Pior que às vezes eu até sinto vontade de ter filhe, mas não é um desejo motivado pelos motivos convencionais, digamos. Eu não sinto muita afinidade e carinho por bebê e criança não, e pensar em passar pela experiência da gravidez e principalmente do parto me causa angústia. Minha vontade de ter filhe é na verdade um desejo de:
Criar uma pessoa da forma que eu gostaria de ter sido criade, passando os valores que acredito serem os corretos, incentivando o amor próprio e respeito ao próximo, uma criação desconstruída livre de preconceitos e normas de gênero e sexualidade, não controlar e não privar de aprender com a vida (não tratar como minha propriedade, e sim como uma pessoa separada de mim com sua própria cabeça e pensamentos (dar liberdade de escolha conscientizando sobre as consequências de seus atos e respeitando suas decisões));
Acho que muitas pessoas acabam se tornando pais controladores e narcisistas porque uma das coisas que os motiva a serem pais é o seu egoísmo, o desejo de ser superior a alguém, de controlar e mandar em alguém, de moldar esse alguém para ser o filho que desejam, esquecendo que trata-se de um ser humano, e não de um objeto. Trata-se de um indivíduo, e não de uma propriedade. Trata-se de uma pessoa com sentimentos próprios, desejos próprios, ideais próprios, pensamentos próprios, com sua própria cabeça, com o direito de escolher, de decidir por si mesma o que acredita ser melhor para si. Trata-se de uma vida independente da desse pai ou mãe, e acabam esquecendo, ou melhor, apenas ignorando isso por possuírem uma visão deturpada do papel de pai, levando-os a confundirem o papel de “criar, educar e orientar” com “controlar, moldar e impor”, e também pelo possível desejo (originado do egoísmo) de se sentirem superiores e donos dessa vida, utilizando como argumento a relação hierárquica entre pais e filhos, a famosa “autoridade” que pais (supostamente) possuem com sues filhes, alegando que estes os devem “respeito” (entre aspas, pois o entendimento desses pais sobre o significado de respeito é distorcido em suas mentes) e obediência sem qualquer questionamento, sendo esta última uma atitude considerada por esses pais como “falta de respeito”, e portanto, sues filhes não podem clamar por seu direito de tomar suas próprias decisões, não podem responder e contrariar seus pais, não podem pensar e decidir por si mesmos, o que deveria ser um direito de toda pessoa. Acreditam que sues filhes só podem fazer aquilo que é decidido por eles, aquilo que são mandados e obrigados a fazer, pois esses pais são tão egoístas e narcisistas, que pensam que o que eles querem que sues filhes façam e sejam é a única maneira correta de agir e ser, e como já dito, pensam que possuem poder de controlar e moldar sues filhes como bem quiserem, e poder de privá-los do direito de escolha, e assim, obrigá-los a seguir a “única maneira correta” a todo custo, privando-os de aprender com a própria experiência, com a própria vida sobre as consequências de suas escolhas. Assim, os pais acabam passando por cima da individualidade de sues filhes, e pensam que possuem todo o direito de desrespeitá-los, já que têm para si o significado de respeito de forma distorcida. É lamentável que tantos jovens tenham que ser submetidos a essa paternidade e maternidade controladora e narcisista, e não possam realmente fazer algo a respeito disso até atingirem a maioridade. E ainda, há muitos que mesmo chegando aos 18 anos, continuam sob esse controle.
Eu nunca desejei e nunca desejarei ser superior a alguém, controlar e mandar em alguém, até porque sou uma pessoa muito passiva, então nem tenho grandes capacidades de mandar em alguém. Se eu tiver filhe, jamais ê privarei de tomar suas próprias decisões e de aprender com a vida. Todo ser humano deve possuir liberdade de escolha, e sempre serei totalmente a favor do aprendizado pela experiência e pelos erros, pois além da questão da liberdade, acredito que sempre é melhor experimentar e não dar certo do que nunca experimentar, é melhor quebrar a cara e ter certeza de que não era para ser do que nunca fazer e ficar na eterna dúvida e arrependimento de não ter tentado. Não deve-se criar os filhos para si, pois os filhos não pertencem aos pais. Deve-se criá-los para o mundo.