Capítulo – 08 / Nos braços de Tiago
Tiago se apressou antes que Aurora mudasse de ideia e foi correndo chamar a médica.
- Drª Luciana, por favor. – disse para a enfermeira que estava acabando de entrar na sala dos médicos.
- Só um minuto. – enfermeira. – Posso saber do que se trata?
- Paciente Aurora Carvalho. É sobre a alta dela.
- Ah, claro. – confirmou.
Não demorou muito e a médica saiu.
- Aconteceu algo, rapaz? – perguntou, enquanto colocava suas mãos nos bolsos.
- Sim, a Aurora não quer mais ficar aqui... Ela decidiu que vai pra casa, comigo. E queria saber se a Drª não pode apressar as coisas, caso ela mude de ideia.
- Pode deixar, rapaz... Vou buscar a ficha dela e o papel da alta. Vou te receitar uns remédios caso ela sinta dor... A pancada na cabeça foi muito forte e pode acontecer dela sentir dores pela noite. – disse a médica, que logo entrou na sala, novamente.
Não demorou, e médica já estava de volta. Com os papéis em mãos, ela os entregou à Tiago. Ele assinou a alta de Aurora com ansiedade... Estava apressado para sair daquele lugar.
- Aqui. – disse a médica, entregando a receita médica para Tiago. – Tem remédios meio caros... Mas fiz a gentileza de disponibilizar alguns que estão no estoque do hospital. Pegue essa receita, vá até o almoxarifado e entregue isso à Francisca. Ela vai saber o que fazer.
- Muito obrigado, Drª Luciana... Não sei como agradecer, ando meio “apertado”, sabe? – disse, sem jeito.
- Não tem problemas, Tiago... Cuide bem da sua amada. – sorriu.
- Amada? – perguntou surpreso. – Não, não é amada... É só uma amiga. – Sorriu com os olhos.
Luciana sorriu, segurou no braço de Tiago e falou: - Com todo esse cuidado, fica difícil acreditar que seja só uma amizade.
Tiago ficou sem jeito, olhou para baixo e não pôde esconder o quanto aquilo mexia com ele.
- Não sei... Ainda estou para descobrir. – disse Tiago, que continuou. - Não tomando muito o seu tempo, Drª... Mas tem algo que eu deva dar mais atenção em relação à Aurora? Alguma dor específica, ou algo do tipo? Nunca cuidei de pessoas acidentadas.
- Bom... O que mais me preocupa, são as dores de cabeça dela, pois a batida foi muito forte. Mas já fizemos os exames, e não há sequelas. Vai doer por um bom tempo, mas não é nada de grave. Se caso começar a doer muito, algo insuportável, aí sim, você deve se preocupar. Ligue pra emergência e a interne logo, ouviu, Tiago?
- Sim, não se preocupe. Não quero que mais nada de ruim aconteça com ela. – sereno.
- E trate de não errar os horários dos remédios. Eles são muito importantes! E quanto às pernas dela, sempre faça massagens, pra não atrofiar mais rápido do que o normal. Fique atento, se ela sentir dores na coluna, vire-a de bruços e comece com uma massagem de leve. Ah, e se der pra pagar alguém para fazer fisioterapia nela, seria ótimo. – explicou tudo, seriamente.
Tiago limpou a garganta com algumas tossidas, e tentou absorver tudo em sua cabeça.
- Fisioterapia? Será que funciona?
- Tiago, você não pode de acreditar. Mostre-a segurança.
Tiago se preocupou, já estava meio sem dinheiro. Fez uns cálculos rápidos em sua cabeça, e viu que tinha sobrado muito pouco.
- Drª, você conhece alguém possa fazer isso? Quer dizer, num preço legal? Porque estou meio sem dinheiro, não estou podendo gastar muito.
Luciana cruzou os braços e começou a pensar. Não demorou muito, e logo deu uma resposta: Acho que conheço sim... Dou aula numa faculdade, e estou formando novos profissionais da saúde. Se não me engano, há uma turma de fisioterapia que está pra se formar. Vou procurar saber se tem alguma aluna interessada, está bem?
Tiago se animou com a ideia... Achou uma boa, e com certeza, iria sair bem mais barato.
- Mas como vamos fazer pra que ela entre contato comigo? Telefone?
- Sim... – disse a médica. – Me passe o seu número do celular, aí faço a tal pessoa entrar em contato contigo. Pode ser?
- Claro! – animado.
- Não vai ser difícil de encontrar, porque a fisioterapia da Aurora é bem simples.
Tiago passou seu número para Luciana, e estava ficando mais animado, pois estava tudo dando “certo”. Ficou curioso pra saber o porquê da Drª está o ajudando tanto. Tão curioso que quase chegou a perguntar... Só não perguntou, porque achou antiético.
Luciana interrompeu os pensamentos de Tiago, como se estivesse lendo-os: - Pela sua expressão, você deve estar se perguntando o porquê de tanta ajuda da minha parte, não é? – sorriu.
Tiago se assustou com a pergunta, pois soou assustador. Parecia que Luciana tinha lido sua mente.
- Sim... – assentiu com a cabeça. – Desculpe ter que perguntar isso, sei que é antiético... Mas por que está me ajudando tanto?
- É o meu trabalho, Tiago. Sinto prazer em ajudar as pessoas...
- Ah... Você é uma boa pessoa. – disse Tiago.
Luciana quase o interrompeu: - Mas vi algo de diferente em você.
Tiago fez uma cara de quem estava curioso. E realmente, ele estava.
- Diferente...? Como assim? – perguntou.
Luciana sorriu, mas dessa fez foi diferente... Ela sorriu com a alma.
- Venha comigo, rapaz.
Tiago ficou sem entender nada, mas mesmo assim, acompanhou Luciana. Os dois entraram em algumas portas e logo estavam num corredor. Tiago reconheceu o lugar, era o corredor das pessoas que estavam no coma.
A moça de branco seguiu na frente. No meio do corredor, ela levantou suavemente o braço e começou a apontar para os leitos.
- Está vendo todos esses leitos com pessoas...? – perguntou Luciana.
Tiago ainda sem entender nada, respondeu: - Sim.
- Já reparou que quase todos estão ocupados?
- Sim, reparei.
- Tiago, passo por aqui todos os dias... Todos os dias, mesmo! E sabe, fico muito triste em ver as pessoas sozinhas. É raro de ver algum familiar por aqui... É tão desumano. Desacreditam. – respirou fundo, e continuou: - Na semana que sua amiga estava no coma, passei por aqui todos os dias, sem falta. E em todos os dias, te vi por aqui. O cuidado que você tem por essa moça é bem especial. Fico feliz por saber que existem pessoas assim como você no mundo em que vivemos. Eu particularmente gostei de você. Não te conheço, não mesmo... Mas por suas atitudes, vi que é uma boa pessoa. Você seria um ótimo médico... – sorriu carinhosamente.
Luciana sentou numa das cadeiras de espera. Olhou para Tiago, e por educação, ele também sentou. A moça deu uma olhada rápida em seu relógio, e viu que tinha alguns minutos sobrando e relaxou um pouco.
Tiago não sabia como agir, e tentou continuar com a conversa: - É estranho... Não tem nem um mês que conheço a Aurora, e parece que já estou apaixonado por ela. Tudo aconteceu tão depressa. Estou encantado por ela e também meio culpado...
Luciana olhou para Tiago, e curiosa perguntou: - Culpado? Por quê?
- Se ela não tivesse ido pra minha casa naquela noite, Aurora estaria bem. E ao invés de estarmos num hospital, ambos estariam em suas respectivas casas.
- Mas você não tem culpa de nada... Tudo acontece por um acaso. – disse Luciana séria.
- Está aí uma coisa que estou tentando por na minha cabeça. “Tudo foi por um acaso”. – disse Tiago, já de cabeça baixa.
Luciana olhou para seu relógio de novo, viu o que seu tempo estava se esgotando e se apressou: - Meu jovem, preciso ir. Tenho que ir trabalhar e você também, não é?! – sorriu.
Tiago também se apressou em se levantar da cadeira.
- Ah, sim! Drª, nem sei como te agradecer... Você me ajudou muito.
- Nem precisa agradecer. Apenas seja sempre assim, simples e bonito.
Tiago ficou sem jeito.
- Você já tem tudo em mãos. Vá ao almoxarifado pegue os remédios e leve a sua amada pra casa. – disse Luciana, estendendo a mão.
Tiago estendeu a mão também, e a segurou firme. – Muito obrigado, Luciana. De verdade!
- Já disse que não precisa agradecer. Vou conseguir uma fisioterapeuta pra sua amiga. Pode ficar tranquilo, tem a minha palavra. – olhou para o relógio, de novo. – Agora tenho que ir mesmo. Se cuide Tiago, se acontecer algo de grave, corra pra cá. Tchau. – deu as costas.
- Tchau...
Luciana se apressou, estava um pouco atrasada, mas nada arrependida de gasto seu tempo com o rapaz. Tiago já estava no fim do corredor, indo em direção ao almoxarifado. Antes de entrar no outro corredor, Luciana olhou para atrás e viu Tiago dobrando a esquerda. Parou um pouco, sorriu sozinha e pensou: - Bonito.
Louco para sair daquele hospital, e com os remédios em mãos, Tiago foi até o quarto de Aurora. Abriu a porta devagar, com sutileza. Adentrou no quarto e deu alguns passos até à cama dela.
Aurora estava olhando para janela, que ficava do outro lado da porta. Pensativa e distraída, encarava a luz do sol. Ela não aguentava mais ficar naquele lugar. Não demonstrava, mas estava quase desesperada pra sair daquele quarto.
- Psiu. – Tiago.
Aurora virou a cabeça, assustada, pois estava distraída e não tinha visto Tiago.
- Você demorou. – disse Aurora.
- Pensei que você não estivesse tão afoita pra sair daqui.
- Corta essa, Tiago. Odeio hospitais, não me traz boas recordações.
- Então que tal sairmos o mais rápido possível daqui?
- Quero ir pra minha casa... Mas não posso, não é? – perguntou Aurora, com tom melancólico e com uma pequena esperança de Tiago mudar de ideia.
- Ainda não. Primeiro você vai ficar na minha casa... Depois, você se decide. Esse foi o acordo.
- É, eu sei. – fazendo bico sem perceber.
Aurora viu Tiago segurando uns papeis, e perguntou: - Meus exames?
Tiago ficou sem entender, mas logo assimilou tudo. Mostrou depressa os papéis e confirmou: - Sim, seus exames. E a sua alta.
Na outra mão, ele segurava uma bolsa, cheia de remédios.
- E aqui nessa bolsa, são seus remédios. – mostrou.
- Nossa... Tantos assim? – surpresa com a quantidade.
- Não... A médica foi generosa comigo. Além de me doar os remédios - que são caríssimos - ela me deu numa quantidade a mais.
Aurora lembrou que quem estava pagando tudo era Tiago.
- De hoje em diante, eu pago tudo. – disse Aurora com seriedade. Foi com tanta firmeza, que Tiago nem ao menos teve a coragem de dizer “não se preocupe”. – Vou te recompensar por tudo que já fez por mim.
- Você sabe que não precisa... – sendo generoso, como sempre.
- Calado! – Aurora, firme. – Eu pago tudo, você não vai gastar mais nada do seu bolso, isso agora faz parte do acordo.
Por um lado, Tiago se despreocupou em relação à dinheiro, pois já estava ficando sem. Por outro, ele se sentiu reprimido, por Aurora não deixa-lo ser generoso, que sempre foi da natureza dele.
- Está bem... Como quiser. – tímido. – Tenho que ir em casa, arrumar umas coisas por lá. Trouxe umas roupas da Stephanie pra você, e também, já falei com a enfermeira pra te dar um banho. Será que você pode se comportar até eu voltar? Não vou demorar... Acho que volto daqui a duas horas. E volto já pra te levar.
- Tudo bem. – disse Aurora. Preocupada com algo bem pessoal, perguntou: - Tiago... Como pretende me tirar daqui?
- Como assim? – sem entender nada.
- Como pretende me levar daqui... Até a sua casa. De carro? – preocupada.
- Ué, claro... De carro. – sorriu, pois achou a pergunta retórica e engraçada. – Se eu fosse o Peter Pan, te levaria voando, mas não sou. – continuou rindo.
- Putz. – extremamente preocupada.
- É, eu sei... Piadinha sem graça.
- Não, não é isso... É que eu não ando de carro. Não como passageira.
- Por quê? – perguntou Tiago, que se arrependeu no mesmo instante em ver como Aurora ficou incomodada com a pergunta.
- Não estou com paciência para explicar isso. Mas é um trauma meu. Não sinto confiança nas pessoas, não com elas dirigindo.
Preocupado, Tiago pensou numa solução, e não teve êxito.
- Não se preocupe... Vou dar um jeito. Tiro você daqui nem que seja te carregando nos braços. – ousando em passar a mão nos cabelos de Aurora.
“- Espero que dê um jeito. Isso me preocupa muito.” – pensou Aurora.
- Bem... Vou indo, mas antes vou passar na enfermaria e avisar a enfermeira pra te dar um banho. Volto daqui a pouco. Se comporte, por favor.
No caminho pra casa, Tiago começou a bolar uma estratégia de limpeza. Ele tinha que limpar e organizar tudo. Afastar os móveis e deixar a casa mais espaçosa.
Chegando em casa, e com a estratégia já em prática, ele fez tudo o que tinha pra fazer.
Varreu o chão, limpou a cozinha e banheiro. Por último, foi limpar o seu quarto, pois era o lugar mais importante. Aurora ficaria ali, em sua cama.
Organizou seus desenhos que estavam espalhados pela mesa. Limpou embaixo da cama e tirou algumas roupas do seu guarda-roupa, pra dar espaços para as de Aurora. Trocou as cobertas, parou e olhou para os lugares, procurando algo para limpar. Viu que estava tudo limpo e foi direto pro banho.
No banho, Tiago pensou em várias possibilidades e perguntas: “Como ela vai se comportar aqui? Como vou reagir? Será mesmo que estou apaixonado? Vou conseguir?”.
A preocupação de Tiago em relação a dinheiro, tinha a acabado. Ele estava preocupado como iria cuidar de Aurora, já que nunca tinha cuidado de alguém sem os movimentos das pernas e depressiva.
Fez o seu percurso até o quarto e trocou de roupa. Antes de sair de casa, abriu todas as janelas, pra entrar um vento, e o cheiro forte de tinta sair de casa. Casa de pintor é assim mesmo.
Com menos de duas horas, Tiago já estava de volta ao hospital.
“- Até que fim darei ‘tchau’ para esse lugar.” – pensou.
Foi até onde Aurora estava, e ao abrir a ponta, sentiu o doce aroma vindo de dentro do quarto. Provavelmente, Aurora já havia tomado o seu banho.
- E aí, cheirosa. Está pronta?
- A enfermeira parecia que queria tirar o meu couro de tanto me esfregar. Estou toda vermelha de tanto ela passar a escova em mim.
Tiago sorriu.
- E sim, estou pronta. E espero que você tenha conseguido uma solução para o meu tal probleminha lá.
- A do carro? Sim, consegui. – disse Tiago, se aproximando de Aurora.
- Que bom. Mas mesmo assim, estou com receio. Não sei o que me espera.
- Não se preocupe – sorriu com os olhos. – Confie em mim.
Tiago foi até a janela fechou a persiana.
- Bom, é hora de ir embora. O que acha?
Aurora olhou para Tiago, que estava exalando segurança, e com um tom meloso, disse: - Me tira daqui.
Tiago se aproximou da cama, colocou um dos braços sobre as costas de Aurora, e o outro por baixo das pernas e a ergueu. Aurora achou aquela situação meio estranha, mas adorou a segurança que Tiago a passou.
“- Sinto como se nunca fosse cair. Gosto disso.” – pensou Aurora, enquanto estava nos braços de Tiago.
- Segure firme. – disse Tiago.
Aurora se apressou para se segurar firme, mas ela sabia que jamais Tiago a derrubaria. Seus braços entrelaçaram o pescoço do rapaz.
- Não vou te deixar cair.
- Eu sei... – sussurrou Aurora. – Eu sei.