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Depois da tempestade, o céu azul.
Gosto de lembrar dessa frase, especialmente agora.
São oito da noite, faltam menos de doze horas para minha cirurgia. Não pensem que eu estou dando pulos de alegria, me falta a energia. Desde as 22h de sábado que não mastigo algo, hoje é terça. Foram no máximo 150ml quando eu tinha vontade de tomar algo.
Já estou tão cansada que nem ânimo para beber uma batida tenho. Na verdade, só de pensar nela, já tenho um nojinho. Minha cabeça passou o dia perambulando por coisas como sushi, massas, bolos e todas coisas que a gente gosta.
Eu fiquei tão abatida que pensei em não sair da cama. Esses últimos dias têm sido tortuosos: um estômago grande e uma fome que não tem fim.
É como tirar a heroína de um viciado: existe a crise de abstinência, as dores e o desejo quase que incontrolável de procurar a droga.
A diferença é que a droga está aqui do meu lado. Está na esquina, no aplicativo de delivery e no supermercado que fica perto. Meu quarto foi meu refúgio para não trapacear.
A dieta líquida dos três dias que precedem a operação são importantes, garantem que o estômago esteja limpo e vazio, assim como o intestino. Não seguir as orientações médicas seria EXTREMAMENTE arriscado. Então, passei os dias na linha.
Hoje realmente bateu a fraqueza. Me sinto cansada, fraca e indisposta. Se eu pudesse, dormiria agora, as 20h.
Decidi então encher a banheira, colocar uns géis de banho e configurar meu ipad com músicas tranquilas, que me lembravam de épocas boas. Eu esperava que 30min seriam o máximo ali, afinal eu estava exausta. A água cheirosa fez o contrário: me animou. Fiquei duas horas submergida em uma água morna, com o aroma de satusma, que eu amo tanto. Saí quando começou a escurecer e percebi que não havia deixado as luzes acesas.
Fiquei feliz imaginando meu passado, presente e futuro. Pensando no esforço que está sendo e que ainda vai ser.
Esse sacrifício é em nome de duas coisas: da minha autoestima e da minha saúde. São coisas importantes pra mim, pro meu bem estar e pro meu futuro. Muita gente por aí acha que esse é o caminho fácil, mas não. É o caminho mais difícil e perigoso.
Eu sei que eu provavelmente só vou voltar a comer depois do ano novo, até lá vão ser papas, sucos, batidas e caldos. E eu não podia ser a pessoa mais feliz! É saber que daqui alguns meses eu estarei me sentindo mais bonita e confiante, estarei saudável e determinada e pronta para qualquer desafio que vier pela frente.
A tempestade de agora promete, com 100% de certeza, o céu mais azul que eu vi nos últimos anos, um céu que vai durar e fazer com que eu colha os frutos de todo esse esforço.
O pré-operatório foi um desafio cumprido, agora estou pronta para a próxima etapa: os primeiros quinze dias do pós!
Before.
O peso sempre foi um problema na minha vida.
Eu nunca fui magra, mas também não fui uma criança gorda... Eu só não era magrinha como algumas colegas.
Cresci em um ambiente onde a comida sempre foi importante. Todo mundo na minha família cozinha e aprecia os sabores diferentes.
Com meus 13 anos eu já me sentia gorda, mesmo não sendo. Eu tinha 1,77m e era uma adolescente grande, mais cheinha, mas mesmo assim normal. O peso começou a aumentar a partir daí. Eu era saudável, mas não feliz. Lembro de usar 42 na época e achar um horror, afinal minhas amigas usavam calças 36 ou 38.
Não preciso dizer que eu não tive autoestima. Não me sentia bonita, desejada ou atraente. Isso foi um golpe no estômago, sendo leonina.
Pois envelheci, dei os primeiros beijos, tive os primeiros amores e segui o baile. Eu estava me tornando uma mulher: eu tinha coxas, bunda, peitos e estava ficando com um corpo em forma de violão. Agora eu já era objeto de desejo de alguns.
Estranho né? Objeto de desejo... Nesse tempo todo eu achava que deveria ser bonita para atrair o parceiro ideal, não pra mim mesma.
17 anos, final do ensino médio. 95kg. Juro que chorei naquele dia. Escrevi mil vezes que não ia chegar aos 100, pois era inaceitável. Comecei uma dieta pesada, academia e todos poréns. Não preciso dizer que durou pouco, né? 4 meses depois, com 10kg a menos, larguei da minha dieta. Eu só queria sentir o prazer da comida.
Não lembro exatamente quando bati nos 100kg, mas foram alguns anos depois e muitas dietas frustradas também. Eu engordava, emagrecia, engordava mais.
Quando completei 20 anos, fui surpreendida com um assalto a mão armada, dentro de casa, sendo mantida refém por duas horas. Aí se instala o caos total: um episódio severo de TEPT (transtorno de estresse pós traumático), seguido de depressão e um namoro engatado.
Então a bomba: 2 anos e meio e 25kg ganhos. Chegamos nos 120kg.
Eu já chorei muito pelo meu peso, já lamentei ter me descuidado... Mas criei uma relação dependente com a comida. Ela era meu alento, meu conforto, minha certeza, meu prazer.
Nesse ponto, dietas não funcionavam mais, eu cansava muito para fazer exercício e eu era um manequim 48, catando roupas plus-size.
Descobrir que eu estava rumo a desenvolver diabetes, pressão alta e outros problemas associados foi o fim: resolvi procurar uma equipe para obesos metabólicos.
Fiz toda avaliação e adivinhem? Desisti. Achei que ia conseguir sozinha.
Tentei por mais uns meses e... nada.
E agora estou aqui, esperando pra ir pra mesa de cirurgia. Cansada, fraca e desanimada por causa dos três dias de dieta líquida.
É amanhã.
Espero que dê certo.
#me #selfie #rest #beforesurgery (at California)