âpode ligar, pode chegarâ
âchego.â
Sorrio quando vocĂȘ vem macio depois de mais um desentendimento. Ă inevitĂĄvel, como se meu embaraço viesse da desordem que existe em vocĂȘ. Chega afetado e sem jeito e isso jĂĄ me comunica o suficiente, abandono as minhas cascas no chĂŁo jĂĄ quando vocĂȘ estende os braços e fecha, num suspiro, as mĂŁos nos meus ombros. Nos olhamos num momento preciso, cheios de paciĂȘncia. O meu Ă© um gesto de reconhecer que hĂĄ mais força no reparo que no erro.
VocĂȘ disse que gostava da minha janela, que vĂȘ beleza nas luzes dos prĂ©dios e que gosta da distĂąncia deles. Sabe, teve um tempo que eu pensava muito e escrevia muito sobre luzes, sobre letreiros luminosos, sobre o cĂ©u Ă s 17h, sobre a cidade se comunicando Ă noite com tantas janelas acesas. Cada quadrado brilhante e fugidio desse Ă© uma casa, alguĂ©m vai e apaga e alguĂ©m vem e acende. Agora eu me dei conta de que a rotina dos outros compĂ”e um cenĂĄrio que chama a sua atenção. Eu sei que a vida de cada um Ă© sĂł a vida de cada um, que nĂŁo tem nada de demais no seu nome, nem no seu rosto, nem na sua pele, nem nas suas mĂŁos, muito menos no seu cheiro. Mas, honestamente, eu acho vocĂȘ a pessoa mais bonita.
A criança que fui deve estar atĂ© agora percorrendo ruas e becos em Cidade Nova, revisando qual das caixas estĂĄ miando, gatinhos que estĂŁo nas ruas sĂŁo os que ela pega. A menina que carregava aqueles gatos em panos velhos para dentro de casa sabia que os perderia mais tarde, todos eles, para a malvadeza dos que envenenam comida. Meio sĂsifo, meio criança.
Eles morriam um ou dois anos depois de ganharem casa e rotina e comida, mas viviam mais do que se nĂŁo tivessem sido adotados, pelo menos Ă© assim que gostava de acreditar. Ăs vezes, a paixĂŁo se apresenta por esse tipo de balança e aqui reside minha valentia, alĂ©m do meu atrevimento: na entrega, no risco assumido, em acreditar mesmo sem motivo. Viver num estado tĂŁo intenso que a precisĂŁo e a consciĂȘncia se tornam cruciais. Como eu sei que Ă© paixĂŁo? NĂŁo sei. Eu nĂŁo faria tudo por vocĂȘ. Mas eu faria algumas coisas:
1. ficaria acordada com vocĂȘ numa noite difĂcil, virtual ou pessoalmente.
2. escreveria cinco caracterĂsticas suas que me fazem gostar de vocĂȘ.
3. organizaria uma festa surpresa.
4. acompanharia vocĂȘ numa fila de espera em departamentos pĂșblicos.
5. testaria uma receita com vocĂȘ.
6. ficaria acordada com vocĂȘ em noites tranquilas, virtual ou pessoalmente.
7. aceitaria aquele convite pra fazer uma trilha.
8. escolheria vocĂȘ para deitar comigo na rede domingo de tarde.
9. me afastaria para nĂŁo me machucar.
10. diria sim.











