Capítulo 26
O Renan foi à viagem inteira em silencio. Ele estava mais apreensivo do que eu, e embora eu me esforçasse não consegui entender os motivos. Estávamos indo de carona com o Pablo, ele ia me levar apenas para me acompanhar e eu precisei arrumar uma desculpa absurdamente boa para que o Renan não ficasse fazendo perguntas.
Ele nos deixou no portão de entrada e partiu, sem falar nada.
Ali era mil vezes melhor que o acampamento. A entrada só era permitida para maiores de dezoito anos, que assinassem um termo de compromisso de que tinham plena consciência de que estavam ali por que queriam e que a equipe do evento não teria qualquer responsabilidade pelo que acontecesse depois dos shows. É claro que havia muitos seguranças e um ambulatório mil vezes maior que do acampamento, mas o contrato só resumia que iria haver bebidas alcoólicas no evento.
Entregamos nosso convite especial na portaria e ganhamos nosso cartão. Com aquele cartão tínhamos acesso livre a tudo que o alojamento disponibilizava.
Como eu tive um ensaio antes, nós chegamos um pouquinho mais atrasado que os outros. O alojamento parecia um verdadeiro palácio. Era enorme, parecia um conjunto de prédios sofisticados um ao lado do outro. Ao lado do prédio havia um relógio enorme, igual aqueles da torre da igreja. Marquei na mente para subir lá em cima e observar a vista assim que houvesse tempo.
Nossas bagagens já haviam sido levadas para os quartos então nós começamos a explorar o local sem se preocupar. Avistei ao longe as muralhas que dividiam o alojamento do local do show, assim você não precisava ficar no local para ir algum show, era aberto para todos, dormir ali era uma espécie de pacote, ou você pagava só o ingresso ou pagava o conjunto completo.
À medida que andávamos percebi que o Renan recebia três olhadas por segundo, pensei em brincar com isso para descontrair o clima, mas preferi ficar quieta.
Ele parou abruptamente e eu consequentemente também parei.
- O pai dela está aqui. – Ele falou assustado.
Segui o olhar dele e encontrei a Mariana com o pai e a mãe. Eles pareciam estar se despedindo.
- Você não falou com o pai dela? – Perguntei perplexa.
Ele não respondeu. Ele vestia uma camisa de botão de manga comprida azul, uma bermuda branca, um tênis qualquer e um boné de aba reta, e para completar o look tinha um belo de um alargador na orelha. Ele era lindo na minha percepção, mas para os pais da Mari ele não passava de um marginal.
- Renan, por que você não falou com os pais dela? – Perguntei de novo.
Ele demorou mais alguns segundos antes de responder.
- Olha pra ela – Ele esticou a mão na direção em que ela estava – É uma princesa.
Eu voltei a observa-la. Ao contrario dele, ela estava impecável. Pronta para uma festa de gala. Usava um vestido simples, mas sofisticado, caprichou nos detalhes, como brincos, colar, pulseiras e anel. Ele tinha razão, parecia uma princesa.
- Como é que você entende meus sentimentos pela Rafa, se tem um preconceito com o seu? Que diferença faz, o amor não escolhe tamanho, idade, personalidade. Deixa de ser covarde.
Ele me olhou, tentado fazer o jeito debochado voltar.
- Talvez seja eu quem não queira. Quer dizer, eu a amo muito, mas... Eu não estou preparado para mudar minha vida e minhas vontades para enfrentar o preconceito dos pais dela.
Toquei o braço dele gentilmente.
- Não vai mudar a sua vida. Ela merece isso, e você também.
Ele ia responder alguma coisa quando algo atrás de mim chamou sua atenção. Virei outra vez na direção em que ele olhava, e descobri que o que chamou sua atenção foi os meninos. Gustavo, o Ramon e o Diego estavam vindo na nossa direção.
- Por que eles estão com o Diego – Ele perguntou irritado – Por que todos vocês agem como se ele não tivesse feito nada. Por que você o perdoou?
Quase disse que iria fazer o mesmo que ele, mas escolhi outras respostas.
- Tem que dar uma chance a ele. Se a sua mãe estivesse viva, e te pedisse para mudar todo o seu conceito para conquistar a Mari, você o faria sem falar nada certo? – Ele não respondeu – Só a um sentimento no mundo que não mede barreiras, não pede explicações ou qualquer coisa do tipo. De mãe e filho.
Pisquei pra ele por fim, e o deixei lá, sozinho. Segui na direção da Mari que agora estava sozinha, ela me viu chegando e me recebeu com um enorme sorriso.
Eu lhe dei um abraço carinhoso.
- Senti tanto a sua falta – ela falou baixinho – eu sinto a sua falta, constantemente.
- Eu também. – Falei assim que a soltei – Vai por mim, é uma tortura conviver com o Renan nessas épocas que você esta longe.
- Eu tenho tanta coisa para te contar, para perguntar.
- Eu também Ma, esse lugar é incrível né? – olhei ao redor – Você acha que é muita pouca conversa para eu já perguntar onde a Rafa está?
Ela deu uma gargalhada e depois colocou a mão no meu queixo gentilmente e virou minha cabeça para o lado. Avistei a Rafaela a uns sete metros de mim, envolvida em algum tipo de conversa com a Lahis e mais algumas meninas que eu nunca vi antes.
- Vamos lá? – Perguntei já andando.
Coloquei o colar para dentro da blusinha que usava para que ele não brilhasse assim que eu me aproximasse. Cheguei perto dela, puxei o colar para fora, e por trás tampeis seus olhos com as mãos. Nosso colar soltou um raio de flash, circundou todo o metal e depois parou no pingente. Ela começou a rir.
- Não é justo, com um colar desses até eu saberia – A Mari comentou chegando atrás de mim.
- Como se elas precisassem desse colar para saber que quando uma esta por perto. – Comentou a Lahis brincalhona.
Eu ri, antes mesmo que pudesse responder ela estava me abraçando.
O cabelo preto escuro tampou minha visão.
- Até que fim você está aqui. Como nos velhos tempos. – Ela falou me sufocando.
Sem falar nada, dessa vez foi a Rafaela quem me abraçou, de leve, sem muito aperto ou dramatização. Nosso abraço durou um pouquinho mais do que das outras meninas.
- É bom te ter por perto – Ela disse por fim.
Eu apenas sorri. Olhei para as outras meninas, e quando eu ia me apresentar a Lahis puxou meu corpo todo, obrigando que fizesse um giro e ficasse de costas para todas.
- Preciso de um favor – Os olhos dela brilhavam.
Eu já vira aquele olhar muitas vezes, sabia exatamente o que ela iria dizer.
- Não, nem vem. – Me defendi – eu não posso mais fazer isso.
- Hanna, dessa vez vai dar certo. Ele quer ficar comigo, mas eu preciso que você vá junto e de um beijinho no amigo dele.
- Por que eu tenho que ficar com o amigo dele para ele ficar com você? Não tem lógica.
Ela suspirou irritada.
- É a lógica masculina. Todos os meninos fazem isso. Pela primeira vez foi ele quem veio falar comigo. Você pode ir e beijar mal, assim ele não vai dar mais em cima de você.
Eu segurei uma gargalhada. Ela estava mesmo desesperada.
- Amiga presta atenção. – Falei seriamente – Não é ele quem quer ficar com você. É o amigo dele que quer ficar comigo.
Ela pareceu considerar a informação por alguns minutos.
- Não importa – O brilho pidão voltou aos olhos dela – Não importa.
Eu abri a boca para responder, mas a voz da Rafa cortou meu raciocínio.
- Ela não vai fazer isso – Ela falou firme – Para com isso, ficar se humilhando por causa dos meninos é feio.
A Lahis esticou a cabeça pelo meu ombro para que pudesse observar a Rafaela.
- Não devia ser tão ciumenta. A Hanna não é sua propriedade.
Eu fiquei muda. Era a primeira vez que eu via as duas tendo qualquer tipo de atrito. Senti o toque suave das mãos da Rafa agarrando meu pulso.
- Ela nunca foi minha propriedade. É bem mais que isso.
Ela puxou forte o meu braço me fazendo dar alguns passos para trás e parar do seu lado.
- Ei, ta tudo bem. Para com isso. – Falei gentilmente – Tem muitos outros gatos por aqui. Vamos nos divertir ok?
O olhar da Lahis começou a dançar de mim para a Rafa, e depois para a nossas mãos. Senti-me constrangida. Não que eu tivesse alguma vergonha dos meus sentimentos, ou das coisas estranhas que vinham acontecendo, é só que elas eram as minhas melhores amigas, não queria que ficasse um clima estranho caso soubessem que estava rolando algo entre mim e a Rafa.
- Tá legal. – Ela disse por fim – Vamos fazer algo divertido então?
Ela começou olhar ao redor. Voltei a observar as meninas ao nosso redor e perguntei baixinho no ouvido da Rafa.
- Quem são essas meninas?
- Do clube de dança. Mas são as novatas. As minhas amigas estão loucas para conhecer você.
Fiquei surpresa por ela usar as palavras ‘minhas amigas’.
- Desde quando você tem amiga no clube de dança? – Perguntei.
- Desde que você passou a gastar metade do seu tempo com a sua câmera. – Ela disse de um jeito brincalhão.
Nós fomos para os quartos. Eu queria checar se as minhas coisas estavam mesmo lá conforme me informaram na recepção. A cada dez passos que dávamos as meninas paravam para cumprimentar alguém. Achei que o problema era só a Rafa, mas o Renan tinha razão. A Mari e a Lahis também fazia parte. Senti-me na escola outra vez, onde os alguns grupinhos mandavam mais que outros, só que aqui, não era a escola, era a verdade.
Meus sentimentos variavam entre raiva, ciúme, decepção e surpresa. Era obvio que ninguém daquelas pessoas que ficavam indo atrás das meninas gostava delas por quem elas realmente são. Envolvi status, dinheiro e onde elas poderiam te colocar: em uma lista vip, na primeira fileira do teatro ou te fazer ganhar milhões de curtidas nas redes sociais.
Desejei baixinho para que o nosso quarto chegasse logo. Havia um elevador que nos levava para os andares desejados, mas eles estavam cheios de pessoas que iam e vinham, por isso comecei subir as escadas. Nós ficávamos no quinto andar, em um dos últimos quartos. Quando finalmente subi o ultimo pavilhão e entrei pela porta de emergência, me deparei com um enorme corredor. Havia varias portas, de madeira ao longo desse corredor. Deduzi que levavam aos quartos.
As meninas foram andando até a última porta e eu as acompanhei, até que finalmente chegamos.
Ao contrario do acampamento que as camas pareciam formar um circulo uma em torno da outra, nesse lugar as camas eram seguidas, uma ao lado da outra. O quarto era retangular e havia além do banheiro uma sacada, com uma vista linda do extenso espaço dedica aos shows.
- Quais são as bandas? – Perguntei em voz alta enquanto observava a vista.
- No primeiro dia é Indie, no segundo sertanejo e para fechar rock, nacional e internacional.
Senti uma leve pontada de decepção. Não gostava de indie e muito menos de sertanejo.
Entrei no quarto e comecei a colocar algumas das minhas coisas no criado mudo ao lado da minha cama. Notei que havia cinco camas, quando nós estávamos em quatro.
- De quem é essa cama? – Perguntei desconfiada.
- De ninguém. – A Mari falou – digamos que de visita.
Eu me deitei na minha cama e suspirei, não percebi o quanto eu estava cansada.
- Você está acabada, se não descansar não vai aguentar os shows de hoje. – Disse a Lahis prestativa.
Balancei a cabeça em consentimento e fechei os olhos. Escutei-as se movimentando pelo quarto.
- Ok então, eu vou procurar pelo meu gato de botas e vou levar a Lahis junto. Esperamos vocês no portão principal na hora do show. – a Mariana nos avisou.
Escutei quando a porta se fechou e abri os olhos para me certificar de que a Rafa ainda estava ali.
- Será que você me aceita um pouquinho ai do seu lado? – Ela falou baixinho.
Eu sorri e arrastei meu corpo para a beirada da cama para que ela pudesse se deitar.
- Como estão as coisas na sua casa? – Ela perguntou depois de um tempo deitada ao meu lado.
- Tudo bem. Minha mãe está na casa do meu irmão, cuidando do meu sobrinho e bom, meu pai esta viajando a negócios.
- E a Paloma?
- Estamos bem também.
Senti meu coração apertar ao lembrar das coisas que eu teria de fazer antes do fim desse evento.
- E aqui?
Ela deu uma risada abafada.
- Um conto de fadas. Eu finalmente estou sendo reconhecida pelo que faço. As pessoas me admiram e algumas inclusive se espelham em mim. Isso é demais.
Refleti por um minuto.
- Desde quando seu sonho foi fazer fama? Pensei que era estudar, e ajudar quem precisa.
- Isso não é fazer fama – Ela se defendeu – isso é ser reconhecida. Coisa que eu nunca fui. Nem a minha opção sexual atrapalha sabia? No mundo da arte nós somos livres para nos expressar como bem entender.
- Que bom Rafa. – Respondi.
Ela se virou de lado para que pudesse ficar de frente para mim.
- Me promete que nada vai mudar? Que nada nunca vai mudar o que há entre a gente.
Minha garganta secou. Não queria fazer esses tipos de promessa agora, não que eu não queira que nada nos mude, mas isso só iria dificultar a tarefa que eu teria de fazer dali alguns dias.
- Eu prometo. – Falei baixinho em fim.
Ela sorriu, radiante.
Nós ficamos um tempo em silencio, no nosso incrível silencio reconfortante, em questão de minutos senti minha consciência se desprendendo do tempo real.
- Hanna? – Abri os olhos assustada.
- Oi?
- Ta dormindo? – Ela perguntou baixinho.
Bocejei sonolenta.
- Estava quase.
- Se importa se eu me arrumar e esperar por você no portão principal?
Fiz que não com a cabeça e voltei a relaxar o corpo. Não a senti se mexendo, mal notei quando ela pulou para fora da cama e depois para fora do quarto.
Só percebi o tempo que eu dormira depois que acordei. Olhei no relógio em cima da cabeceira e me assustei. Eu estava muito atrasada. Então, comecei a correr.
Troquei de roupa e me olhei no espelho, na minha percepção eu estava apresentável. Resolvi descer. Eu estava dando voltas, a escada era praticamente em espiral então comecei a descer os degraus de dois em dois, não tinha mais ninguém lá e é provável que eu fosse à única em toda a estrutura do alojamento.
Mal terminei de virar um bloco quando esbarrei em alguém. Derrubei todas as caixas que a pessoa carregava no colo.
- Mil desculpas, eu achei que não tinha mais ninguém por aqui. – Falei rapidamente.
Percebi que alem das caixas terem ido ao chão a pessoa que as carregava também foi.
- Eu também achei que não tinha mais ninguém por aqui. Cheguei atrasada. – Uma voz suave chegou aos meus ouvidos.
Quando a pessoa que eu quase matei acidentalmente conseguiu se levantar, eu mal podia acreditar no que estava vendo.














