Quem eu sou — e o que minha própria família fez com a minha vida
Eu sou Juliana, uma mulher de 42 anos, filha de pais separados, com duas irmãs, e sou a do meio.
Passei a minha vida inteira tentando entender uma pergunta simples: por que eu sempre fui tratada como o problema?
Hoje, depois de décadas de dor, eu tenho uma resposta mais clara: eu nunca fui o problema — mas fui transformada nele.
Sobre quem eu sou de verdade:
Eu sempre fui uma pessoa diferente.
Desde muito pequena, eu já pensava de forma lógica, racional e profunda. Fui levada a me isolar, e aprendi a ler e escrever sozinha aos 3 anos de idade. Sempre fui extremamente observadora, sensível e consciente.
Eu nunca aceitei coisas sem sentido. Eu sempre questionei injustiças e coisas erradas. Eu sempre busquei lógica, verdade e coerência.
Além disso, sempre tive:
uma empatia muito forte (consigo sentir a dor dos outros com enorme facilidade)
uma sensibilidade emocional intensa demais (tudo me afeta profundamente)
uma persistência fora do comum (eu não desisto, mesmo em situações extremas)
Eu também sempre fui autodidata. Aprendi praticamente tudo sozinha, a vida inteira.
E talvez o mais importante: eu sempre busquei e fiz de tudo para melhorar. como ser humano
Passei anos colocando tudo que estava dentro de mim no papel, tentando entender meus erros, minhas falhas, meus defeitos (sempre tão enfatizados por todos, quer fossem reais ou não), meu comportamento. Fiz tratamentos, escrevi, analisei, refleti, rezei.
Eu nunca parei de tentar ser uma pessoa melhor.
O problema em crescer sendo tratada como errada
Mesmo com tudo isso, desde criança, eu recebi rótulos como:
“difícil” ou “impossível de lidar”
“problemática”
“temperamental” ou “com gênio forte”
“errada”
“dramática”
E esses rótulos não vinham de fora. Vinham da minha própria família.
Eu cresci em um ambiente extremamente disfuncional:
um pai alcoólatra durante mais de 3 décadas da minha vida
uma mãe com extremo e óbvio (não disfarçado) transtorno de personalidade narcusista GRA, que nega a realidade a todo custo mesmo vendo provas, e tem memória seletiva voluntária.
duas irmãs que aprenderam cedo que podiam me culpar por benefício próprio e sair ilesas - especialmente a mais nova: a manipuladora, sádica, controladora e dominadora.
E, desde muito cedo, me tornei o alvo mais fácil.
Na prática, isso significava: quando algo dava errado, quando algo ruim acontecia, quando havia conflito, a culpa era automaticamente minha.
Não importava o que realmente aconteceu. Não importavam os fatos. Não importavam as provas.
O que isso causa a uma criança:
Crescer assim não é normal. Uma criança muito diferente, que especificamente:
sente tudo muito intensamente
pensa demais, a mente não para
percebe as coisas com a clareza de um adulto
…mas é constantemente invalidada, punida e culpada:
Ela começa a quebrar por dentro, e foi isso que aconteceu comigo desde muito cedo.
Eu comecei a ter total convicção de que:
eu era uma pessoa mesmo ruim
eu merecia ser tratada daquela forma terrível
havia algo de errado comigo
Mesmo quando eu estava apenas reagindo a injustiças.
Um padrão que nunca mudou
Durante toda minha vida, o padrão foi sempre o mesmo e seguiu o mesmo caminho:
eu era ferida
eu reagia
a minha reação era usada contra mim
eu era culpada
eu era punida
Isso aconteceu incontáveis vezes, e continua até hoje. Inclusive com situações de violência emocional sem a menor piedade, vindo das pessoas que eu pensava que me amavam.
E o pior: eu nunca consegui provar que estava certa por nada neste mundo.
Eu usava lógica.
Eu usava fatos.
Eu usava argumentos.
Eu usava provas.
E ainda assim, eu sempre perdia.
O impacto e resultado de viver uma vida assim
Esse tipo de vida não passa sem consequências.
Eu desenvolvi:
crises psiquiátricas em vários níveis ao longo de mais de 3 décadas
sofrimento, tortura e dor emocional insuportáveis e constantes
sensação de não pertencimento ao mundo
isolamento profundo e constante
Aos 15 anos, completamente sozinha, eu procurei ajuda profissional, sem poder contar com ninguém que sequer enxergasse que eu, no mínimo, "não estava bem".
Isso iniciou uma vida inteira de tratamentos psicológicos e psiquiátricos para uma vasta diversidade de diagnósticos e crises de vários tipos e níveis ao longo dessas 3 décadas.
E é importante que todos saibam: eu sempre me esforcei muito para melhorar.
Eu não fui passiva. Eu lutei demais, mais do que sequer pensava ser capaz. ou ter força para exercer.
Mesmo assim, tive momentos extremamente graves.
E em um deles, na vida adulta - natal de 2017, cheguei pela primeira vez ao limite: comecei a sentir dores emocionais que começaram a se agravar de maneira extremamente rápida e intensa, em uma sala cheia de familiares que, com toda sinceridade que posso ter, afirmo que nem pareciam se dar conta de que eu estava presente ou sequer existia, me senti totalmente invisível e insignificante, assim como sempre fui tratada. E não era só um sentimento: ninguém falava comigo, nem me olhava, nem parecia se importar se eu estava lá ou não. Isso causa uma dor profunda demais, e eu já estava em crise, e mesmo tendo pavor de altura, pela primeira vez olhei para baixo no prédio e não senti um pingo de medo, só pensava "será que essa altura é suficiente para matar uma pessoa que cair daqui?"
Sem saber da resposta nem querer arriscar ficar paraplégica, e não conseguindo mais suportar a dor absurda dentro de mim, eu estava completamente decidida a terminar com tudo, não para chamar atenção, nem com nenhum motivo que não fosse levar isso até o fim de verdade, e realmente achei que minha tentativa de suicídio seria bem-sucedida. Na época, eu tratava inúmeras doenças e possíveis doenças, porque não tinha diagnósticos conclusivos, então minha bolsa parecia uma farmácia de tantos medicamentos que eu tinha nela, de todos os tipos - a grande maioria psiquiátricos (benzodiazepínicos em alta dosagem, antipsicóticos, antidepressivos, IMAO, estabilizadores de humor), mas também outros tipos, e todos em uma quantidade assustadora porque eu estava testando vários tipos para os médicos pudessem entender quais funcionariam melhor para mim.
Bem, não bebi uma gota de álcool naquela noite, mas segui em frente na minha intenção, fui ao banheiro e esvaziei a minha bolsa de absolutamente cada comprimido que lá havia - tomei uma quantidade realmente astronômica de medicamentos em questão de segundos, talvez chegando a, no máximo, 1-2 minutos, e voltei à sala para continuar sendo ignorada por todos e apenas esperar.
Não demorou e comecei a passar mal, até perder os sentidos, e acordei no hospital, alucinando muito. Nesse vai-e-vem de consciência, finalmente fui ao local onde seria internada - obviamente a Ala Psiquiátrica, onde minha família (auto-intituladas mãe e irmãs) esteve, com plena consciência de onde estavam, e então sendo colocada em um quarto - que claro, não tinha maçaneta por dentro, onde também minha famíila esteve, e de onde eu não poderia sair para minha segurança, ou seja, todos estavam completamente cientes de onde eu estava sendo internada por ter tentado overdose por medicamentos.
Mesmo assim, por incrível que pareça, até hoje isso é totalmente negado por toda minha família - mesmo eu tendo afirmado o fato repetidas vezes durante vários anos, mesmo eles tendo estado presentes e visto com os próprios olhos. Minha mãe até hoje diz que fui internada lá por "ter bebido muito", como se isso fizesse algum sentido, em algum universo, e sem eu ter ingerido uma gota de álcool.
Um detalhe importante: eu nunca tinha deixado de amar
Mesmo com tudo isso, eu sempre amei a minha família. Sempre.
Com intensidade, com lealdade, com esperança.
E então veio o ponto de ruptura — o presente
Depois de 7 anos vivendo fora do país, eu voltei ao Brasil, há apenas alguns meses.
E o que mais dói - voltei justamente porque queria:
estar perto da minha família
recuperar o tempo perdido com meu único sobrinho, que nasceu quando eu estava lá, durante a pandemia
reconstruir vínculos e passar tempo com essa família que sempre amei tanto
Mas o que eu encontrei foi pior do que tudo que eu já vivi na vida, e ainda mais grave, foram atrocidades que nunca, nem em um milhão de anos, eu imaginaria que a pessoa mais importante da minha vida seria capaz de cometer.
1º Todos os meus traumas de infância foram reabertos, depois de anos tendo trabalhado duro para fechar as feridas. 2º Fui controlada, vigiada, criticada, humilhada e invadida.
Minha vida passou a ser tratada como se não fosse minha.
E então aconteceu algo que mudou tudo.
O momento mais grave de todos, que me destruiu por completo
Isso tudo me levou a me isolar no quarto, me causou feridas novamente e então, em uma noite de fim de semana na casa de um amigo, entrei em uma crise severa de pânico, e fui pedir ajuda para a pessoa que sempre bate no peito dizendo que "está aqui por mim ´para ajudar com qualquuer coisa que eu precisar a qualquer momento": a minha exemplar mãe, o exemplo de ser humano que cumpre com maestria papel de mãe pelo qual ela tanto se orgulha, Dona Edna, por mensagem.
Eu implorei por ajuda, mesmo que fosse um simples par de ouvidos, Expliquei meu estado lamentável e desesperador. Lembrei ela de todo meu histórico. Enfatisei a minha tentativa de suicídio.
Ela leu todas as mensagens, e não respondeu. Eu continuei pedindo ajuda. Nada.
Por fim, eu disse que não tinha mais ninguém e nunca machucaria ninguém, então minha única saída era machucar a mim mesma, porque estava vendo que a minha vida não tinha valor algum.
Ela leu. E duas horas depois, respondeu apenas: “boa noite, filha”.
O que isso fez comigo
Esse foi o momento de maior dor da minha vida.
E isso significa muito, porque eu já vivi dores tão profundas que a grande maioria das pessoas nunca vai sentir.
Naquele momento, eu entendi uma coisa: a minha vida não tinha valor nem para a minha própria mãe.
E isso me quebrou completamente, me matou por dentro.
E o que veio depois
Imediatamente depois disso, eu comecei de fato a me autodestruir.
parei de me alimentar
passei ter noites e noites de depravação de sono (às vezes 3-4 noites seguidas sem pregar os olhos)
deixei de cuidar das minhas necessidades mais básicas
fui forçada a apelar a outros mecanismos para tentar amenizar um pouco a dor, capaz de derrubar mil pessoas
posso mencionar mais uma dezena de coisas aqui...
E, mesmo assim, a situação continuou piorando, por incrível que pareça.
Primeiro, Dona Edna agiu como se nada tivesse acontecido. Imediatamente depois, seguiu me ferindo de maneiras cada vez mais hediondas - cada atitude era mais cruel que a anterior, e sempre invalidando o que sinto e negando absolutamente tudo.
Isso levou a: minha família inteira se voltar contra mim, invertendo completamente a realidade:
todos se colocaram na posição de vítimas
me colocaram como a vilã, culpada por tudo que me causaram - inclusive o meu próprio sofrimento, como se eu fosse uma louca masoquista.
Hoje
Hoje, eu estou no pior momento da minha vida. Na crise mais grave, que provavelmente vai me levar anos, se não décadas, para curar. Já me sinto completamente:
Exausta.
Sem espaço para mais um pingo de dor.
Sem valor.
Sem sentido.
Sem um motivo sequer para viver.
E então cheguei finalmente no ponto onde fui obrigada a fugir e me afastar da fonte de todo meu sofrimento - a "família" da qual voltei de Portugal para viver perto. Estou morando com um amigo suíço, que se irrita com qualquer coisa que falo, extremamente egoísta, absurdamente ingrato por tudo que tenho feito por ele (e tem sido muita coisa mesmo - até mesmo salvar a vida dele), e consegue agir da mesma forma que a minha família. Mas pelo menos dói menos do que receber esse tratamento da família direta.
Por que estou escrevendo isso
Eu não estou escrevendo isso por vingança, nem para ser entendida (desisti disso há muito, muito tempo), nem para que ninguém tome nenhuma ação direcionada a mim, porque já é tarde demais, demais mesmo, para isso, e qualquer coisa que alguém fizesse (o que não vai acontecer, mas só para constar) seria totalmente ignorada por mim.
Estou escrevendo porque: isso tudo aconteceu, é FATO, é realidade e não importa o quanto as pessoas tentem negar, não vai deixar de ter acontecido.
E porque uma vida inteira de dor precisa ser reconhecida.
Nem que seja, pela primeira vez, em palavras. Nem que seja por uma pessoa que nunca ouviu falar de mim, mas talvez tenha alguma empatia. Ou se identifique com qualquer parte do que vivi. Ou tenha alguma humanidade para me oferecer algum conforto. Qualquer coisa que me faça ver algo bom no mundo, em uma alma sequer.















