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#dias #cinzentos
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Cansar, todo mundo cansa. Mas ninguém morre de cansaço. É normal querer chutar o balde. Você não é diferente dos outros. Todo mundo cansa da cara de todo mundo. E nem por causa disso você vai largar o seu chefe quando ele pegar no seu pé, vai largar a escola, vai largar os estudos, vai abandonar a faculdade quando cansar dos professores, vai largar a mulher quando cansar da cara dela, vai abandonar o filho quando não aguentar mais a mesma rotina de pai. Ou vai? A escolha é sua. A consequência também. Se quiser um estímulo para estudar, pense que quando largar o colégio nunca mais vai ter que olhar para a cara desses tais idiotas. Pense que não terá mais que estudar o que você não quer. Mas se quiser ficar reclamando da vida, tudo bem. Só tornará as coisas mais difíceis pra você mesmo. E só pra você. Todo mundo já tem suas próprias coisas pra se cansar.
Cinzentos.
não me importa por quem me trocas se não for de mim que gostas
Dias Cinzentos

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Eu deveria ter lido tudo o que podia enquanto tinha tempo e não sabia. Eu deveria ter aproveitado mais dos meus amigos quando eles ainda não tinham smartphones. Eu deveria ter amigos que não têm smartphones Eu quase não tenho mais do que me lembrar. Eu deveria ter olhado pro céu enquanto eu não achava isso uma grande besteira porque o céu não muda de posição e se eu olhar pra ele agora ou daqui a vinte anos, de qualquer forma não vou conseguir decorar a posição de cada estrela. Deveria ter mandado aquele trabalho pro inferno e reprovado de ano porque eu sempre odiei matemática e eu poderia dizer ao mundo que odeio matemática porque o mundo ainda não me obrigava a ser um idiota adestrado. O mundo não. Talvez, só a minha mãe. Eu não deveria ter apagado do meu mp3 aquela música melosa que eu só gostava do refrão e nunca parava pra escutar completamente. Eu queria escutar de novo, mas não lembro o nome. Eu deveria ter dito mais nãos na minha vida não para garotas que só chupam a minha alma não para garotas que chupam tudo, menos a minha alma. Mas ainda há coisas que eu posso evitar. eu posso evitar fazer um pós-doutorado eu posso evitar acordar daqui a 50 anos sem saber que eu existo eu posso evitar acordar daqui a 40 anos sem saber o que fazer pra existir eu posso evitar acordar daqui a 30 anos sem saber por que todo mundo existe, menos eu eu posso evitar acordar daqui a 10 anos sem saber quem é que realmente existiu na minha vida eu posso evitar acordar amanhã sem saber quando eu vou existir acontecer quando eu vou brotar e me pôr me gerar me parir. Eu deveria ter assistido mais filmes quando eu não me identificava tanto assim com todos os azares que acontecem com os protagonistas quando eu não sabia que me identificava mais nas falas dos vilões Eu deveria ter comprado pelo menos um pássaro numa petshop e aberto a gaiola na frente do vendedor porque naquele tempo eu não sabia que estava ajudando no tráfico de animais. Eu contribuiria com a liberdade daquele único pássaro que morreria amassado nas patas de um gato dias depois. Passarinhos mortos são as coisas mais tristes que podem aparecer na vida de alguém. É tão triste que podia ser um elogio. Você é tão poético quanto um passarinho morto. Você é tão bonito quanto um passarinho morto. Você é tão passarinho quanto um morto. Eu poderia ter comido mais churros e me olhado menos no espelho poderia ter ficado esperando quando você me disse pra ir embora eu poderia ter calado a boca e guardado mais segredos Desabafado menos. continuaria sofrendo só pra mim, entende? como os budistas o sofrimento individual o egoísmo edificante dos budistas, ateus, protestantes e umbandistas. o sofrimento de si. Poderia entender que o amor é uma coisa bizarra que eu nem vou falar muito aqui porque amar é uma coisa que eu deveria ter feito, sim mas eu fiz demais e amor eu fiz de menos. Poderia não ter rido de alguém que estivesse pior do que eu, porque nunca se sabe o dia de amanhã Eu, por exemplo. não sabia. Infelizmente, eu não sabia. se soubesse, não mudaria nada. mas como eu não sei, sempre tem uma coisinha ou outra que eu gostaria de mudar. Eu deveria ter amado o cobrador de ônibus que me deseja bom dia Eu deveria também ter amado as pessoas que seguram as minhas coisas quando não tem mais lugar pra mim e dizer: Ei, cara, eu tava me sentindo sozinho, mas você me basta. Obrigado por segurar o meu peso. porque isso realmente basta pra curar a solidão de alguém. Eu deveria ter me declarado mais, mesmo com o risco de levar um chute. Ido pra mais shows escondido, me ferrado mais. Ter pedido menos desculpas. Eu odeio pedir desculpas. Abaixar a cabeça não é comigo e nunca foi desculpo porcaria nenhuma porque a culpa é dessa legião de camisinhas estouradas que me rodeia pessoas indesejadas sonhos indesejados traumas indesejados e Freud enlouqueceria agora. Eu deveria ter tido um desejo de criar uma escola nova onde ninguém fosse obrigado a fazer provas de literatura. (e uma faculdade onde ninguém precisaria falar em público) porque eram um saco mas eu só tinha o desejo de tirar notas boas sem saber exatamente o motivo, mas de tirar notas boas e impressionar as pessoas que pagavam a mensalidade do melhor colégio da cidade onde eu fui suspenso por beijar na boca no recreio. Passei de ano sem entender uma vírgula de literatura. E sem entender porque o poema no Drummond não poderia significar aquilo que eu sentia que significava. Mas não tinha essa opção na prova. E eu nunca me importei, quando eu deveria ter me importado. Eu passei no vestibular e não sei dizer eu te amo sem me importar com a resposta. Eu deveria ter falado mais ao celular quando eu não sabia que falar ao celular seria uma das coisas mais raras do mundo e não é nenhum vício em whatsapp é porque eu não tenho pra quem ligar mesmo. Aquele alguém que eu gostava tanto, mas tanto, tanto mesmo, e eu briguei e não lembro o motivo é no colo desse alguém que eu deveria ter deitado e chorado mais vezes assim, mesmo sem ter pra que chorar chorar como forma de dizer adeus. chora, que dói menos. Silêncio como forma de eternizar uma saudade uma futura saudade. Eu deveria ter um dívida enorme com aquelas pessoas que eu magoei por causa de orgulho Eu deveria, mas não devo. Eu deveria ter ido menos vezes ao zoológico porque aquilo é desumano ou melhor, é humano demais. todas aquelas vidas encarceradas diariamente assistidas mantidas através de alimentos e exibição gratuita Deus deveria ter transformado a terra numa coisa mais original do que o inferno. sobre as coisas que eu não deveria ter feito, mas fiz: sofrer escrever crer ver e só.
- Cinzentos
"As lágrimas funcionam como o ácido do nosso estômago quando as ingerimos. Não existe meio termo, é só uma reta sem fim. Nossa alma começa a ficar escura e passar por uma espécie de blackout. Ser só é admitir que tudo o que você procura nos outros está exatamente em você, de forma tão explícita que chega quase a ser pornográfico."
— Cinzentos
Sobre Clara, claramente.
O título dói. Deserdamos nosso mistério?
O que eu tenho pra falar é pouco. É pouco porque nunca conhecemos muito da vida. Talvez todas as minhas palavras tenham o teu perfume, talvez não. Talvez eu tenha te esquecido, talvez não. Talvez eu tenha um inconsciente que nunca te amou, e certamente não. O que conta é que nosso amor foi matéria e consequência. Foi dilúvio. Dilúvio sem arca, e não tem nada mais lindo do que morrer de metáfora no lugar de morrer por amor. Qualquer bala e suicídio dramático resolvem, mas no nosso caso, morrer era uma chance de vida. Uma permanência exacerbada, com cheiro de rosa afogada. Eu evitei esse momento o máximo que consegui, porque quis vencer. Superar. Mas qual a graça do drama amadurecido? Eu quero apodrecer de tristeza nas tuas mãos, sem vergonha nenhuma. O problema é que já não sinto mais as tuas mãos. E o carinho, o sentimento, a culpa, é tudo esquizofrenia. Escorro livre feito um desencaminhado fora de época, e eu preciso que alguém me veja sofrer, para que eu compreenda, atônito, que não estou pedindo socorro. Clara, meu bem, eu não quero a sua volta. A nossa obra de arte é lixo reciclável, e só vemos o quão bela é a poesia alternativa quando nos afastamos da exposição. Quando nos escondemos, e vemos de longe, que nos escondemos de nós mesmos. Vemos nossas almas como quem vê um museu. Nossos móveis antigos ainda estão lá. Nosso “sim” e nosso “não”, nossos medos, nossas invejas, nossa irracionalidade. Porque só contigo eu me permito ser saudade. Só contigo eu desarmo o meu humor e digo que sou frágil feito uma rocha, mas que você é forte como uma tempestade. Passageira. Só passageira. Anos de ausência foram responsáveis pela reação em cadeia. Eu e você, aqui, juntos, agora. Explosão nuclear. Cheiro de pólvora. Cheiro de desistências, de remorsos e de amor. Eu preciso dizer, Clara, que vivi. Que estive vivo. Você sabe que a minha respiração é uma bandeira branca. Que meu corpo em chamas é morada do teu crescimento. Então eu estou aqui. Estou aqui por você, como não prometi que estaria. Talvez eu esperava que você soubesse. Talvez, não. Talvez eu só quisesse não te dar motivos de escolha. Estou aqui e pronto, quer você queira, quer não, quer você saiba, quer não. Ou então foi covardia mesmo, porque assumamos, meu amor, que não sabemos nada sobre coragem. Pulamos dentro da fogueira por inocência. De mãos dadas, atravessamos os demônios da infância, os pesadelos do cinismo, o pecado do sofrimento, as chances da vaidade. Fomos inquebráveis. Até o momento em que soubemos que mãos dadas às vezes suam. E quando limpamos o nosso esforço, ficamos vulneráveis. Não somos gente de aproveitar o passado. Olho para trás, eu vejo o presente. Olho para frente, eu vejo um futuro sem passado. Onde está o nosso amor, que não passou por aqui? Por que você permanece, Clara? Eu já soltei a sua mão. Eu não tenho mais forças pra continuar sozinho, eu me recuso a derramar um único sal que não seja lágrima. Desistir é mais nobre, é um luto. É um pedido de desculpas. Porém eu continuo, e você sabe. Eu atravessaria a morte se fosse necessário, e está doendo. As estrelas no céu, meu bem, elas continuam doendo. Vamos cantar e deixar que a Lua adormeça. O mundo, esse sentimental, anestesiou os nossos corações. E tudo bate descompassadamente até o momento em que o mundo sofreu uma desilusão. As placas tectônicas, a tragédia, o choro, o caos, o desespero. E o mundo nos acorda, nos primaveriza, e o inverno é cruel. Nos perdemos por aqui. Nos perderemos amanhã. Só não esquece de como era estar comigo. Não esquece, na hora da tua morte física, que você amou alguém que não merecia ser amado. Que não precisava, eu acho. Você também não precisava. O choro te amou primeiro do que eu, o seu cheiro de tristeza eu sinto daqui. Seus olhos apertados e avermelhados sabiam que diríamos adeus. A nossa probabilidade era quase zero e nossa urgência aconteceu. Clara, fica. Fica para que as flores de plástico do hospital não passem a enfeitar o que é teu por direito. Minha vida, meu gosto, meu despreparo, minha infância, meu primeiro amor. Não nos artificialize, não nos materialize, porque somo só dois coros melancólicos. O vento nos aproxima, meu amor. O vento nos aproxima. Teu nome, Clara, me parece tudo, menos claro. Essa confusão e essa tempestade te deixam ainda mais bonita. É compreensível? A minha fraqueza, ela é compreensível? Não, não tente me compreender. Não tente compreender um homem rico, podre de rico, que deixa Monalisa rodando na vitrine para que possa admirá-la, sem fazer um lance sequer. Até que a pintura acabe. Só que não gostamos de exposição, eu já disse. Te deixei em pé por muito tempo. Você precisava cair. Cair em outro lugar além do meu peito, porque você finalmente notou o buraco que deixou quando eu disse adeus. Eu fui o responsável, mas eu não te quero de volta. Assumo, preciso. Mas não quero. Fica um pouco mais, só pra eu poder te ver. A verdade é que eu não tenho com o que te comprar. Eu não tenho mais a pele tão fina assim e as minhas mãos não encaixam tão perfeitamente na tua caminhada. Perdoa, meu amor, eu mudei. Nós mudamos. Mas permita que eu me esconda nas minhas sombras e te ame de longe, com calma, despetalando e vivendo um sonho. O nosso fim vai acontecer quando eu acordar e ver que eu esqueci de você como quem esquece de respirar. Estou aqui por você, Clara. Estou aqui pra você. Seria nosso destino, se o destino existisse. Um para o outro, um sem o outro.