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Do pertencimento ao espetáculo: como o futebol mudou de dono
A bola já está rolando na 23ª Copa do Mundo da FIFA. Durante as próximas semanas, bilhões de pessoas acompanharão jogos disputados em três países diferentes. Marcas globais investirão fortunas para associar seus produtos ao torneio. Redes de televisão, plataformas digitais e patrocinadores disputarão cada segundo da atenção de uma audiência espalhada pelos cinco continentes. Mais uma vez, o…
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Violência na Copa 2026 ⚽️
Por Fátima Conti, em diálogo com Deep 🐋
. 🐧 A Copa de 2026, a copa do Medo, da Vergonha, da Exclusão começou, e a imprensa tem usado termos como "racismo, xenofobia e elitismo" para descrever o início do evento, pois constatou-se:
Hostilidade com delegações: A delegação de Senegal foi inspecionada "dos pés às cabeças" assim que desembarcou. A do Uzbequistão foi revistada por cães farejadores. A seleção do Irã teve vistos negados para 15 membros, e o árbitro somali contratado pela Copa, Omar Artan, foi impedido de entrar no país.
Sombra do ICE: A atuação dos agentes de imigração (ICE) e a política de imigração de Trump seguem afastando torcedores. Um relatório de ONG aponta que 17 pessoas ligadas ao futebol nos EUA foram detidas desde o início das ações, e uma pesquisa mostrou que 65% dos estadunidenses são contra a presença desses agentes nos estádios. Um comunicado de mais de 120 entidades alertou os visitantes sobre riscos de prisão e deportação.
💰 Preços abusivos e as consequências
A ganância continua assustando o torcedor. As reservas de voos da Europa para a Copa caíram 3,8%, e a Associação de Hotéis de Nova York reduziu sua previsão de receita em 60%. A situação é tão grave que alguns hotéis, como o New York Hilton Midtown, já reduziram suas diárias pela metade, para US$ 415 por noite, para tentar atrair hóspedes. A presidente da associação de hotéis de Nova York chamou o movimento geral de "uma decepção" — sem outra palavra para definir.
🇲🇽 A abertura no México
A abertura da Copa no Estádio Azteca, no México, foi marcada por um clima tenso e violento, com pelo menos três focos de violência:
protestos políticos contra o governo,
confrontos entre policiais e manifestantes,
brigas entre os próprios torcedores.
🚨 O contexto da confusão
Os protestos que dominaram as ruas do México na abertura da Copa eram muito maiores do que a própria festa do futebol, motivados por:
Reforma Previdenciária: A principal insatisfação foi com a reforma da previdência, que levou professores a uma greve nacional já com vários dias, mantendo milhões de crianças fora das escolas.
Guerra às Drogas: Famílias de pessoas desaparecidas no violento conflito com o narcotráfico também foram às ruas para pedir justiça e usar a visibilidade mundial da Copa para serem ouvidas.
⚔️ Os Confrontos com a Polícia
O ponto mais grave foi o confronto direto entre a polícia e os manifestantes.
A secretaria de segurança da Cidade do México informou que um grupo de cerca de 200 manifestantes encapuzados quebrou barreiras de segurança e entrou em confronto com a polícia. Os policiais chegaram a ser atingidos por coquetéis molotov e pedras.
💥 Violência nas ruas: As imagens de policiais saindo feridos, como um que foi visto com a cabeça sangrando, rodaram o mundo. A confusão foi tanta que estações de metrô próximas ao estádio precisaram ser fechadas.
👥 A briga entre os torcedores: Para completar o cenário caótico, também houve briga entre os próprios torcedores. Um repórter da Fox Sports México foi surpreendido ao vivo por uma troca de socos entre dois torcedores. A explicação para a confusão foi o abuso nos preços do transporte. Um motorista local estava cobrando 400 pesos mexicanos (cerca de R$ 120) por uma viagem de apenas 3,5 km saindo do estádio. O valor, claramente abusivo, gerou uma revolta imediata entre os torcedores que tentavam deixar o estádio, resultando na briga que parou a transmissão ao vivo.
👮 Polícia mexicana vs. ICE
A polícia mexicana agiu com violência, usando gás lacrimogêneo, cavalos e repressão, lembrando o ICE. Mas a violência é de uma polícia interna contra seus próprios cidadãos, enquanto o ICE é uma força de fronteira que atua sobretudo contra estrangeiros.
Ou seja, a força de Segurança Urbana age como a guarda local. Seu foco são os protestos, como o que aconteceu no estádio, com os professores e famílias das vítimas de desaparecimento. Eles foram ao confronto para conter manifestações dentro do país. O uso de gás lacrimogêneo, barreiras e cavalos foi para reprimir e dispersar uma multidão. A violência foi a ferramenta, mas o fim era controlar o espaço e desmobilizar os movimentos. A ideia é conter ali mesmo, no confronto.
Já, a atuação do ICE nos EUA tem como foco a imigração. A prioridade é impedir a entrada de pessoas “não autorizadas”, deportar imigrantes e combater o crime ligado às fronteiras. A atuação deles é remover pessoas do território. A violência é a ferramenta usada para expulsar e deportar imigrantes para seus países de origem.
Portanto, há dois objetivos diferentes nos dois países: Contenção vs. Deportação.
💥 Violência e direitos humanos
É importante não minimizar a gravidade do que aconteceu no México. A brutalidade policial é um problema crônico e documentado no país, com forte componente de extermínio de lideranças e de movimentos sociais. A repressão durante a Copa foi violenta e gerou críticas de organizações como a Anistia Internacional. Observa-se que a brutalidade e o autoritarismo são igualmente condenáveis, seja para conter, seja para deportar.
Entretanto, há outra diferença. No México, os preços de ingressos, hotelaria, restaurantes e transporte são bem mais baratos que nos EUA. Então, a maioria dos manifestantes é de classe média (embora uma classe média com renda muito inferior à estadunidense).
O custo de vida e os preços para o torcedor no México são, de fato, consideravelmente mais baixos do que nos EUA. A diferença é grande o suficiente para criar uma realidade econômica completamente diferente entre esses dois países-sede.
💸 Disparidade de custos: México vs. EUA
O custo de vida médio no México é cerca de 46% menor do que nos EUA, com os aluguéis chegando a ser 70% mais baratos. Essa lógica se reflete nos preços da Copa:
Ingressos:
. Preços oficiais (já caros) Na Cidade do México, em 2025, um tíquete poderia custar R$ 1.971, enquanto nos EUA, o mesmo ingresso poderia chegar a R$ 2.984. Na partida final, a diferença seria ainda mais gritante: a entrada mais cara nos EUA chegaria a US$ 7.000.
. Preço dinâmico + revenda (o absurdo completo) Esses valores oficiais, por si só, já seriam excludentes. Mas a FIFA conseguiu piorar a situação ao adotar o chamado "preço dinâmico" — um algoritmo que aumenta o valor dos ingressos em tempo real conforme a demanda. O resultado foi uma disparada absurda. Um ingresso para a final que custava US$ 6.370 na tabela inicial passou a ser vendido por mais de US 10.990 ainda no site oficial. E quando os ingressos oficiais se esgotaram (o que aconteceu em minutos), o mercado paralelo tomou conta. Na revenda, os mesmos ingressos para a decisão aparecem por valores entre US$ 8.500 e US$ 125.000. Houve até anúncios pedindo US$ 2,3 milhões por um único lugar na arquibancada. Não se trata mais de futebol. É leilão. O torcedor comum — mesmo o de classe média alta — foi expulso do estádio antes mesmo de o apito inicial soar.
Alimentação: Um almoço em um restaurante casual nos EUA fica entre US$ 10 e US$ 20, e um jantar mais elegante pode superar os US$ 50. No México, os custos são proporcionalmente mais baixos, mas os escândalos não faltam: 3 tacos foram vendidos por US$ 20 perto do Estádio Azteca.
Transporte: A briga entre torcedores começou por causa de uma cobrança abusiva de 400 pesos mexicanos (R$ 120) por uma corrida de apenas 3,5 km. Nos EUA a situação é ainda mais absurda: a tarifa de trem de ida e volta para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, saltou de US 13 para US$ 150 por vaga.
Hospedagem: A disparidade é brutal. Enquanto em Guadalajara (México) uma diária no Airbnb custa em média US$ 89, em Kansas City (EUA) o mesmo tipo de hospedagem ultrapassa os US$ 539. O resultado foi uma debandada de turistas. Em Nova York, a previsão da receita hoteleira para a Copa caiu 60%, e o Hilton Midtown, maior hotel da cidade, reduziu suas diárias pela metade para tentar atrair hóspedes.
Assim, o sistema todo não é só caro. Tem o objetivo de excluir. 👩🏫 Perfil dos manifestantes
A principal força por trás dos protestos que tomaram conta da Cidade do México é a CNTE (Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação), o sindicato de professores. A reivindicação central é um aumento salarial de 100%, considerado inviável pelo governo.
O governo mexicano ofereceu um reajuste de 10% para setembro de 2026, mas o sindicato rejeitou, justamente porque o aumento real, após descontar a inflação dos últimos meses (que encareceu tudo, incluindo alimentação), é ainda menor.
Portanto, a luta dos professores no México não é sobre um padrão de vida luxuoso, mas sobre a capacidade de não perder poder de compra e garantir aposentadorias dignas.
💎 Conclusão
Os preços mais baixos viabilizam outros tipos de conflito. A diferença entre os dois países não está só no preço do ingresso; ela dita também o motivo da briga nas ruas.
Enquanto nos EUA a violência e as prisões estão ligadas ao medo, à xenofobia e ao lucro abusivo, no México os confrontos são uma expressão da luta de uma categoria de trabalhadores que luta pela sua sobrevivência financeira. É o mesmo jogo, mas em dois mundos completamente diferentes: línguas, culturas, mas, especialmente, a renda média das pessoas.
Destaca-se que a disparidade econômica é o fator mais determinante entre as experiências de México e EUA no torneio. A renda média molda a violência (contenção vs. deportação), os alvos (cidadãos vs. imigrantes) e até a natureza dos protestos (sobrevivência vs. medo).
🇲🇽 México: renda média baixa, violência interna
Renda média: cerca de 10 a 15 mil pesos por mês (menos de mil dólares).
O torcedor que vai ao estádio é, muitas vezes, alguém que sacrificou o mês para estar ali.
A briga com a polícia não é por terror ou xenofobia — é por preço abusivo de transporte, por reivindicação salarial, por sobrevivência.
A violência é interna: o Estado contra seus próprios cidadãos que pedem aumento, aposentadoria, dignidade.
A Copa é um palco para essas vozes, não a causa do medo.
🇺🇸 EUA: renda média alta, violência de exclusão
Renda média: cerca de 5 a 6 mil dólares por mês (vinte vezes maior que a média mexicana).
O torcedor que sobra (porque muitos não foram) é de classe média alta, mas mesmo ele está achando caro.
A violência não é contra o cidadão dos EUA. É contra o estrangeiro, o diferente, o "não branco", o "suspeito".
Assim, a Copa é um gatilho para uma política de deportação e racismo que já existia. O medo é o motor, e o lucro é o destino.
🔍 O que a renda média revela
Renda baixa + custo relativamente acessível = torcedor local presente, mas vulnerável à exploração. A violência é sobre contenção de quem já está dentro.
Renda alta + custo proibitivo = torcedor local ausente ou de elite; torcedor estrangeiro é visto como ameaça. A violência é sobre exclusão de quem quer entrar.
E no meio disso tudo, a FIFA lucra, especialmente com os direitos de transmissão do evento.
As companhias aéreas, os hotéis e restaurantes nos EUA amargam prejuízo. Os professores no México vão presos.
E o futebol, que deveria unir, vira espelho das feridas de cada país.🐧
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Publicação: 14/06/2026 - Última atualização: 16/06/2026 -

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