gal costa | folhetim
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Sobre o dia em que eu não entendi um livro de Chico
Cheguei, com um árduo esforço, até o ponto final da última página. Em seguida, fechei o livro e encarei a contracapa amarelo mostarda com o título do livro ao contrário. Fiquei neste estado por um bom tempo, como sempre faço quando uma história mexe comigo. “Nossa, esse foi dos bons”, diria a minha mãe se tivesse passado por mim na sala de casa daquela manhã de sábado.
Dessa vez, porém, não admirava a obra. Na verdade, sentado no sofá eu processava as cento e setenta e quatro páginas que passei os últimos cinco dias lendo. Larguei o olho do livro e, meio que olhando o horizonte da janela, me questionei o que tinha entendido de Budapeste. Pouca coisa, eu mesmo respondi.
Como é chato não entender um livro. Muito mais chato é não entender um livro de CHICO BUARQUE, assim, em letras garrafais como na capa da edição da Companhia das Letras. Confesso que, naquele momento, me senti o pior leitor do mundo. Fui negligente na leitura ou sou burro mesmo?
Aos poucos fui repassando o enredo na minha memória. Em minhas mãos estava a história de José Costa, um consagrado escritor fantasma que conhece a Hungria devido a um pouso forçado. Apesar dos pouquíssimos dias no país, o personagem cria uma ligação forte com a capital Budapeste e com o idioma falado. Em meio às viagens constantes, Costa escreve textos brilhantes e sempre os presenteia para outros autores, os quais levam o mérito das obras. Já no fim, Costa é presenteado com sua biografia elaborada por outro autor fantasma e acaba se tornando famoso pelo livro que não escreveu.
Voltei a fitar o livro e arrisquei hipóteses. Budapeste, cheguei a conclusão, se confunde com romance e crítica. A obra explana a vida de um escritor anônimo ao mesmo tempo em que condena a efemeridade e banalização da literatura atual. É uma história dentro de outra história, já que as aventuras de Costa são narradas no livro de Chico e também na biografia do personagem.
A crítica do compositor, porém, acaba se perdendo em meio aos protagonistas rasos. Não sei se intencionalmente, a construção do psicológico dos indivíduos não é bem articulada e os fatos se sucedem de forma fria, beirando o inverídico. Fatores que, consequentemente, contribuíram para o meu não entendimento da obra.
Mesmo assim, munido de argumentos, ainda me pergunto se não sou eu o errado da história. Porque, né, estamos falando de Chico Buarque.