CAPÍTULO 5 — Almost Every Day Now
(Rick’s POV)
Fiquei mais tempo do que devia naquela cadeira.
Depois que a mão dele encostou na minha, mesmo de leve, mesmo por acidente ou impulso ou provocação, ou fosse lá o que tivesse sido, eu perdi o tempo. O silêncio que veio depois pesava. Não era confortável. Não era agressivo. Era só... cheio. Como se, por um instante, tudo o que não dissemos estivesse pairando entre nós, empilhado, amontoado, implorando para ser nomeado. Mas eu não disse nada. Ele também não. E quando me levantei, já escurecia. Saí sem me explicar, mais confuso do que quando entrei.
Passei os dias seguintes tentando fingir que nada tinha acontecido. Mandei Logan buscar a viatura quando ficou pronta. Dei ordens claras, diretas, profissionais. — Só pega o carro e agradece o mecânico por mim — foi o que disse. Como se "o mecânico" não tivesse deixado minha cabeça um caos. Como se aquela oficina não tivesse virado um ponto de colisão dentro de mim.
Evitei passar por lá. Evitei até cruzar a rua quando o via de longe. No mercado, uma vez, entrei e vi Negan no caixa, terminando de pagar alguma coisa, e então fingi atender o telefone e saí antes que nossos olhares se encontrassem. Outra vez, ele caminhava na mesma calçada. Eu atravessei pro outro lado com tanta pressa que quase tropecei num hidrante. E ainda assim, ele não me seguia. Não insistia. Só... aceitava. Doía mais por isso.
Duas semanas depois, a viatura engasgou de novo. Nova pane. Mesma estrada, então mandei levar pra oficina, e a resposta veio gelada:
— Negan recusou. Disse que não vai mexer. — Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Como assim, recusou? —
— Só disse isso, chefe. Que não mexe mais e que é pra levar em outro lugar. — disse o garoto. Na segunda vez, tentamos de novo. Mesma recusa. Na terceira, deixaram a viatura no pátio da oficina. Ninguém apareceu. Nem Negan, nem os outros. Ficou lá, no sol, por quase uma semana. Abandonada. Assim como ele devia estar se sentindo.
Eu aguentei o quanto consegui, mas quando o calor começou a castigar de novo e nem o ventilador da delegacia dava conta do suor nas costas, alguma coisa em mim estalou. Saí sem avisar, peguei a caminhonete velha que ainda andava, e fui até lá.
A oficina estava aberta. Portões escancarados, o ronco de algum motor ao fundo, cheiro de óleo e metal aquecido pelo sol, mas ele não apareceu. Entrei com passos que tentavam parecer seguros, mas que denunciavam a pressa de quem não queria pensar muito. — Negan? — chamei, voz firme, mas baixa.
Ele surgiu atrás do carro mais ao fundo, um pano jogado no ombro, óculos de proteção sobre a cabeça. Não disse nada de imediato, só me olhou como se decidisse ali mesmo se valia a pena me ouvir.
— O que tá acontecendo? — perguntei. — Por que recusou pegar a viatura? — Ele deu uma risada curta, sem humor, e continuou limpando as mãos, os dedos sujos de graxa pressionando o pano com força.
— Engraçado você perguntar isso agora. E eu achando que o xerife nem lembrava que eu existia. — ele dizia sem nem olhar para, limpar as mãos com o pano sujo parecia mais interessante.
— Não é sobre isso. — Respondi o encarando.
— Não? — Ele largou o pano sobre a bancada com um estalo seco. — Porque da onde eu tô olhando, parece bem isso. Evita minha sombra na rua, atravessa a calçada, manda os outros me agradecerem como se eu fosse um maldito balconista de posto... mas aparece aqui querendo que eu mexa no carro? —
Fiquei em silêncio. Sabia que qualquer palavra errada podia transformar aquilo em algo pior. — Eu só achei que era melhor dar espaço — tentei dizer, mas a frase saiu fraca. Fraca como eu me sentia desde aquele maldito toque.
— Espaço? — ele repetiu, rindo de novo, só que agora havia raiva embaixo da risada. — O problema não é o espaço, Rick. O problema é que você age como se eu nunca tivesse estado ali. Como se nada tivesse acontecido naquela porra de noite. Como se eu fosse... Uma distração conveniente para um homem confuso demais para encarar o que sente quando o mundo não tá olhando. — Ele realmente não se segurou e eu deveria saber que isso poderia acontecer.
— Não é isso. — Falei, tentando amenizar.
— Então o que é? — Ele me encarava enquanto esperava uma resposta, mas eu não sabia o que responder e ele percebeu.
— Olha... eu passei a vida inteira sendo empurrado pro canto. Tive que conquistar cada porra de metro que ocupo nesse mundo e eu não vou ser o brinquedo emocional de ninguém. Muito menos de alguém que se esconde atrás de uma estrela dourada e só aparece quando o motor dá defeito. — Ele parou, respirou fundo, seus olhos vermelhos, talvez de raiva, talvez de outra coisa.
— Se você não é homem o suficiente pra trazer o carro até aqui, pra olhar na minha cara, pra lidar com o que quer que esteja remoendo aí dentro… então ótimo. Fica na sua, porque eu também sei ignorar, Rick. E, acredite, quando eu ignoro... eu não volto atrás. — Ele virou as costas. Voltou pro carro, mergulhou de novo no motor como se eu não estivesse ali.
E eu, parado naquele chão quente e sujo, me senti como a porra da viatura que ele se recusava a consertar. Quase inteiro por fora, mas quebrado por dentro de um jeito que ninguém queria tocar.











