1. interrupção definitiva da vida de um organismo.
​Desde que nos entendemos por gente, a única certeza que encontramos é a da morte. Vemos isso em livros, em filmes, em músicas, nas notÃcias, em um dia qualquer de uma quinta-feira à s quatro da tarde.
Temos medo de que tudo o que construÃmos voe pelos ares, que todo nosso esforço tenha sido em vão. Temos medo de morrer. Mas, também não temos medo de viver?
​Diversas vezes já ouvimos aquele famoso ditado: "para morrer, basta estar vivo", não?
Para morrer, basta um passo mal dado, um escorregão, estar no lugar errado, na hora errada, mas no momento certo para partir.
​A morte é bem explorada pelas artes, de diversas formas: o luto, o anseio pela morte, o temor dela, todas as suas metáforas, todas as hipóteses, as memórias dos seus últimos cinco minutos de consciência antes de ir.
​O temor à morte vem dos primórdios, do instinto de sobrevivência, da vontade de querer estar vivo e do medo de deixar todos para trás.
Mas e quando esse medo passa a ser uma compaixão?
​Na literatura, e na arte em geral, a maior representação para esse sentimento seria o "Carpe Diem" ou o "Memento Mori", lembra-te que vais morrer. O saber que vamos morrer e se confortar com essa ideia em vez de confrontá-la.
​A morte é um mau presságio, um sinal de luto, dor e sofrimento. O dia cinza e escuro, o sol que não nasceu.
Na arte e na vida, os corvos eram associados a esse mau presságio, à morte e ao luto, vagando pela noite e esgueirando-se nas sombras, procurando alguma carniça.
Mas apesar de tudo, eles representam a vida, não? Eles vivem, se alimentam, vivem em pequenos bandos e então morrem. Esse é o ciclo da nossa vida também, e, então, por que temer algo tão natural?
​Na natureza há o grande ciclo natural da vida, as presas e os predadores, aqueles que se adaptam e aqueles que morrem e, de repente, o tempo pode ser contado.
Tic-tac, tic-tac, cinco horas da manhã, tic-tac, tic-tac, meio-dia, tic-tac, tic-tac, cinco da tarde, tic-tac, tic-tac, dez horas da noite, tic-tac, tic-tac, cinco horas da manhã, tic-tac, tic-tac, tic-tac,
O nosso tempo passou a correr, passamos a ficar atrasados, começamos a perder tempo e perder tempo significa perder a vida e perder a vida significa... morrer.
Mas também não sei se quero mais viver assim...
​Encaramos a morte constantemente, em livros, em filmes, em músicas, nas notÃcias. Mas esquecemos que ela também existe para a gente, que nós também estamos sujeitos a morrer e morrer... eu não quero morrer; mas também não quero viver assim.
​Nos refugiamos na próxima vida, no cotidiano, na correria. Mas isso também nos sufoca, pensamos: "isso que é viver?" E então a morte aparece, rÃspida e dura na sua frente, tão tentadora, mas tão assustadora. E passamos a não querer morrer, porque sequer estamos vivendo.
​Entender a morte e se confortar com ela parece assustador, você parece um lunático como se estivesse ansioso por ela, mas não.
"Para morrer, basta estar vivo, mas para me sentir vivo, eu preciso viver."
A partir do momento em que paramos de olhar para os corvos com medo ou para as caveiras de Memento Mori com aversão, passamos a admirá-las.
Para morrer, basta estar vivo viver.
Viver é uma dádiva e morrer, também.
​Corvos não têm medo de morrer, eles viveram a vida deles, seguiram seu ciclo, mesmo que repetitivo. Eles viveram.
E nós, estamos vivendo a nossa vida ou apenas vivendo com medo de morrer?