Sabe aquele ditado que diz "não há nada tão ruim que não possa piorar"? Pois é, ele é cem por cento verídico e eu posso provar. Eu vou provar, na verdade, porque essa é a finalidade deste livro: contar todas as coisas boas e ruins que me aconteceram nesses últimos meses. Ou seja, contar todas as coisas ruins, porque as boas esqueceram de acontecer.
Primeiramente, vou me apresentar. Meu nome é Thomas Carvalho - e sim, a piadinha do "tomas caralho" é antiga e recorrente -, tenho vinte e quatro anos - e sim, a piadinha do "vim de quatro" também é bastante corriqueira -, e moro em uma cidadezinha pacata e insossa no interior do interior de São Paulo (onde, dizem, o diabo perdeu as botas, as meias, as calças e o look inteiro).
Acho importante mencionar aqui que nem sempre minha vida foi essa desgraça toda que relatarei. Eu era uma criança aspirante a prodígio. Fui duas vezes presidente da câmara de vereadores mirim da minha pequena cidade - um concurso que elegia crianças das escolas da região para que elas "participassem ativamente de mudanças sociais impactantes para a população do município" (as propostas incluíam "substituição dos bebedouros d'água por bebedouros de refrigerante nos colégios", "três horas de recreio" e derivados).
Da primeira à quinta série fui eleito líder de classe cuja função era absolutamente nenhuma, porém era um título a ser ostentado. Nunca tirei menos de um "A+" nos trabalhos escolares do ensino fundamental, sendo que "A+" era a nota máxima. Venci concursos de desenho, de redação, de escrever reportagem para o jornaleco da cidade, de gato da turma - mesmo sendo feio, era determinado e fazia ótimas campanhas trocando lanche por votos -, e tantas outras coisas que eu levaria um livro inteiro para contar.
Tive uma adolescência normal, pintando as unhas de preto, usando roupas tão rasgadas que pareciam panos de chão e me trancando no quarto para ouvir os álbuns Let Go e Under My Skin da Avril Lavigne. Entrei na faculdade aos dezoito anos e tive tanto burnout que troquei de curso seis vezes (e não me formei em nenhum). Foi aí que as coisas começaram a desandar, só que desandar pra valer, como aqueles bolos que você esquece de adicionar fermento e ficam parecendo mousepads depois de prontos.
De criança gênio prodigiosa a um adolescente regular emocore tudo bem. Mas me tornar um jovem adulto extremamente humilhado, cansado, fodido e com sete CIDs psiquiátricos, nenhum dinheiro e zero amigos, eu não esperava. As coisas realmente mudam e agora vou começar a contar sobre essa mudança.
Numa segunda-feira atípica, horrorosa e tão quente que dava pra fritar bacon no asfalto, eu saía do meu trabalho na Pinto & Pinto Co. - uma companhia que, acreditem, não era de pintos -, e ia em direção ao consultório do meu psiquiatra, o doutor Carlos. Era para ser apenas mais uma segunda-feira horrorosa em meio a tantas segundas-feiras horrorosas que eu vinha tendo a partir dos meus dezoito anos, mas a vida deu um jeito de piorá-la.
Chegando na esquina do grande prédio circular onde o doutor me atendia uma vez por mês, pisei no que parecia ser vômito. Todas as avós falam que pisar em cocô significa ganhar dinheiro, mas nenhuma vovó jamais falou algo bom sobre pisar em vômitos. Adentrei o prédio e me dirigi ao elevador, apertando o botão que levava ao sétimo andar, curiosamente sete era meu número exato de CIDs.
Doutor Carlos era antiquado e não tinha recepcionista alguma, computador algum e, também, nenhum senso decorativo. As consultas eram realizadas numa grande sala com apenas uma mesa de mogno e duas cadeiras, acreditem, de plástico. Como adendos decorativos via-se um quadro em uma das paredes laterais de um "artista" bastante apto à abstração e um nicho repleto de bibelôs em formatos de cérebro na parede oposta. Na quarta batida na porta, um doutor Cláudio parecendo bastante preocupado abriu-a, me indicando a cadeira de plástico verde à frente para que eu sentasse.
O doutor Carlos era um homem robusto beirando seus sessenta anos, corcunda e com avantajadas sobrancelhas. Eu costumava me referir a ele para os outros como "doutor Gru", tipo o personagem do filme Meu Malvado Favorito. Eu vinha consultando com ele nos últimos dois anos, com constantes alterações de medicação e sem muito resultado até então. Ele, juntamente do meu psicólogo, Pierre, me tratavam de um transtorno de personalidade chamado "borderline", que consistia basicamente em inúmeras alterações de humor durante o dia, crises existenciais, uma sensação de despertencimento e vazio constantes, apego emocional às pessoas erradas e medo absurdo de ser abandonado - o que eu culpo meu pai -, episódios de automutilação e também abuso de substâncias.
- A essa altura você já deve saber que sua mãe me ligou - doutor Carlos começou, me surpreendendo porque àquela altura eu não sabia de nada disso. - Você está com sérios problemas, rapaz.
- Disso eu sei. Eu sou um sério problema - retruquei. - Só não sei porque diabos minha mãe te ligou.
- Thomas, no último mês você se autossabotou de uma forma sem precedentes - disse ele, franzindo o cenho. - Tentou envenenar o papagaio da sua vizinha e sim, eu sei que ele canta música gospel e que você o detesta, já falamos sobre isso...
- Sim, aquela porra de papagaio da Shirley amanhece cantando hino gospel e vai dormir cantando hino gospel.
- Além disso, andou pedindo dinheiro emprestado para familiares porque entrou num estado maníaco que, também já falamos sobre isso, coloca você no uso de substâncias e em compras compulsivas - ele ajeitou os óculos colocando o dedo sobre a haste na ponte do nariz.
- Eu precisava de um aspirador de pó automático e...
- Você é o próprio aspirador de pó, Thomas - ele me interrompeu, dando ênfase no final da frase para fazer menção ao meu uso de cocaína.
- Enfim, Thomas. Eu e sua mãe conversamos e nós dois pensamos que a única saída para tentar uma vida saudável no momento é uma internação - falou, enquanto me encarava com seriedade.
Internação?! Não entendi direito.
- Internação?! Não entendi direito - questionei, exasperado, percebendo o peso daquela palavra. - Onde?! Em um hospital?!
- Em uma clínica psiquiátrica - doutor "Gru" me respondeu, ainda sem tirar os olhos de mim.
Okay. Eu já vira aquela história. "Garota, Interrompida". Filme de 1999. Winona Ryder e Agelina Jolie. Garota com transtorno de personalidade borderline é internada em um manicômio e passa sei lá quantos meses vivenciando de tudo. Jamais!
- Eu não vou... eu não preciso...
- Você está colocando a si mesmo e aos outros em perigo estando assim. Noventa dias em uma clínica iriam ajudar a resolver seu problema, regular a medicação e...
- Noventa dias?! - Gritei. - Eu não vou!
E foi nesse momento que tudo aconteceu: a porta do consultório se abriu, mostrando dois homens vestidos de branco dos pés à cabeça, seguidos de minha mãe em seu encalço. Percebi que um dos homens carregava uma seringa na mão direita.
- Thomas Carvalho, somos da equipe da Clínica Das Graças - o homem que não carregava a seringa disse. - Estamos com uma ambulância a postos para te levar à internação. Podemos fazer isso do jeito fácil... ou do jeito difícil - terminou, apontando para o colega com a seringa.
Então eu levantei as mãos para o alto e me rendi. Me rendi porque não havia saída, afinal, eram quatro contra um. Me rendi, principalmente, porque os dois homens eram muito bonitos (ambos eram altos, fortes e exalavam um ar de indocibilidade, o que me conquistou na hora).
Esta é a parte do relato da minha história em que você espera ler sobre meu período na clínica onde, supostamente, tudo deveria degringolar. Sinto lhe desapontar, mas minha estadia na clínica "Das Graças" foi curta demais para ganhar um capítulo inteiro mas, ainda assim, memorável para ser citada em um parágrafo.
Graças ao plano de saúde da minha mãe, fiquei em um quarto com banheiro e ar-condicionado. Meu colega de quarto era um militar surtado com a crueldade do exército e do militarismo brasileiro. Transei com este colega de quarto, o que culminou na desobediência de uma das doze regras básicas do local. Fui expulso depois de cinco dias por descumprir oito delas. Na saída, ainda consegui furtar uma caneta permanente do posto de enfermagem para fazer pequenas alterações na placa de entrada da clínica, mudando o nome de "Clínica Das Graças" para "Clínica Desgraças" e o lema, situado logo abaixo do logotipo, de "Saúde sempre em Mente" para "Saúde sempre Mente". Isso resultou numa cobrança financeira para que uma nova placa fosse colocada. Não seria um problema, já que eu tinha um atestado do meu psiquiatra e meu emprego ainda estava garantido.
Eu integrava a Pinto & Pinto Co. havia nove meses, desempenhando um papel enfadonho de carimbar e assinar documentos. Por ser uma grande empresa do ramo imobiliário, o salário era ótimo, me mantendo em meu apartamento e suprindo minhas necessidades básicas, ou seja, a internet. No trabalho, eu ficava o dia todo fazendo praticamente nada debaixo de um ar-condicionado, afinal ter um ar-condicionado é a primeira coisa a se levar em conta ao se aceitar um emprego.
Naquela tarde eu assinava e carimbava papéis distraidamente, numa temperatura agradável de dezoito graus, enquanto assistia da minha janela no terceiro andar um bando de gente sem noção levando uma vida fitness no parquinho em frente à empresa. Eu mesmo me considerava fitness por postar vez ou outra nos stories uma foto de verdura ou legume qualquer que eu achava no Google. Ser fitness para mim se resumia a isso, não em andar e correr pra lá e pra cá, num calor de trinta e cinco graus, sem qualquer motivo plausível.
Enquanto desempenhava minha aperreante função (tão distraído que, por vezes, o carimbo ia parar na mesa, no teclado do notebook e até nas paredes) e observava a vida desnecefitness acontecer pela janela quadrada do meu bloco, recebi uma notificação de mensagem em meu computador.
Era do meu amigo Tiago, que eu conheci meses atrás num suposto show da Beyoncé, que acabou por ser um show cover da Beyoncé. Essa decepção nos uniu feito gêmeos siameses e tínhamos uma conexão muito forte desde então.
Tiago era extrovertido, intrometido e bastante sem noção, o que eu adorava nele, porque jamais precisávamos pegar fila na balada ou em shows porque ele fingia ser um blogueiro de sucesso com um canal no YouTube e tudo mais (ele até tinha um canal no Youtube, com sete inscritos, sendo que cinco eram fakes dele mesmo).
Acho que cabe falar aqui que o Canal de Tiago chamava-se "Canal sem C", sendo bastante diversificado: o primeiro vídeo ensinava a fazer macarrão gourmet, que nada mais era que miojo acrescido de queijo e creme de leite; o segundo era um "faça você mesmo" de uma estante de madeira, que deu tão errado que acabou se tornando uma cadeira de três pernas; já o terceiro consistia em uma coreografia da Lady Gaga onde, no segundo refrão, Tiago tropeçava, caía e quebrava a clavícula. Eu sinceramente não sei como esses vídeos não viralizaram, porque eram extremamente e despretensiosamente muito engraçados.
TIAGO: oi puta, tá ocupado?
acabei de gravar um vídeo novo
neste eu canto emelyn house
TIAGO: http://svid.vid.com
Olhei para os lados para me certificar de que ninguém me observava, abaixei o volume um pouco e cliquei no link.
Tudo aconteceu repentinamente. De alguma forma o som saiu de forma ensurdecedora e o barulho de gemidos tomou conta do escritório. Na tela do computador um pornô gay era exibido. Tinha tanto pau que eu nem conseguia contar. Certamente a maior quantidade de pintos que a Pinto & Pinto Co. já vira em toda sua existência.
Tentei baixar o volume diante da expressão de choque das outras vinte e duas pessoas que trabalhavam comigo naquele setor e que se acumulavam em torno da minha mesa. Era tarde demais. Senti uma mão pesada pousando no meu ombro e a voz da desestabilidade financeira me dizendo em tom frio: "Thomas, na minha sala, agora".
Segui meu chefe - a voz da desestabilidade financeira - até sua sala, morrendo de vergonha e desespero. Naquele momento, desejei ser Tiago, que certamente saberia contornar a situação de forma irreverente. No meu caso, não havia o que fazer.
Chegamos ao escritório e sentei na cadeira estofada vermelha. Justus, meu chefe, contornou sua mesa e sentou-se em sua luxuosa cadeira de couro preta. Olhando para mim como se eu fosse um pervertido que assiste pornô no trabalho, disse:
- Thomas, você está demitido.
(Longa pausa na qual eu pensava em uma explicação).
- Tentamos segurar as pontas com sua breve internação, Thomas - ele disse, me encarando seriamente e mexendo em sua gravata vermelha. - Mas pornografia em horário de expediente é inaceitável.
- Foi meu amigo Tiago! - praticamente berrei. - E quanto à internação, eu estava passando por problemas. Sinceramente, senhor, o único problema da sua vida é que o sushi não abre nas segundas.
- Você está demitido - ele repetiu, se dirigindo à porta para que eu saísse de sua sala.
Completamente derrotado com a destruição do meu sonho de ser rico e morar em uma casa com escadaria de mármore, paredes de vidro e um vaso que limpa e seca a bunda, saí da sala para recolher meus pertences pessoais em minha mesa.
Todos os meus colegas aparentemente já sabiam da demissão que literalmente acabara de ocorrer e os boatos e apelidos corriam soltos. Fui chamado de "gangbanger" pra baixo.
Fui embora sem me despedir, passando pelo grande corredor até chegar ao elevador sem olhar para nenhum lado ou para trás, mas sentia todos os olhares em mim.
Queria ligar pro fodido do Tiago e perguntar porquê ele tinha feito aquilo comigo. Quando a porta do elevador finalmente se abriu - depois de uma espera que pareceu eterna -, levei um grande susto. Tiago estava parado na minha frente.
- Que desgraça foi aquela, homem!? E porque diabos você está aqui? - perguntei.
- Foi o que tinha que ser - Tiago respondeu, por detrás dos óculos escuros de camelô.
- Acabei de ser demitido pelo Justus! - protestei.
- É, eu sei. Agora deixe-me ir que tenho uma entrevista de emprego. Minha depilação definitiva e meu clareamento anal não vão se pagar sozinhos - e sorriu sarcasticamente para mim, saindo do elevador.
Fiquei tão perplexo que congelei. O elevador deve ter descido e subido vinte vezes antes de eu finalmente entrar nele e voltar pra minha vida fodida. A ficha de que Tiago havia programado causar minha demissão para assumir meu lugar na Pinto & Pinto Co. ainda não havia caído.