Entre as contradições há um silêncio e o emocional nem sempre habita o meio do peito. As memórias são uma passagem esquisita, se contradizem o tempo todo. A gente toma distância e aí é que tudo fica perto, a gente lembra. Os meus braços não me erguem, o meu peito não cabe em nenhum lugar. Eu me repito muito, tem vezes que acredito ser essa a minha maneira de amar e estar com as pessoas. Mas, é assim: antes de repetir é preciso recordar, reviver todas ou apenas aquela noite.
Dia doze de abril. Eu havia, há uns dias, dado conta de um rapaz de postura mediana, cabelo eninhado e semblante simpático, amigo de uma amiga. Fui procurar saber, achei curioso, achei estranho, uma voz meio embargada, outra foto, outra foto, um vídeo. Tropecei nesse outro aqui. Meio raivoso, meio bicho do mato, meio estranho, quase mal-educado. Ele não aparecia muito, era sempre meio distante, meio de lado, turvo, fora de foco; mas, numa foto, ele estava inteiro, de rosto e eu não sei o que aconteceu, mas ali eu comecei essa vontade. Ele fazia o tipo bigodinho, cabelo meio oleoso e camisa de botão, ou seja, todo o material necessário para acabar com o meu rendimento acadêmico.
Eu acredito que ele ficou ressabiado com a desconhecida assanhada que se colocou naquele front, naquele horário, naqueles termos, oferecendo uma cerveja. Era uma e pouco da manhã, eu estava no meio de um trabalho de literatura e só precisava ficar perto dele. Insisti muito, ele foi, de madrugada e na chuva. Sem número de telefone, nem nada, apenas aquela caixa de mensagem reservando meu endereço. Não combinei de ir encontrar com ele na portaria do prédio, que é consideravelmente distante do apartamento. Mas ele e o radar que não sei onde ele carrega foram da portaria até a casa da minha mãe, a pé, com um capacete na mão, na chuva. Esperei por ele de porta aberta, suando um pouquinho. Não demorou muito, ele apareceu na escada, molhado, no escuro, e com um jeito bem calmo, andando lentamente, como se precisasse de espaço caso fosse surpreendido por algo que faria ele correr; ou (dessa suposição eu gosto mais) como se precisasse chegar aos poucos, reconhecer barulhos, esperar a pupila se adaptar à escuridão. Nessa hora eu, do outro lado da porta, percebi que não estava tudo sob controle. Ele chegou molhado, olhou pra mim, pediu licença, e eu mandei entrar. Passou por mim, foi direto pro meu quarto, o único lugar da casa onde tinha uma luzinha acesa, e nessa hora eu percebi que ambos estávamos descalços.
Acho que o nervosismo deixou ele à vontade, porque encontrei ele já sentado na minha cama, aí só fechei a porta. Tranquei a porta. Expliquei que todos já dormiam e a gente precisava falar baixo. Aqui ele ficou agoniado, deve ter se arrependido, porque entendeu que os outros não sabiam da visita dele (mas como haveriam de saber?). Eu não liguei pra isso, já estava muito acostumada às pessoas estranharem meu modo de fazer as coisas, só me levantei e peguei o poema que eu estava estudando. Eu disse que, talvez, ele pudesse contribuir com a minha leitura, caso tivesse algo a dizer. Ele leu e falou “não tenho nada a dizer”. Pensei “ah é?” e me levantei. Chamei ele pro alto e, como uma dança de opostos, me abaixei quando ele chegou no meu rosto. Talvez ele não esperasse por isso, me puxou de volta em pouco tempo e ficamos ali mesmo.
Não me lembro de muitos detalhes, a verdade é que minha sobriedade tinha ido embora mais cedo. Mas eu lembro do pau entrando, da insistência, de ter ficado de costas pra ele, do calor, da pele, do alvoroço que era aquele beijo e de eu ter pedido pra ele ter calma. Não demorou muito pra gente se esquentar, pra eu entender um pouco mais de como as horas podem não passar e pertencer às criaturas todas. Se ele me mordeu, com certeza a dor era doce, até porque aquela boca era dele e minha, aquele sexo era só nosso. Eu o amei meio bêbada, mas o amei inteira. E assim se repetiram nas tantas noites que vieram depois, quando não demorei para imaginá-lo chegando de novo e de novo.
Eu havia passado a tarde anterior a essa madrugada no bar do coice, revezando entre ypióca dourada e heineken. Um sol tão forte que era estridente e ruidoso, o asfalto gritava com as promessas de churrasco porque ainda era segunda. O dia estava aberto, cheio de pontes, de sangue, de voz, poemas indo e vindo, pneus freando no calor dos pinheirais. Tudo de imenso coube perfeitamente nas três horas que passei com aquele de mão pronta. Parece uma brutalidade (e teve sua ondulante nuance), mas depois deitamos juntos, abraçados no escuro e no calor da chuva batendo no vidro da janela fechada, ele passou a mão no meu cabelo, conversamos um pouquinho e ele cobrou a cerveja. Acho que diversas vezes tentei mostrar que ali tinha espaço pra ele, não me lembro. Depois houve uma despedida com alguns beijos, uns abraços, e meu olho na porta. Sexo é simples, mas ele fazia o caminho inverso e ali eu percebi que tinha algo que valia.
Rômulo Rema. Ele leu e me disse: “não me diz nada”. Nunca vou esquecer. Sei que amar essa história é perda de tempo e perder tempo não é razoável para quem gosta do Tempo. Mas, se combinarmos que aquela foda foi numa madrugada que ninguém esperava, podemos acertar também que ela nunca existiu e, portanto, não está no tempo. E enquanto houver número suficiente de ingênuos, eu posso dizer que foi por acaso.
Reviver essa noite. Um grande caos. Começo a falar sobre isso e me vem palavras como amor, sorte, carinho, inventário, raiva, pulsão, desejo. Não tem nada a ver.