Eu amadureci. E amadurecer é algo que todo eu lírico é capaz de notar, o amadurecimento muitas vezes é sabedoria e até pode mudar a história de um personagem, afinal se o eu lírico amadurecer de um babaca em potência e em potencial, talvez ele se dê bem na vida e consiga um emprego legal e seja feliz, mesmo que os babacas também possam ser felizes sendo babacas.
O ponto é: quando alguém amadurece, não apenas fisicamente, mas psicologicamente, a mente evoluí e algumas ideias deixam de fazer parte do eu lírico — mas nunca morrem, porque nada deixa de existir. As ideias que vão embora podem ser morais, podem ser crenças e princípios, elas tornam o eu lírico mais inteligente ou talvez mais infantil, vai depender do amadurecimento dele, do que ele ouviu e dos discursos que aceitou para si e os reconstruiu como sua verdade — porque todos temos uma verdade, embora ela não seja única e muito menos absoluta.
Acontece que eu amadureci. Alguns pensamentos de quando eu era criança ainda estão aqui, algumas manias, alguns medos, mas muita coisa foi embora ou evoluiu para algo melhor ou pior, algumas ideias não cabem apenas na dualidade do bem e mal.
Com o amadurecimento eu me vi responsável, tanto por mim quanto pelas pessoas que eu amo, como se agora eu entendesse de fato o que é o amor e também o que é você depender apenas de você e ninguém mais. Mas mesmo amadurecendo, eu não tinha (não tenho) um suporte firme para apoiar a mim mesma.
Por isso é estranho escrever sobre isso, pois a adolescente que vivia reclamando da vida, agora se tornou uma pessoa conformada e de frases e esperanças feitas, poucas, mas feitas. Muitas crenças minhas partiram, mas no fundo me lembro delas, então não deixaram de existir. O mesmo com as morais, os medos, a essência e os sonhos, esses que nunca foram e nunca serão realizados.
E eu estou conformada, afinal, talvez amadurecer seja apenas isso, se conformar e nada mais, aceitar que você só é aquilo que pode ser e que onde você está é o máximo que irá chegar e se acomodar, porque você é maduro e entende que muitos sonhos são bobagens, outros são difíceis de se tornar realidade e outros são altos demais para a possibilidade.
Então, me conformei, como um escritor gótico que aceita o seu fim e que o anseia, que é tão pessimista a ponto de desistir de tudo, e eu ainda não desisti de mim, porque eu amadureci e me conformei que viver é empurrar com a barriga, viver do que a gente não gosta, um dia de cada vez, com um fio de esperança de que vai passar e iremos fazer o que tanto queríamos desde sempre.
Eu amadureci e me conformei, mas, as vezes, do nada, eu começo a chorar pelos meus sonhos que praticamente não existem mais, eles que não morreram na minha mente, mas não estão no meu plano de idealização e muito menos no de realização, porque eu já me conformei que eles não vão se realizar e talvez seja por isso que eu amadureci.