Capítulo 27
Vasculhei minha mente o máximo que pude para tentar distinguir de onde eu conhecia a garota que estava parada na minha frente. Mas não encontrei respostas. Ela parecia ter saído dos meus sonhos.
Olhando para os olhos cor de mel, que se destacavam na pela branca e macia da garota, minha mente viajou por vários lugares onde eu com certeza a colocaria e a fotografaria. Ela era linda. Tinha um cabelo castanho, com algumas mechas claras. Liso, seguindo perfeitamente a postura ereta que ela tinha. Meu olhar fotógrafo parou de analisá-la e lembre que precisava continuar nossa pequena conversa.
- Eu saí atrasada – brinquei – onde você esta indo?
- Preciso encontrar meu quarto e deixar essas coisas lá.
- Eu vou te ajudar.
Antes que ela respondesse eu comecei a pegar as caixas e subir os degraus, ela pegou a mala e começou a me acompanhar. Olhei no cartão dela e percebi que seu quarto era de frente para o meu, a ajudei entrar e coloquei as coisas na cama.
- Meu nome é Hanna. – Lembrei-me de me apresentar.
- Eu sei quem você é. – Respondeu sem graça – eu sou Mindy.
- Eu não sei quem você é. Bom eu acho.
Ela riu e começou a guardar algumas coisas rapidamente no armário. Eu aproveitei para espiar a vista da janela do quarto de lá. Consegui ter uma visão imensa da piscina, das quadras e da academia. Era muito bonito também.
- Você me conhece porque eu sou filha da Paloma? – Perguntei descontraída.
- Na verdade, eu ouvi dizer que você é a melhor amiga da Rafaela, e todo mundo sabe quem ela é.
- Melhor amiga. É, pois é – Falei vagamente.
Ela ficou me observando por alguns minutos.
- É um pouquinho mais que isso né?
- Vai me dizer que você ouviu isso também? – Perguntei séria.
Ela pareceu se sentir mais constrangida do que já estava.
- Na verdade foi ela quem falou – Ela tinha voltado a guardar as coisas.
Eu não respondi. Não queria saber das coisas que a Rafa fazia ou falava estando longe de mim.
- Eu também conheço a Paloma. – Ela disse simplesmente.
Eu sorri de volta, se eu respondesse iríamos voltar para o assunto do qual eu acabara de sair. Esperei que ela guardasse tudo e começamos a descer de novo. Dessa vez com mais cautela. Descobri que ela era bailarina, e contei que eu era fotografa. No meio percurso de descer as escadas fez com que parecêssemos que nos conhecíamos há décadas, marcamos inclusive um ensaio no dia seguinte antes dos shows começarem. Eu iria adorar fotografar ela naquele lugar lindo, só conseguia pensar que eu teria o portfólio mais incrível da minha região.
Saímos dos dormitórios e começamos a atravessar o extenso gramado até os portões do show.
- Ei Mindy – Uma voz masculina gritava, ela olhou para trás e o menino continuou – Você sabe cadê o pessoal?
Ela parou de andar e eu automaticamente também parei. Observei que o menino ruivo se aproximara de nós com um sorriso debochado no rosto.
- Não vi não. – Ela respondeu seca – acabei de chegar.
Ele me olhou de cima em baixo.
- Você sabe fazer amizades não é mesmo? Poderia me apresentar. A não ser que você...
Ela deu uma risada forçada e virou de costas para ele. Ele não terminou a frase, porém eu não gostei do jeito desconfiado que ele estava nos olhando. Dei as costas também e continuei acompanhando-a.
Percebi a silhueta da Rafa ao longe, e a julgar pelas outras, estava com os meus amigos. Senti-me aliviada por isso. Quando cheguei mais perto percebi que ela segurava um copo de bebida, todo o meu alivio foi por água abaixo.
- O que é isso? – Ela perguntou incrédula.
Pelo jeito arrastado que falava, aquele não era nunca o primeiro copo que ela bebia.
- O que? – Eu perguntei sem entender nada.
- O que você ta fazendo? – Ela perguntou brava.
- Te procurando.
Ela se aproximou da Mindy com um misto de ironia e raiva no olhar.
- Fica longe dela. – Ela falou entre dentes.
- Ela não é propriedade sua, e para a sua informação eu não planejei isso. Não sei por que você não gosta de mim, mas a sua melhor amiga é bem diferente de você.
Ela continuou andando em direção a Mindy e eu percebi que precisava entrar na frente.
- Para com isso Rafa, você ta chamando atenção de todo mundo.
Ela não sorriu, nem mudou a feição.
- É bom mesmo para todo mundo ver que você não está livre por ai. – ela falou em voz alta.
Eu fiquei completamente perplexa. Não entendia esse tipo de atitude vindo dela. Eu a puxei pelo braço.
- Ta bom, a gente conversa depois. – Comecei a puxa-la.
Antes de se afastar ela conseguiu derrubar propositalmente a bebida em cima da menina. Eu poderia parar e olhar para cara dela até ela começar a se explicar, ou pedir uma explicação, mas achei mais cabível continuar andando. Ela não era ela e aquela não era uma boa hora para conversar.
- Eu não gosto dela Hanna. – Ela falou firme.
Eu ri.
- Que coincidência, por que eu não gosto nenhum um pouco dessas pessoas que você esta se envolvendo.
Ela suspirou irritada.
- Você só sabe se aproximar das pessoas que eu não gosto.
- Geralmente, você só não gosta dessas pessoas por que elas são fortes concorrentes de palco pra você. E olha que coincidência, por que a Mindy me disse que é bailarina também.
Ela bateu palmas de um jeito irônico, me deu as costas e começou a andar. Eu a puxei pelo braço.
- Para com isso. Não quero brigar com você.
- Eu tenho ciúmes tá legal? E isso não envolve nada do que a nossa vida nos trás, envolve só o que a gente é.
- Rafa – abaixei o tom da voz – eu amo você. É tão difícil entender isso?
- Não – ela falou em um sussurro irônico – principalmente quando você diz tão baixinho para que só eu possa ouvir.
Ela voltou a andar. Ela tropeçou em uma pedra do caminho e cambaleou para o lado. Eu segurei prontamente seus ombros para que ela se equilibrasse.
- Escuta – A envolvi pela cintura – Esquece esse show, vamos fazer outra coisa, mais interessante.
Eu não tinha nem metade do talento que ela tinha para persuadir as pessoas, mas tentei soar o mais sensual e interessada que pude.
- Tipo o que? Dormir? Ver um filme ou ler um livro? Hoje eu não estou muito afim.
Senti como se alguém jogasse um balde de água fria na minha cabeça. Ela começou a se afastar e eu gritei para que ela pudesse me ouvir.
- Quer saber, vai assistir a esse show idiota, por que eu vou fazer outra coisa.
- Beleza, até amanha. – Ela gritou de volta.
Fiquei muito irritada, pensei em xingar, bater, falar alguns palavrões, porém eu simplesmente comecei a respirar fundo até me acalmar.
Comecei a andar no sentido contrario do fluxo de pessoas e procurei pelo Renan. Eu o encontrei perto do balcão de um dos bares posicionados por ali.
- Eu odeio esse show idiota. Que tipo de pessoa grava esse tipo de musica, que tipo de pessoa escuta esse tipo de musica e que tipo de pessoa feito a Paloma e o Fred aceitam colocar esse tipo de musica no festival?
- Esse é um novo tipo de trava língua? – Ele perguntou debochado – só pra eu saber mesmo.
- Esse trava língua se chama: “as dificuldades de um bom relacionamento”. – Peguei o copo dele e virei de uma vez.
Ele olhou para um lado e depois para o outro para se certificar de que não tinha ninguém olhando, depois se aproximou do meu ouvido e falou sussurrando.
- Cuidado, eles tem balcões aqui.
Embora eu achasse a piada ridícula comecei a rir. Dei uma cotovelada no peito dele para que ele se afastasse.
Passei o show inteiro naquela área com o Renan, que por coincidência estava sem a Mari. Hora ou outra a Lahis aparecia e fazia a gente beber alguma dose de algum drink maluco com ela. Mal vi a noite passar, assim como também mal vi que eu já tinha alcançado um gral consideravelmente perigoso.
Decidi voltar para o quarto e dormir. E foi o que fiz, dormi, dormi e dormi.
Acordei com a luz do sol na minha cara, e uma ligeira dor de cabeça. Olhei para o lado e só a Lahis estava no quarto. Procurei pelas horas, mas não encontrei. Decidi sair do quarto e procurar por remédios.
Parece que eu dormi bastante por metade do alojamento estava de pé. Ouvi ao longe o barulho da piscina, e alguns monitores estavam fechando grupos para fazer trilhas e brincar na tirolesa.
Não achei nenhuma plaquinha que informava a enfermaria. Passei pelo restaurante e pude ver a Rafa tomando café com algumas pessoas. Eu dei um passo rápido para o lado para que ela não pudesse me ver e me dirigi para a parte de trás do alojamento. Sentei-me em uma pequena ribanceira que tinha a visão para as piscinas.
- Tudo bem se eu sentar aqui? – A mesma voz suave de sempre.
Olhei para a Mindy de pé ao meu lado com certa dificuldade por causa do sol. Sorri e fiz que sim com a cabeça.
- Eu sinto muito por ontem à noite, eu...
- Relaxa – Ela me interrompeu – Isso acontece sempre comigo.
Levei alguns segundos para entender que ela estava brincando.
- Você está bem? – Ela perguntou prestativa.
- Acho que estou com dor de cabeça. – Falei com a mão na testa.
Ela riu.
- A enfermaria serve comprimidos para curar isso. Por que você não vai lá.
Voltei a olhar as pessoas a minha frente.
- Tenho fobia a sangue. – Falei brevemente – Fiquei sabendo que algumas pessoas se machucaram ontem, não quero acabar desmaiando por lá caso eu veja algo suspeito.
- Sério? – Ela começou debochar, mas como eu continuei seria ela entendeu que era verdade – Então eu vou com você. Vamos lá, você espera do lado de fora e eu pego o comprimido lá dentro.
Mais uma vez precisei observa-la para entender que ela não estava brincando.
- Isso iria ser incrível. Sério, valeu. – Me levantei.
Dei a mão para ajuda-la a levantar. Virei meu corpo e dei de cara com a Rafa.
- A onde vocês vão? – Ela perguntou firme outra vez.
- Na enfermaria. – Respondi rápido.
O desdém nos olhos dela se transformou em preocupação.
- Eu vou com você.
- Não precisa, ela já se disponibilizou – Fiz um olhar de indicação para a Mindy que estava ao meu lado.
Ela olhou para a Mindy com a mesma fúria da noite anterior.
- Suas fãs estão te chamando – Apontei por sobre o ombro dela.
Ela suspirou cansada.
- Eu preciso ensaiar. – Soou como uma desculpa.
Eu sorri, dei um passo para o lado e continuei andando. Escutei alguns passos ao meu lado e era da Mindy.
Nós fomos à enfermaria e ela realmente fez o que disse que fazer. Na verdade, ela fez muito mais que isso. Ela era quase que uma Rafaela dois, por onde passava as pessoas sabiam quem ela era e o que ela era, pelo jeito eu estava atrasada mais uma vez.
Tive a brilhando ideia de subir na torre do relógio que eu tanto queria e ela topou. Saímos um pouco da aérea do alojamento, atravessamos os portões de segurança e subimos lances e mais lances de escada ate que finalmente eu cheguei.
Eu não sei quem ela era, e da onde ela havia saído, mas aquele lugar, que estava diante dos meus olhos com certeza saiu dos meus sonhos.
















