Como se morre
A minha morte vai ser quente. No pico do Agosto entre incêndios. Os corpos estão lassos e a nostalgia é mole. Mandem-se vir grades de cerveja e espirituosas com gelo. Os inimigos que forem saudar, hão-de esmorecer.Â
O velório dos amigos, sem ninguém admitir, é um baile de máscaras, cada um pondo e tirando frases à medida que lhe apeteça riso ou consolação.Â
A minha morte vai ser sentida, complexa, variada, com gargalhadas e lágrimas gordas.
Eu sabia já o inesperado da minha condição fÃsica e mental, o lento galopar da morte a subir-me. A poucos o confidenciara por carta ou poema. Tinha sido mais uma notÃcia que não soubera ou quisera partilhar.Â
Não me envenenaram, mas eu soube tomar a minha cicuta. Não me atropelaram e eu conduzi um estado ao outro. Não deixei escrito se queria cova ou cremação. Foi o viúvo que, entre duas insónias, pôs a mão no fogo.
Pouco haverá o que distribuir. Viagens de saudades, amoralidades concretas, corpos de passados, fotografias luminosas.








