Cidade interiorana - PARTE 2
Não demorou muito tempo até que os vizinhos começassem a chegar, ao anoitecer, cada um segurando um prato diferente com receitas preparadas pelos próprios, assim como docinhos, sobremesas e diversas bebidas. Mesas de plástico foram postas em seguimento, formando uma única e comprida mesa a qual sustentava toda aquela comida. Observei tudo da sala de estar através das pequenas brechas da janela enquanto o meu padrasto organizava os móveis da sala com a ajuda de um homem musculoso e barbudo. Comecei a me sentir desconfortável com o fato de este estar me olhando sempre que para ele eu olhava, então fui até o jardim para acompanhar de perto os preparativos da festa. O meu irmão ajeitava a caixa de som acompanhado de uma loira sem seios, a qual sorria e tentava visivelmente seduzi-lo. Quando a música animada começou a tocar, a festa teve inÃcio. O meu irmão e a moça loira foram para um lugar mais reservado com a finalidade de conversarem melhor. Era à noite, o céu estava limpo e sem lua, as pessoas já se serviam e formavam grupinhos pelo jardim até o outro lado da rua, e eu aproveitei para pegar um bem-casado, discretamente. "É o meu doce predileto." Virei um pouco a cabeça para olhar a menina de aparentemente quinze anos que falou aquilo. "É o meu favorito também." - falei, tentando ignorar a tentativa mal-sucedida da menina em fazer amizade comigo, até que avistei um atraente garoto, pouco mais velho que eu, se aproximando, sorrindo, como se fôssemos grandes amigos. "Boa noite, boa noite!" - disse ele, dando-me um beijo na bochecha e, em seguida, na menina. - "Já se conhecem?" "Nã..." "Sim!"- interrompeu-me ela, estranhamente animada. Deve estar apaixonada por ele, assim como várias outras, pensei eu. "Eu sou o Henrique." - continuou - " Você deve ser a Marisa, certo?" "Marina." - corrigi. "Você... já conheceu a casa?"- perguntou Henrique, curiosamente interessado, assim como a sua fiel companheira e amante, que não parava de me observar, atenta a qualquer demonstração de paquera. "Não" - ri, olhando para a menina - " Só conheci o meu quarto. Por quê?" Os dois se entreolharam, surpresos, e logo chamaram uma garota que estava comendo pão com patê de peixe. Ela parecia ser do tipo extrovertida, assim como ele, e muito simpática. Todos a chamavam de Sali. "Há uma história muito popular aqui na cidade sobre essa casa..." - contou ela, ainda mastigando o pão - "A mulher que aqui morava era uma bruxa. Dizem que ela sacrificava sapos para com o sangue deles fazer acordos com o capeta." "Ela derramava o sangue em um pote de barro e fazia uns rituais satânicos dentro do porão." - continuou Henrique - "Ela conseguia falar com o capeta através desse sangue... muita loucura!" "E o marido dela?" - a menina, que até então não havia se pronunciado a respeito, contou, intrigada, a história do marido da bruxa, que era um médico cirurgião, o único da cidade, totalmente alheio aos rituais da esposa, até que, numa madrugada estrelada, escutou vozes abafadas vindas do porão e foi conferir. "A mulher estava desmembrada no chão ao redor do pote de barro!" -cochichou Sali, com os olhos arregalados. - "Havia riscos no chão de amarelo iluminados por velas que representavam a presença do capeta no lugar. E em cada desenho no chão tinha uma parte do corpo da bruxa. O marido dela estava imóvel de tanto pavor, até que, de repente, um sapo saiu do pote de sangue e começou a ir em sua direção, cada vez mais veloz. O cirurgião ficou desesperado e fugiu, não se sabe para onde..." "Nossa." - eu disse, rindo. "Você não acredita?" - perguntou Sali. - "Então por que você não vai até o porão?" "Eu quero ir também!"- falou Henrique, enquanto eu já me dirigia ao quintal, onde ficavam as janelinhas de vidro do porão. O quintal estava vazio e não tinha muros para limitar o lugar. Parecia que ali terminava todas as intervenções humanas na natureza. Eu estava me sentindo completamente exposta e insegura ali, mas não por causa da história da bruxa. Aquilo era tão ridÃculo! Eu acreditava em Deus e no Satanás, sabia que era possÃvel, mas nunca cheguei a acreditar, de fato, em histórias desse tipo. Soava mais como uma tentativa de me convencer a morar em outro lugar. Por que, então, a casa ficou sem moradores há tantos anos, visto o preço que custava?












