16_TESTES E CORREÇÕES
Após a intensa e reveladora etapa de prototipagem, senti que o projeto “Píxeis e Palcos” alcançara um grau de maturidade que me permitiu sair do espaço íntimo e protegido da criação inicial e abrir, de forma controlada, o processo ao olhar externo. Este momento marca uma transição crucial no meu percurso como a/r/cógrafa: o momento em que se emerge do espaço criativo interno para escutar, observar e integrar as reações do outro, ainda que num círculo restrito e cuidadosamente escolhido. Assim, iniciou-se a fase de Teste e Correções, essencial para validar, ajustar e refinar o artefacto a partir de feedback recolhido junto de um público externo, mas familiar: amigos, colegas de confiança do meio académico e profissional, bem como alguns familiares com sensibilidade estética, até ao meu filho de 7 anos.
Ao contrário da fase anterior — em que o foco recaía sobretudo na experimentação livre, na exploração de possibilidades estéticas e na construção do universo visual-sonoro do projeto — esta nova etapa exige uma escuta mais crítica, uma atenção redobrada aos efeitos da obra nos outros, e uma abertura à possibilidade de rever decisões criativas com base nas perceções externas. O artefacto, agora mais consolidado, está pronto para ser testado enquanto experiência estética partilhada.
A primeira iniciativa consistiu em partilhar versões curtas da animação com um grupo restrito de pessoas, (marido e filho) em sessões presenciais informais, mas cuidadosamente organizadas. Estas sessões ocorreram em ambiente controlado, com condições técnicas adequadas (espaço escurecido, sistema de som imersivo, e projeção no computador portátil), procurando simular, na medida do possível, o tipo de imersão que a instalação final viria a oferecer. Durante estas visualizações, registei observações espontâneas, expressões faciais, tempos de atenção e reações emocionais visíveis. Para complementar esta observação direta, foram também interiorizados comentários orais no final da exibição e realizadas algumas questões, com o objetivo de compreender mais profundamente as leituras simbólicas, a clareza da proposta estética e o grau de envolvimento sensorial alcançado. Abordei questões como: “O que sentiste ao ver esta animação?”, “Houve momentos em que te sentiste mais ligado ao conteúdo?”, “Que imagens ou músicas mais te surpreenderam?”, ou ainda “O que achas que está a ser transmitido nesta obra?”.
Os dados recolhidos nesta fase revelaram-se particularmente valiosos. Por exemplo, um número significativo de participantes referiu que certas transições visuais — especialmente aquelas geradas com maior densidade simbólica (fauna, elementos vegetais, padrões geométricos) — provocavam momentos de fascínio, mas que outras, mais abstratas, pareciam por vezes perder o ritmo em relação ao som. Este tipo de feedback foi fundamental para proceder a ajustes no sincronismo audiovisual, de forma a reforçar a coesão narrativa e sensorial.
Através destes testes foi possível perceber quais os momentos da obra que mais captavam a atenção do público e quais geravam mais identificação simbólica. Curiosamente, as imagens que evocavam padrões mediterrânicos ou elementos da cultura visual do sul da Europa obtiveram maior resposta positiva, o que reforçou a pertinência do alinhamento estético da obra com o seu objeto celebrativo — o Festival MED.
Paralelamente às exibições, procedeu-se à integração final das tecnologias que compõem o artefacto: a combinação entre ferramentas de inteligência artificial generativa (NeuralFrames) e o software de edição de vídeo e áudio (Adobe Première e Adobe Audition). Esta integração exigiu não apenas competências técnicas específicas (edição, renderização de vídeo em alta resolução), mas também uma capacidade de articulação entre diferentes áreas de conhecimento.
A partir de todo o feedback recolhido foi ativado um novo ciclo de reverberação, em que as impressões externas foram reintroduzidas no processo criativo, permitindo o ajuste de elementos visuais, sonoros e estruturais da obra. Como preconiza o método a/r/cográfico, este ciclo implicou um exercício de escuta crítica, mas também de filtragem seletiva: nem todos os comentários foram integrados, mas todos foram considerados. Foram identificadas três categorias de resposta, em consonância com o modelo metodológico previamente aplicado: os elementos a incorporar, como a ampliação de determinadas transições visuais mais envolventes; os elementos a guardar para futuras obras, como a possibilidade de tornar a instalação mais interativa, e os elementos a descartar, como sugestões que comprometiam o carácter poético e simbólico da obra.
Esta fase de teste e correções não só fortaleceu a confiança na obra, como também aprofundou a minha própria posição enquanto a/r/cógrafa. A escuta ativa do outro — sem perder a integridade do conceito original — permitiu-me consolidar uma postura ética, estética e técnica mais consciente. A obra, agora mais coesa e sensível ao olhar exterior, está preparada para a etapa seguinte: a Intervenção, em que será finalmente partilhada com o público num espaço expositivo real, num ambiente de fruição plena.
















