O Vasco e a InĂȘs Falam de Coisas
InĂȘs Afonso Ă© uma podcaster com 23 anos que, com Fred Gomes tem um podcast chamado âO Fred e a InĂȘs Falam de Coisasâ, onde ambos se auto-intitularam de especialistas em coisa nenhuma. Neste podcast falam sobre de tudo um pouco, de masturbação, a saĂșde mental e atĂ© mesmo sobre as mĂșsicas da eurovisĂŁo. Sendo das novas caras dos novos media falĂĄmos do seu podcast e como o mesmo se encaixa neste AdmirĂĄvel Mundo Novo.
Vasco Alves: Como Ă© que surgiu a ideia ideia de criar o podcast?
InĂȘs Afonso: Na realidade a ideia surgiu um bocadinho por insistĂȘncia minha por que eu andava hĂĄ anos a dizer queria ter um podcast. A minha cena sempre foi virada para o ĂĄudio e para a rĂĄdio, e atĂ© cheguei a gravar um episĂłdio do meu podcast sozinha, que se ia chamar Siga pa Bingo. Cheguei a gravĂĄ-lo mas depois quando fui para casa ao editar senti que aquilo nĂŁo era bem o que eu queria, senti que era meio vazio.
O Fred, como qualquer pessoa que o siga sabe, Ă© uma pessoa muito inspiradora e Ă© aquela pessoa no grupo de amigos que estĂĄ sempre a motivar e a dizer: âPorque Ă© que nĂŁo fazes? Faz!â Eu acabei por gravar esse episĂłdio porque cedi Ă pressĂŁo dele mas cheguei Ă conclusĂŁo que nĂŁo fazia sentido para mim fazer o podcast sozinha.
O que eu queria nĂŁo era um pĂłdio, queria era falar sobre os temas importantes e os temas que me importavam, e falar sozinha nĂŁo me dava o suficiente.
O Fred que tambĂ©m Ă© um consumidor de podcasts disse: âNĂłs estamos sempre a ter estas conversas porque Ă© que nĂŁo fazemos um podcast disto?â E fizemos.
Foi um desencadeamento engraçado porque era suposto ser o meu podcast, mas como o que queria era o debate, a discussão, as opiniÔes, isso não fazia sentido sozinha. Por isso o Fred acabou por entrar na aventura comigo.
VA: O fred é de Coimbra e agora estå no Porto, mas tu és daqui de Oeiras, como é que se conheceram?
IA: Eu tenho uma irmĂŁ mais velha, a Joana, que tem um namorado chamado Leone e eles seguiam a banda do fred na Internet.
VA: O Fred tinha uma banda?
IA: O Fred tinha uma banda, os Oh Honey com a Daniela Maia e a Raquel Caldevilla.
Houve um fim de semana que a Joana e o Leone foram passear ao Porto e os Oh Honey estavam a dar um concerto, a Joana e o Leone foram ver o concerto e acabaram por beber canecos com eles atĂ© Ă s tantas. A Joana começou a ir visitĂĄ-los com mais frequĂȘncia, eu comecei a ir com ela e pronto, o resto Ă© histĂłria.
âO podcast era uma coisa que tinha validade e credibilidade sĂł por si prĂłprio, nĂŁo precisava de estar associado a uma rĂĄdio, nĂŁo precisava de estar associado a nada.â
VA: Quais é que foram as tuas inspiraçÔes?
IA: Na realidade os podcasts que eu comecei a ouvir quando comecei a querer fazer um podcast nĂŁo sĂŁo necessariamente sobre as mesmas temĂĄticas que nĂłs tratamos nâO Fred e a InĂȘs Falam de Coisas.
Eu sou obcecada pelo "And That's Why We Drink" que Ă© um podcast de histĂłrias do sobrenatural e true-crime, adooooro!
"Guys We F****dâ que apesar de ter bastante activismo social nunca pensei fazer algo parecido.
Eu acho que aquele que mais me inspirou a começar o âFred e a InĂȘsâ foi o "Millennial", que Ă© a histĂłria de uma miĂșda que queria trabalhar numa rĂĄdio mas nĂŁo conseguiu arranjar trabalho. EntĂŁo começou um podcast a gravar no armĂĄrio dela sĂł com um microfone, basicamente aquilo falava sobre a vida de um millennial, as dificuldades de ser um millennial: NĂŁo tens ninguĂ©m a ajudar a pagar a renda, ninguĂ©m te dĂĄ trabalho porque toda a gente te pede experiĂȘncia mas ninguĂ©m te dĂĄ experiĂȘncia, por isso nunca vais arranjar trabalho. Coisas com as quais eu me relacionava quando estava a meio da faculdade, e fez-me pensar âĂ© isto que eu quero fazer!â
VA: O âMillennialâ Ă© sĂł essa rapariga sozinha?
IA: Era, entretanto o âMillennialâ infelizmente acabou, mas eu gostei muito da forma como o âMillennialâ aconteceu, porque ela começou literalmente dentro do armĂĄrio a gravar, mas eventualmente começou a ter sucesso, a ter patrocinadores, a ter ads no podcast e eventualmente foi convidada para trabalhar numa rĂĄdio, que era inicialmente o sonho dela. Ora que ela chega Ă rĂĄdio e percebe que nĂŁo Ă© nada daquilo que ela quer, o que ela quer Ă© fazer o podcast e que as duas coisas nĂŁo sĂŁo equivalentes.
O que ela acabou por perceber foi que o podcast era uma coisa que tinha validade e credibilidade sĂł por si prĂłprio, nĂŁo precisava de estar associado a uma rĂĄdio, nĂŁo precisava de estar associado a nada. EntĂŁo mandou a rĂĄdio cagar e continuou a fazer o âMillennialâ, que entretanto terminou porque ela foi produzir outros podcasts. Agora jĂĄ Ă© uma produtora de podcasts a sĂ©rio que faz muita coisa, o âMillennialâ teve o seu tempo, e eu atĂ© fiquei triste quando acabou mas percebi que fazia sentido terminar na altura em que terminou.
VA: Tiraste um curso de jornalismo na âEscola Superior de Comunicação Social", estĂĄs a trabalhar na ĂĄrea?
IA: NĂŁo, nĂŁo na ĂĄrea de jornalismo. Eu estou a trabalhar numa agĂȘncia de locuçÔes, ou seja, Ă© comunicação na mesma. Na realidade quando as pessoas me perguntam isso eu questiono sempre se me estĂŁo perguntar se eu estou na ĂĄrea do meu curso ou se eu estou na minha ĂĄrea? Ă que eu estou na minha ĂĄrea, porque a minha ĂĄrea Ă© comunicação, mas quando as pessoas me fazem essa pergunta estĂŁo a perguntar se eu tou a fazer jornalismo e nesse caso, nĂŁo estou, porque eu na realidade nĂŁo quero ser jornalista, eu percebi muito rĂĄpido que nĂŁo queria jornalista.
âOs jornalistas do nosso paĂs nĂŁo tĂȘm a liberdade para realmente tratarem dos assuntos que acham importantes para eles e para a sociedade.â
VA: Portanto nĂŁo te consideras uma jornalista?
IA: NĂŁo, o meu problema Ă© que tenho demasiadas opiniĂ”es para ser jornalista. Eu tenho muita dificuldade em arredar pĂ© das minhas opiniĂ”es, e infelizmente, os jornalistas do nosso paĂs nĂŁo tĂȘm a liberdade para realmente tratarem dos assuntos que lhes sĂŁo queridos, que acham importantes para eles e para a sociedade. Por isso eu nunca poderia ser jornalista. Porque eu nunca na vida iria conseguir lidar com alguĂ©m que me diz que, por exemplo, as pessoas LGBT nĂŁo sĂŁo importantes, ou que a histĂłria de uma mulher que foi brutalmente assassinada por um homem nĂŁo Ă© importante, eu nĂŁo ia conseguir lidar com isso.
âNesse sentido eu sou entĂŁo uma jornalista, porque eu tenho sempre perguntas.â
VA: Mas nĂŁo achas importante no papel do jornalista haver neutralidade e distĂąncia dos assuntos?
IA: Sem dĂșvida alguma, sĂł nĂŁo Ă© Ă© para mim. AliĂĄs eu tenho muitos colegas que sĂŁo de facto jornalistas e eu admiro-os imenso.
VA: Sentes que valeu a pena tirar o curso? Que te estĂĄ a servir na ĂĄrea em que te encontras agora ou que te vai servir no futuro?
IA: No meu trabalho em si, nĂŁo, na minha ĂĄrea sem dĂșvida, e na forma como eu me desenvolvi enquanto profissional, sem dĂșvida alguma.
VA: E para o podcast?
IA: Para o podcast acho que foi muito importante porque de facto motiva-nos muito a ser curiosos. Acho que a primeira coisa que me disseram quando entrei no curso foi: âUm jornalista Ă© uma pessoa que tem perguntasâ, e nesse sentido eu sou entĂŁo uma jornalista, porque eu tenho sempre perguntas em relação a tudo, claro que ser jornalista nĂŁo Ă© sĂł isso, quem me dera que ser jornalista fosse sĂł ter perguntas. Mas de facto o curso motiva-nos muito a ser curiosos e para querermos saber, para dar mais um passinho do que as outras pessoas para descobrir a verdade.
Na realidade o que me ajudou muito para o podcast foram as minhas aulas de rĂĄdio, que na realidade Ă© o que eu levo mais do curso. Tive um professor fantĂĄstico, o Francisco Cena Santos, que Ă© maravilhoso, nem tenho palavras, Ă© uma liberdade que ele dĂĄ aos alunos que eu nĂŁo senti com mais nenhum professor durante a minha licenciatura. Ele ouve realmente os alunos. Tanto que com o decorrer dos anos locução e animação de rĂĄdio foi retirada do programa, porque a maioria dos alunos nĂŁo estavam interessados nessa ĂĄrea, mas a minha turma em especĂfico estava muito interessada nisso, entĂŁo ele simplesmente decidiu que ia mudar o programa, foi incrĂvel! Tivemos quase um semestre inteiro sĂł a trabalhar locução e animação. Fizemos uma emissĂŁo dos Ăscares com para aĂ 3 horas, foi muito maravilhoso. As aulas dele deram-me as ferramentas de comunicação que eu agora uso no podcast, por isso sem dĂșvida alguma que foi Ăștil.
âSĂŁo assuntos pesados e importantes para nĂłs e por isso acabam por nos desgastar emocionalmente.â
VA: O que Ă© que vocĂȘs, tu e o Fred, querem fazer com o podcast?
IA: NĂłs queremos ser, basicamente, a referĂȘncia no que toca a histĂłrias que mais ninguĂ©m quer contar, histĂłrias que precisam de ser ouvidas. Mas tambĂ©m queremos ser aqueles parvinhos que estĂŁo no consultĂłrio sentimental a fazer as pessoas rir durante uma hora e meia. Isso Ă© uma das coisas que eu mais gosto no nosso podcast, Ă© que Ă© tudo, Ă© tudo porque Ă© o que nĂłs quisermos, temos toda a liberdade. O que eu sinto que Ă© importante no nosso podcast obviamente que Ă© a parte activista, e sĂŁo as histĂłrias que nĂłs queremos contar que mais ninguĂ©m fala, isso Ă© o que vai ficar, mas para os nossos ouvintes acho igualmente importante terem semanas em que Ă© sĂł brincadeira.
VA: JĂĄ aconteceu alguma vez terem um tĂłpico Importante que querem abordar mas que jĂĄ hĂĄ 3 semanas que estĂŁo a fazer episĂłdios assim e decidem fazer uma coisa mais leve?
IA: Sim, isso jĂĄ aconteceu, mas nem Ă© sĂł por causa dos ouvintes, como o Fred mora no Porto, eu inicialmente ia lĂĄ gravar e nĂłs fazĂamos maratonas de 12 horas a gravar seguidas, o que Ă© uma coisa muito violenta, por isso mesmo nĂłs depois de 3 horas a falar de assuntos pesadĂssimos jĂĄ sentimos que temos que descomprimir, ir beber uns finos ou qualquer coisa assim, porque sĂŁo assuntos pesados e importantes para nĂłs e por isso acabam por nos desgastar emocionalmente. Portanto sem dĂșvida que nĂłs temos que fazer essa gestĂŁo de assuntos pesados/assuntos leves nĂŁo sĂł pelos nossos ouvintes mas por nĂłs prĂłprios tambĂ©m.
âSentimos uma responsabilidade para os nosso ouvintes, jĂĄ nĂŁo nos apetece tratar de um tema que nos seja querido mas que nĂłs achemos que nĂŁo lhe vamos dar o corpo, porque nĂłs nĂŁo somos aquele corpo.â
VA: Acontece nessas sessÔes de gravação de 12 horas emocionarem-se com um tópico e passar, por exemplo 3 horas a falar de uma só coisa, obrigando-vos a depois cortar outra coisa?
IA: NĂŁo. NĂłs nunca nos privamos de falar de algo que achamos importante. Se achamos que aquilo estĂĄ a acontecer e temos coisas a dizer sobre isso, nĂŁo vamos cortar sĂł porque "ainda nĂŁo falĂĄmos sobre istoâ. Preferimos ter 2 episĂłdios mais pequenos em que cada um tem o seu tema, do que estarmos a quebrar a nossa dinĂąmica. TambĂ©m acho que Ă© isso que as pessoas gostam no nosso podcast, literalmente as conversas que eu tenho com o Fred no podcast acontecem nas esplanadas, durante os jantares e enquanto estamos a cozinhar. Aquele tipo de conversa Ă© algo que nĂłs terĂamos mesmo se nĂŁo estivĂ©ssemos a gravar, por tanto nĂłs nunca na vida numa conversa real, irĂamos dizer: âEstamos hĂĄ muito tempo a falar disto, temos que trocar de assuntoâ, e por isso nĂłs nunca fazemos isso no podcast, porque vai contra a nossa premissa, que Ă© falarmos o que tem que ser falado com a liberdade que lhe fĂŽr necessĂĄria.
VA: Com esta liberdade que vocĂȘs tĂȘm de abordar todos os temas que acham importantes, acabam por abordar temas sobre os quais tĂȘm muito conhecimento mas tambĂ©m outros que provavelmente nĂŁo estĂŁo informados o suficiente para os explorar em toda a sua complexidade. Como Ă© que vocĂȘs dĂŁo a volta a isso?
IA: Isso Ă© algo que acontece muitas vezes. NĂłs sentimos que por muitas opiniĂ”es baseadas em factos que nĂłs tenhamos, começa a ser cada vez mais difĂcil apresentarmos, por exemplo, uma luta que nĂŁo Ă© nossa sem alguĂ©m do outro lado.
Nós temos uma lista imensa de temas que queremos abordar mas que não vamos tocar sem ter alguém que tenha sentido na pele o que nós podemos apenas especular. Por exemplo, nós queremos muito gravar um episódio sobre racismo, e não o vamos gravar só os dois, porque por muito que nós sejamos solidårios com a luta e tentamos pÎr-nos nos pés das outras pessoas, nós nunca na vida vamos conseguir sequer imaginar a sensação de ser discriminado pelo nosso tom de pele.
NĂłs agora jĂĄ nĂŁo somos capazes de fazer isso, o que tem um bocadinho a ver com o crescimento do podcast, porque no inĂcio nĂłs tĂnhamos tipo 50 ouvintes, mas nĂłs temos cada vez mais pessoas a ouvir-nos e a levar o que dizemos a sĂ©rio, we can't fuck that up, sentimos uma responsabilidade para os nosso ouvintes, jĂĄ nĂŁo nos apetece tratar de um tema que nos seja querido mas que nĂłs achemos que nĂŁo lhe vamos dar o corpo, porque nĂłs nĂŁo somos aquele corpo.
âĂ uma vantagem enorme nĂŁo ter medo de falar com as pessoas como pessoas.â
VA: Jå gravaram algum episódio que no processo de edição descobrem que não conseguiram fazer justiça ao tema?
IA: Por acaso isso nunca aconteceu, mas aconteceu, por exemplo, no episĂłdio sobre sex workers, nĂłs fizemos o episĂłdio e foi um bom episĂłdio, tivemos um debate importante, mas tanto eu como o Fred quando o publicĂĄmos percebemos que precisamos de fazer uma parte 2 e trazer um/a sex worker aqui, porque estĂĄ nos a faltar metade da histĂłria.
VA: O vosso Podcast serve também a função principal do jornalismo, que é informar as pessoas sobre temas relevantes do dia-a-dia, apesar disso não tem o formalismo e a rigidez comum nos velhos media. Quais são as vantagens disto?
IA: A vantagem Ă© sempre a liberdade, eu sinto que as pessoas sentem muitas vezes que o jornalismo nĂŁo Ă© feito para elas, o que Ă© uma coisa que me deixa um pouquinho triste, sinto que hĂĄ muita gente que nĂŁo se interessa mais pelas notĂcias e pelo jornalismo porque sente que nĂŁo Ă© feito para eles, e na realidade Ă s vezes nĂŁo Ă©. Eu tirei jornalismo, sou uma pessoa interessada e uma pessoa que lĂȘ as notĂcias, e custa-me ler um artigo sobre o orçamento de estado, porque aquilo nĂŁo foi feito para eu entender.
Acho que isso é uma vantagem enorme não ter medo de falar com as pessoas como pessoas, porque nós também não nos queremos estar a pÎr num pedestal de entendedores de seja o que for, aliås somos especialistas de coisa nenhuma né? à precisamente o oposto que nós queremos fazer.
âJĂĄ que tĂȘm estagiĂĄrios a trabalhar ao preço da chuva, entĂŁo pelo menos dĂȘem-lhes liberdade para eles fazerem o que acham importante, dĂȘem-lhes formação, expliquem como Ă© que a coisa funciona para que eles possam de facto crescer, mas nĂŁo Ă© isso que acontece.â
VA: Se o jornalismo como existe hoje na maior parte da indĂșstria nĂŁo Ă© para as pessoas comuns Ă© para quem?
IA: Na realidade nĂŁo sei. Eu gostava de saber responder a essa pergunta.
Quer dizer eu sei nĂ©? Ă para o "rich straight white male", Ă© para essas pessoas que o jornalismo Ă© feito, porque na realidade as pessoas que escrevem irĂŁo necessariamente ser um reflexo das pessoas que lĂȘem, visto que a esmagadora maioria dos "grandes jornalistas" sĂŁo homens de meia idade sem grandes dificuldades na vida em geral, claro que eles nĂŁo vĂŁo conseguir comunicar com os jovens que estĂŁo a sofrer imenso por nĂŁo conseguir pagar a renda.
VA: Mas os jornalistas que entram agora sĂŁo esses jovens que nĂŁo conseguem pagar a renda.
IA: Mas Ă© tudo mascarado, eles nĂŁo tĂȘm liberdade para dizer "eu sou um estagiĂĄrio que estĂĄ aqui a ser escravizado hĂĄ 3 meses e nĂŁo recebo um tusto para estar aquiâ, nem podem assinar peças!
Ă pĂĄ, jĂĄ que tĂȘm estagiĂĄrios a trabalhar ao preço da chuva, entĂŁo pelo menos dĂȘem-lhes liberdade para eles fazerem o que acham importante, dĂȘem-lhes formação, expliquem como Ă© que a coisa funciona para que eles possam de facto crescer, mas nĂŁo Ă© isso que acontece.
VA: E as desvantagens?
IA: Perde um bocadinho de credibilidade. Eu adoraria ser uma referĂȘncia em termos de fonte. Se daqui a 7 anos houver um miĂșdo na faculdade a fazer um trabalho sobre homofobia, quero que pense: "Vou ouvir aquelas pessoas que podem ter coisas a acrescentar ao meu trabalho". Gostava muito de ser essa referĂȘncia, mas Ă© difĂcil de ter essa credibilidade quando Ă©s "sĂł um podcast".
VA: Quando és especialista em coisa nenhuma.
IA: Exacto, Ă© difĂcil ser considerada uma referĂȘncia quando Ă©s especialista em coisa nenhuma.
Ainda assim as desvantagens nĂŁo sĂŁo maiores que as vantagens. NĂŁo me importo muita que as pessoas nĂŁo possam pĂŽr o podcast nas referĂȘncias bibliogrĂĄficas, importa-me mais que alguĂ©m que esteja bloqueado no raciocĂnio ou que sinta que nĂŁo tem conhecimento suficiente sobre o assunto vĂĄ procurar o nosso podcast porque sabe que nĂłs vamos ter uma discussĂŁo isenta e verdadeira. NĂŁo me interessa tanto estar nos livros, quero Ă© que as pessoas saibam que no nosso podcast encontram debates e discussĂ”es que se calhar nĂŁo encontram noutros sĂtios, e que vĂŁo aprender com isso.
âĂ sĂł uma pessoa a querer saber das coisas e a tomar responsabilidade por nĂŁo saber.â
VA: EntĂŁo achas que a indĂșstria deve seguir o exemplo de ĂłrgĂŁos mais virados para os jovens?
IA: Eu acho que sim, eu nĂŁo acho que tenha que ser uma coisa ou outra, porque as pessoas que para quem o jornalismo Ă© feito agora continuam a existir, e nĂŁo vamos simplesmente dizer "acabou-se o jornalismo". Acho Ă© que se tem de dar mais credibilidade Ă s coisas de forma mais livre.
A mim faz-me confusĂŁo como Ă© que estamos em 2019 e ainda hĂĄ tanto preconceito em relação Ă Internet, Ă© verdade que estĂĄ melhor, mas ainda nĂŁo se dĂĄ credibilidade suficiente Ă s coisas que acontecem na Internet. A Internet jĂĄ nĂŁo Ă© o sĂtio ondes os miĂșdos vĂŁo para o chat falar sem se conhecerem, a Internet Ă© um meio poderosĂssimo, na minha opiniĂŁo muito mais poderoso do que a televisĂŁo, e isso sĂł ainda nĂŁo foi declarado porque Portugal estĂĄ sempre 10 anos atrasado em tudo.
VA: Mas nĂłs tambĂ©m nĂŁo podemos encarar a Internet como algo estritamente melhor, que nos vai deixar a todos mais bem informados, porque com o brexit, com as eleiçÔes norte-americanas, e agora mais recentemente nas eleiçÔes brasileiras houve uma forte utilização da Internet para criar e deturpar informação com fins propagandĂsticos.
IA: Verdade. Mas hå tantas coisas boas na Internet, hå mais coisas boas do que mås, ou pelo menos mais oportunidades para fazer coisas boas do que mås. à só saberes ir à procura, estå tudo tão perto de ti que acho que é quase ingénuo nós não vermos este poder dos novos media.
Um dos meus podcasts favoritos Ă© o "Getting Curious with Jonathan Van Ness" Ă© um podcast que me faz pensar: "Ă isto que eu quero fazer", eu quero ser uma referĂȘncia suficientemente grande para ter credibilidade e fazer o que ele faz, que Ă© pegar em assuntos em que nĂŁo percebe nada, mas sobre os quais estĂĄ curioso e vai buscar especialistas que os expliquem. No primeiro episĂłdio ele foi buscar um professor de uma faculdade buĂ© pequenina de estudos do mĂ©dio oriente e disse: âEu preciso que tu em 20 minutos me expliques o que Ă© que se passa na SĂria.â Ă sĂł uma pessoa a querer saber das coisas e a tomar responsabilidade por nĂŁo saber.
VA: Achas que o "utilizador normal" da Internet, tem esse desejo de ir à procura de informação e de selecionar informação correcta, ou que a informação é que o encontra e que informação o encontra estå dependente de quem a produz e distribui?
IA: Eu acho que estĂĄ nas pessoas, porque eu posso perfeitamente ir todos os dias Ă Internet e ficar o tempo todo a fazer scroll no facebook.
âEu saĂ da minha mĂŁe a queimar o sutiĂŁ em praça pĂșblica.â
VA: Mas achas que a maior parte das pessoas vão à procura da informação ou ficam a fazer scroll no facebook?
IA: Ficam a fazer scroll no facebook. E isso Ă© que me enerva, porque hĂĄ aqui um potencial que nĂŁo Ă© bem aproveitado, as pessoas acreditam em tudo o que lĂȘem na Internet. PorquĂȘ? Porque antigamente as pessoas acreditavam em tudo o que estava na televisĂŁo. NĂŁo nos sabemos adaptar e somos preguiçosos.
VA: EntĂŁo achas que as pessoas vĂŁo desenvolvendo um cepticismo Ă medida que se vĂŁo habituando Ă Internet?
IA: Acho que Ă© um cepticismo, sim. E que Ă© um bocadinho 50/50, acho que por um lado a Internet continua a nĂŁo receber a credibilidade que o seu potencial merece, e por outro lado precisamos de arranjar alguma maneira de tornar as pessoas mais interessadas. As pessoas tĂȘm que querer saber, eu sinto-me socialmente responsĂĄvel por saber o que Ă© que se passa na ChechĂ©nia, sinto que tenho que saber o que sĂŁo os campos de concentração de homosexuais na ChechĂ©nia, porque Ă© que existem, e como acabar com eles.
VA: Mas existem inĂșmeras coisas a acontecer com essa gravidade por todo mundo, como Ă© que Ă© possĂvel uma pessoa saber de todas?
IA: NĂŁo tĂȘm de saber de todas, sĂł tĂȘm Ă© que ser interessados. NĂŁo Ă© o que fazes Ă© a forma como o fazes. Obviamente que hĂĄ montes de coisas que eu nĂŁo sei e quando nĂŁo sei fico furiosa por nĂŁo saber, mas isso tambĂ©m Ă© porque como o meu pai diz, eu saĂ da minha mĂŁe a queimar o sutiĂŁ em praça pĂșblica, eu gostava de fazer muito mais do que aquilo que faço. Mas o que importa Ă© ser interessado pelo mundo. NĂłs, os jovens, temos tudo ali esbanjadinho em milhentas plataformas, hĂĄ programas maravilhosos no Youtube, feitos com "production values" tanto ou mais altos do que na televisĂŁo, tens podcasts, blogues interessantĂssimos, plataformas como o Shifter... As possibilidades sĂŁo infinitas e nĂłs estamos sĂł a partilhar memes de gatinhos, que eu adoro, mas Ă© importante sabermos aquilo que estĂĄ acontecer.
âSĂŁo as regras do jogo, tudo bem, vamos Ă© jogar outro jogo.â
VA: Portanto o que tu queres fazer é criar essa ligação entre os jovens e temas Importantes?
IA: Ă isso que eu pretendo fazer. E para isso Ă© preciso ir para onde eles estĂŁo.
HĂĄ pouco tempo perguntaram-me se achava que o meu podcast tem capacidade para avançar e evoluir para mercados mais competitivos, o que eu interpretei como se eu achava que o meu podcast tem potencial para chegar a uma rĂĄdio, porque neste momento em Portugal Ă© esse o Ășnico caminho que os podcasts podem fazer para serem remunerados. Eu respondi que sim, acho que tem potencial para avançar para um mercado mais competitivo, mas esse mercado ainda nĂŁo existe.
Eu quero criar esse mercado, e Ă© isso que eu e o Fred queremos fazer com o nosso podcast: criar a indĂșstria dos podcasts em Portugal que nĂŁo existe como indĂșstria, nĂŁo existe a infraestrutura que permite fazer disto uma profissĂŁo, que jĂĄ existe hĂĄ 10 anos nos EUA e no Reino Unido, lĂĄ hĂĄ pessoas que vivem dos podcasts, aqui Ă© absolutamente impensĂĄvel. O nosso foco nĂŁo Ă© de todo ir para uma rĂĄdio, porque sabemos que vamos ser censurados numa rĂĄdio, e nĂŁo Ă© que a rĂĄdio tenha culpa, sĂŁo as regras do jogo, tudo bem, vamos Ă© jogar outro jogo.
VA: Disseste que uma das razÔes principais que te levam a não querer ir para a rådio é o medo de ser censurada. Mas recentemente com por exemplo, a proibição de pornografia do tumblr e a desmonetização de canais LGBTQ no Youtube, essa ideia de poderes ser e mostrar ao mundo quem és tem vindo a perder poder na Internet. Continuas a ser optimista quanto à vossa liberdade na Internet?
IA: Continuo. Continuo a ser optimista porque as pessoas arranjam sempre uma maneira. Se hĂĄ uma coisa que as pessoas na Internet sĂŁo Ă© perseverantes. "Ok jĂĄ nĂŁo nos querem dar pornografia no tumblr? TĂĄsse bem a gente vai buscar pornografia a outro sĂtio". Para mim Ă© muito triste porque acho que Ă© uma censura errada por parte do tumblr, muda a comunidade, a cultura do site, muda tudo.
âComo Ă© que eles se atrevem a ter drag queens no Youtube Rewind, enquanto ao mesmo tempo estĂŁo a demonetizar, bloquear e esconder canais educativos LGBT.â
VA: Mas para dar um exemplo mais concreto: HĂĄ uns bons anos haviam muitos vĂdeos de animação no Youtube, e a animação que existia era curta, porque produzir animação mesmo se sĂł 20 segundos Ă© sempre muito trabalhoso. Eventualmente o Youtube mudou as regras de monetização, em vez de pagar baseado no nĂșmero de visualizaçÔes passou a pagar baseado no tempo de visualização, o que fez com que todos os vĂdeos curtos deixassem de ser lucrativos. E o que acabou por acontecer foi que a animação no Youtube desapareceu. NĂŁo te preocupas que isso aconteça com todos aqueles nichos que as grandes plataformas preferiam que deixassem de existir?
IA: NĂŁo. Esse Ă© um Ăłptimo exemplo porque a animação estĂĄ a voltar a ter um sucesso enorme no Youtube. PorquĂȘ? Porque agora os vĂdeos sĂŁo mais compridos e sĂŁo sobre as pessoas. Ă storytelling em animação, as coisas adaptam-se. Quando uma histĂłria tem de ser contada irĂĄ adaptar-se.
O que me preocupa realmente em relação Ă Internet Ă© de facto ficar cada vez mais corporate e nĂŁo "a Internet". Eu estou sempre a dizer que sou uma pessoa da Internet e as pessoas, especialmente as mais velhas, nĂŁo sabem bem o que Ă© que isso significa. NĂŁo Ă© sĂł que eu tenha crescido com a SĂłnia do dabliu dabliu dabliu, cresci com isso e com os memes e com toda essa parte da cultura da Internet. Mas o que isto para mim significa Ă© que eu faço parte da comunidade da Internet, e dentro da comunidade grande da Internet tens vĂĄrias comunidadezinhas, e acho que isso nĂŁo se vai perder, mas vamos enfrentar cada vez mais obstĂĄculos corporate. Eu adoro o Youtube, mas eu tenho muitos problemas com o Youtube, o meu maior problema do Youtube Ă© eles fazerem parecer que tĂȘm valores que nĂŁo tĂȘm, quando este Youtube Rewind de 2018 saiu foi uma hipocrisia monstra, como Ă© que eles se atrevem a ter drag queens no Youtube Rewind, enquanto ao mesmo tempo estĂŁo a demonetizar, bloquear e esconder canais educativos LGBT. Como Ă© que eles se atrevem a fazer isso!? Isto Ă© corporate. Ă o que Ă© que vai vender.
VA: O vosso podcast jĂĄ esteve no top 10 de podcasts do spotify, tem por volta de 800 seguidores no facebook, mais uns 600 no instagram e com 400 a 500 ouvintes regulares. JĂĄ deu lucro?
IA: Não. Nós entretanto tivemos merch portanto jå conseguimos pagar algumas despesas que tivemos com o podcast. Esse dinheiro que conseguimos ajudou a pagar as minhas deslocaçÔes ao Porto para gravar, portanto, deu um bocadinho de nada de lucro mas não é bem lucro visto que nós vamos voltar a investir no podcast. Mas esse é um dos goals para 2019.
VA: Quais é que são as despesas da produção do podcast?
IA: Ă essencialmente o alojamento nos servidores. Para o nosso caso em especĂfico a maior despesa sĂŁo as minhas deslocaçÔes ao Porto. Para alĂ©m disso nĂłs jĂĄ tivemos despesas em material, tivemos que comprar material porque o Fred tinha um material e eu tinha outro e percebemos que o som ficava muito melhor se tivĂ©ssemos o mesmo material. Eu tambĂ©m tive que mudar o meu computador porque percebi que o computador que tinha antes nĂŁo era forte o suficiente para eu poder fazer o que queria fazer com o podcast. Portanto hĂĄ esses investimentos que sĂŁo inevitĂĄveis.
VA: Acham que vĂŁo se conseguir sustentar com o podcast? Conhecem outros podcasters portugueses que conseguem?
IA: NĂŁo, portugueses nĂŁo. NĂłs ambicionamos e vemos isso a acontecer. Se calhar nĂŁo a viver apenas do podcast, mas pelo menos nĂŁo dar despesa. Por exemplo o maluco beleza do Rui Unas, que apesar de ter vĂdeo, Ă© um podcast e tem uma carrada de patrocĂnios.
VA: O Rui Unas Ă© uma personalidade de fora que vem para o mundo dos podcasts e consegue ter um bom rendimento nĂŁo porque faz um podcast mas porque Ă© o Rui Unas a fazer um podcast. Achas que Ă© possĂvel criar a tua marca sĂł no mundo dos podcasts?
IA: Eu acredito que sim porque eu acredito que a indĂșstria dos podcasts vai crescer e que sĂł temos que ser pacientes. Se calhar vamos falhar, mas nĂłs temos a visĂŁo de que vamos motivar os outros podcasters a levar isto a sĂ©rio, vamos criar nĂłs a indĂșstria. Tem sempre que começar por algum lado e nĂłs temos essa ambição. Por isso se calhar sim, vamos conseguir criar uma marca forte o suficiente para podermos ser uma referĂȘncia como o Rui Unas.
âĂ isso que eu e o Fred queremos fazer com o nosso podcast: criar a indĂșstria dos podcasts em Portugal.â
VA: Achas isso possĂvel sĂł com o mercado portuguĂȘs ou achas que se tĂȘm que expandir para outros mercados?
IA: Eu acho que Ă© possĂvel sĂł com o mercado portuguĂȘs, mas vai sempre ficar pequenino nĂ©? Porque nĂłs somos de facto pequeninos. Por acaso temos vĂĄrios ouvintes brasileiros e Ă© muito fixe saber que eles estĂŁo do outro lado do mundo a ouvir-nos. Portanto Ă© possĂvel, mas vai ser muito mais lento e fica pequenino e eu acho que se nĂłs podemos temos os PALOPs porque nĂŁo?
âOutra coisa Ă© quereres chegar a ela porque sabes que com ela vĂȘm mais milhĂ”es de pessoas que te podem dar dinheiro.â
VA: Uma das coisas que nĂłs vemos com, por exemplo, Youtubers portugueses que se apercebem que tĂȘm que se expandir para um mercado de lĂngua portuguesa estrangeiro Ă© que eles começam a adaptar o conteĂșdo deles para chegar a esse mercado. VocĂȘs imaginam-se a fazer a mesma coisa?
IA: Não, eu acho que nós não vamos mudar a forma como nós comunicamos para poder chegar a mais pessoas. Acho que mais depressa adaptamos os nossos temas. Se calhar vamos prestar atenção ao que se passa no Rio de Janeiro e em São Paulo porque isso vai ao encontro daquilo que nós somos e da premissa do podcast. Também claro que é sempre fixe arranjar maneira de chegar a pessoas diferentes.
Acho que os content creators que tĂȘm que fazer isso, eu jĂĄ reparei em alguns casos, e tem tudo a ver com a forma como fazes as coisas. NĂŁo hĂĄ problema nenhum em tu quereres expandir o negĂłcio. Agora se com as razĂ”es erradas jĂĄ Ă© outra conversa, uma coisa Ă© tu quereres chegar a uma pessoa porque queres saber como ela vive, queres saber o que ela gosta de consumir, queres saber daquela pessoa. Outra coisa Ă© quereres chegar a ela porque sabes que com ela vĂȘm mais milhĂ”es de pessoas que te podem dar dinheiro.
VA: Tu nĂŁo te vĂȘs como uma jornalista mas os podcasts, a formato dos podcasts, Ă© extremamente Ăștil para o jornalismo. O podcast mais ouvido do mundo Ă© o Serial que Ă© jornalismo de investigação. Mas uma das principais maneira de sustentar podcasts Ă© atravĂ©s de merch e anĂșncios. Ambas as coisas que o cĂłdigo deontolĂłgico do jornalista proĂbe aos jornalistas portugueses. Achas entĂŁo possĂvel ser criado um Serial em Portugal com estas restriçÔes?
IA: Felizmente isso Ă© possĂvel porque se hĂĄ coisa que Ă© irreverente em si Ă© a investigação, seja ela do que for. Se calhar nĂŁo podemos Ă© chamar as coisas pelo nome infelizmente porque ainda nĂŁo chegĂĄmos lĂĄ. Mas eu atĂ© concordo com isso estar no cĂłdigo deontolĂłgico.
âSe eu acho que deveria ser feito na mesma pelo gozo de saber? Acho.â
VA: Eu falei dos podcasts mas podia ter falado da new media no geral. A new media nĂŁo costuma funcionar Ă base de venda do produto mas Ă base dos rendimentos adicionais que tu consegues fazer Ă volta do produto. O que obriga um jornalista a ser um businessman ao mesmo tempo, algo que Ă© proibido em Portugal.
IA: Infelizmente eu acho que a curto prazo nĂŁo Ă© possĂvel fazer as coisas aqui como se fazem lĂĄ fora.
Com toda a cena toda do Serial eu nĂŁo sei como Ă© que ainda ninguĂ©m pegou na histĂłria do Rei Ghob e fez uma investigação a sĂ©rio. Mas agora Ă© que eu penso, se calhar Ă© por causa desta questĂŁo que tu me colocaste. Porque vĂŁo perder meses e meses de trabalho em que nĂŁo tĂȘm retorno porque nĂŁo Ă© possĂvel em Portugal monetizar como se faz lĂĄ fora. Se calhar Ă© por isso, se eu acho que deveria ser feito na mesma pelo gozo de saber? Acho.
âNo dia em que estreou, teve mais visualizaçÔes do que o programa de televisĂŁo mais visto na AmĂ©rica inteira, e ainda hĂĄ pessoas que nĂŁo dĂŁo credibilidade Ă Internet.â
VA: Para terminar. Recomenda trĂȘs peças de media, podem ser vĂdeos do Youtube, podcasts, livros, reportagens, o que quer que seja. Nem precisas de achar relevante para esta conversa que tivemos.
IA: O podcast que eu vou sugerir Ă© o âWithout Failâ, basicamente o criador da Giblet media, que Ă© uma produtora de podcasts, ele tem um podcast em que ele convida pessoas com que sĂŁo notoriamente bem sucedidas mas que vĂŁo sĂł falar daquela vez em que lixaram tudo e correu tudo muita mal.
à muito inspirador em relação ao falhanço e mostra como às vezes é bonito falhar. As pessoas esquecem-se muito facilmente que falhar é absolutamente necessårio. Hå tanta coisa que sai de cometer um erro que é quase bonito e portanto gosto muito desse podcast.
No canal do Youtube temos muito que prestar atenção ao Shane Dawson, as pessoas que seguem o podcast sabem que eu e o Fred somos absolutamente obcecados pelo Shane Dawson. Porque o Shane Dawson Ă© o perfeito exemplo de toda a conversa que nĂłs tivemos aqui. Ele Ă© um gajo que estĂĄ hĂĄ mais de 10 anos no Youtube e adaptou o conteĂșdo dele jĂĄ 30 mil vezes ao longo dos anos e nunca deixa de ser ele prĂłprio.
Neste Ășltimo ano ele mudou a forma como faz conteĂșdo e preferiu concentrar-se em fazer menos conteĂșdo quantitativamente mas melhor em termos de qualidade. Ele tem se concentrado em sĂ©ries Ă s quais ele chama âdocuseriesâ que tem entre 3 a 8 episĂłdios que tratam de um assunto atĂ© ao final. No dia em que estreou, teve mais visualizaçÔes do que o programa de televisĂŁo mais visto na AmĂ©rica inteira, e ainda hĂĄ pessoas que nĂŁo dĂŁo credibilidade Ă Internet.
Na sexta feira Ă noite fui ver um espetĂĄculo com o Ivo Canelas que se chama âTodas as Coisas Maravilhosasâ, eu nĂŁo quero parecer dramĂĄtica ao dizer que mudou a minha vida, mas sendo dramĂĄtica, mudou a minha vida.
A premissa Ă© um miĂșdo que tem uma mĂŁe deprimida com tendĂȘncias suicidas, e depois da primeira vez que ela se tenta suicidar quando ele tem 7 anos ele começa uma lista de todas as coisas maravilhosas do mundo e depois essa lista acompanha-o ao longo da vida dele e de vĂĄrias fases.
Aquilo mexeu comigo de tal maneira que ainda hoje, jĂĄ passaram dois dias e eu acordei a pensar naquilo outra vez. NĂłs temos que nos expor a coisas que nos desafiem e as coisas que fiquem em nĂłs de alguma maneira. Eu saĂ daquela peça e fartei-me de chorar mas enfim, eu sou uma chorona por natureza. O argumento estava tĂŁo bem escrito que eu saĂ de lĂĄ a pensar que hĂĄ buĂ© mais coisas maravilhosas do que coisas mĂĄs, nĂłs Ă© que nos esquecemos e Ă© tĂŁo fĂĄcil esquecer que Ă© assustador. Tens que aproveitar as coisas pequenas que estĂŁo lĂĄ sempre e tu sĂł nĂŁo as vĂȘs. Uma Ucal quente, a voz da Elis Regina... As pessoas tem que ir atrĂĄs dessas coisas, atrĂĄs de conteĂșdo que as preencha. Essa peça sĂł estĂĄ atĂ© dia 20 de Janeiro mas se tiverem a oportunidade de ir digo que mudou pelo menos o meu estado de espĂrito para o resto do mĂȘs. Acho que isso Ă© que Ă© importante, coisas que nos mudem.








