo tranquilo?
- Aham. Você vai ficar aqui a tarde inteira? – ele assentiu, tão animado quanto eu.
Passamos quase a manhã inteira nos comunicando através de conversas monossilábicas. No almoço ele fez uma pizza, só que ela não era tão gostosa quanto a que comi com Justin porque era congelada. Durante a tarde jogamos Jogo da Vida e depois ficamos assistindo a programas aleatórios. Ryan me contou um pouco sobre Justin. Sobre a morte de sua mãe e como ele lidou com tudo isso. Me contou também o porque de Justin odiar seu pai, e me contou também das ex-namoradas de Justin, o que fez com que eu sentisse algo estranho.
- Então, você e o Justin – ele começou.
- O que? – falei enquanto zapeava alguns canais na grande televisão.
- Você gosta dele? – o encarei e ele estava com uma expressão misteriosa. Não conseguia decifrar o que ele queria exatamente.
- Claro que sim. – sorri e passei a mão em meus cabelos – Ele tem feito tanto por mim.
- Não é nesse sentido que eu estou falando, America. – ele me cutucou, agora risonho – Se você gosta dele tipo, dar uns beijos, uns amassos, essas coisas.
- Você quer saber se eu gosto dele como aquele casal do filme?
- Não sei de que filme você está falando, mas sim. Dessa forma.
- Não sei, Ryan. Não fui feita para sentir.
- Mas você não faz nada do que foi feita para fazer. Se fizesse, não teria fugido do laboratório.
Ele tinha razão. Eu sou completamente errada se for olhar pelo ponto de vista científico e sim, eu sinto algo por Justin. Algo que não sei explicar. Não sei explicar muitas coisas, mas o mais confuso pra mim são os sentimentos. Eles são tão fortes, confusos e muitas vezes dolorosos, mas ao mesmo tempo tão bons. Bons como Justin. O sorriso dele fazia com que meu estômago se revirasse. Seu abraço me fazia sentir como se nada mais importasse, porque ele estava me segurando, me protegendo. Seu cheiro me dava a sensação de “lar”. Justin era meu lar.
- E então, você gosta dele? – Ryan insistiu.
- Eu não sou capaz de amar, Ryan. – e então a porta se abriu, revelando um Justin com a expressão um pouco abatida. Ele lançou um sorriso fraco em minha direção e então foi para o seu quarto. No mesmo instante levantei e fui atrás dele, o encontrando sem camisa.
- Está tudo bem? – perguntei já me aproximando dele. Eu queria sentir sua pele.
- Sim – ele respondeu com a voz um pouco fraca.
- Não minta pra mim – coloquei minha mão em seu braço e senti sua pele. Ele se arrepiou com meu toque.
- Eu descobri uma coisa hoje. – ele se sentou na cama e me sentei ao seu lado.
- E o que foi?
- Julie Baker – ele olhou no fundo dos meus olhos.
- E quem é ela?
- A primeira pessoa a ter uma apólice de seguro Chronos.
**
O amigo de Justin logo havia deixado o apartamento e então Justin e eu ficamos conversando sobre minha “dona”. Eu ainda não conseguia compreender que eu poderia encontrar a mulher que me deu origem. Eu precisava vê-la e quem sabe a mostrar a verdade sobre o Chronos. Talvez ela não soubesse que nós éramos cobaias vivas e não vegetais em cubos apenas esperando a hora de nossos órgãos serem retirados de nosso corpo.
Justin havia encontrado seu endereço e então consegui o convencer em me levar até ela. Ele ainda não gostava muito da ideia, alegando ser muito perigoso e que a Clark havia colocado uma equipe de busca após minha fuga.
Narrador point of view
Justin e America estavam parados em frente a uma típica casa americana, toda branca e com um enorme gramado. Apertaram a campainha e aguardaram.
America estava ansiosa, nervosa e esperançosa. Ela acreditava que Julie Baker seria capaz de ajudar a parar o Chronos, enquanto Justin estava com um sentimento de desconfiança e medo. Ele sentia que aquilo só iria prejudica-los, mas como negar o pedido da garota que ele daria a vida para proteger, quando ela estava com os olhos verdes brilhando de esperança. Ele estava triste por ter escutado a conversa da jovem com seu amigo. De saber que ela não seria capaz de retribuir o sentimento que ele nutria por ela, por mais insano que fosse. Ele e não estava triste com ela, mas sim por ele. Por saber que ele faria de tudo para ver seu sorriso e o brilho em seus olhos, mesmo que ela não o amasse. Ele se sentia idiota.
A porta se abriu revelando uma America loira e sorridente, mas logo sua expressão ficou confusa. Julie logo compreendeu o que estava acontecendo, mas se fez de ignorante.
- O que? – sua voz saiu confusa e America sabia que ela se sentiria assim. Justin deu uma breve explicação sobre a situação e então Julie pediu para que os dois entrassem e terminassem de contar a história. America estava cada vez mais confiante.
Depois de contarem a história Julie se mostrou apavorada e disse que faria de tudo para ajuda-los.
- Eu te falei que ela iria nos ajudar – America sussurrou para Justin enquanto Julie estava no banheiro.
- Ainda não confio nela – Justin sussurrou. E ele estava certo. No andar de cima Julie ligava para a Indústria Clark, furiosa.
- Olá. Julie Baker falando – o homem do outro lado da linha a cumprimentou cordialmente e perguntou no que poderia ser útil, e Julie riu de forma sarcástica. – Você poderia ser útil em tirar a minha apólice de seguro teste e seu namorado do meu sofá.












