Ainda? Sim, ainda.
Eu ainda escuto Clarice FalcĂŁo, vestida com aquela camisa preta com um retrato verde que vocĂȘ me deu, que fica enorme em mim e eu uso de pijama quando tĂĄ chovendo.
Eu ainda penso no seu rosto quando tento idealizar um futuro inexistente, casada com filhos e um labrador. Mas Ă© inconsciente, eu e a terapeuta ainda estamos trabalhando nisso.
Eu ainda lembro do seu rosto me deixando na rodoviĂĄria pela Ășltima vez, lembro de como minha garganta ficou embargada e seca naquele dia, mas eu nĂŁo quis chorar porque meu pai tava com a gente e ia ser uma puta sacanagem eu chorar por sua causa e nĂŁo pela dele. E nĂŁo sei se vocĂȘ ainda lembra de como meu pai era ciumento ... inclusive, ainda Ă©.
Eu ainda tenho o nenĂ©m e nossas poucas fotos que foram reveladas, mas eles ficam escondidos. O nenĂ©m tĂŽ pensando em doar, ele ocupa muito espaço, mas do que aparenta. As fotos tĂŽ pensando em dar a sua mĂŁe, exceto aquela que estamos na praia, ela disse que nĂŁo gosta porque vocĂȘ ficou a cara do seu pai ali, e eu acho que ela ainda guarda uma mĂĄgoa grande dele,como eu de vocĂȘ. Eu e ela temos muito em comum, acho que Ă© por isso que somos tĂŁo amigas, ainda nos falamos quase todos os dias.
Eu ainda gaguejo quando as pessoas perguntam sobre vocĂȘ, veja sĂł que saco Ă© estar no meu lugar ... as pessoas perguntam sobre vocĂȘ a mim. DĂĄ vontade de responder: NĂŁo enche a porra do meu saco! Mas eu sĂł respondo âNĂŁo seiâ, porque Ă© isso que Ă©.
Eu ainda acho que as cosias vĂŁo melhorar, que um dia tudo isso nĂŁo passarĂĄÂ de uma fase ruim que todo ser humano atravessa, e que nĂŁo Ă© tĂŁo grave quanto meu psicolĂłgico construiu.
Eu ainda escrevo sobre vocĂȘ, porque eu nĂŁo sei o que fazer com o que vocĂȘ fez de mim, jĂĄ vai fazer dois anos, vocĂȘ casou, estĂĄ construindo sua famĂlia, com sua esposa, com nosso cachorro (agora de vocĂȘs nĂ©, seu bosta), e eu ainda estou solteira, porque nĂŁo sei confiar mais nas pessoas, nĂŁo sei mais me entregar sem achar que vou quebrar a cara de novo.Eu fico na beirinha dos relacionamentos, observando tudo acontecer, e aĂ volto porque acho que Ă© uma queda forte demais. E eu nĂŁo tenho mais saĂșde mental para isso.
Eu ainda acho que se um dia te encontrar na rua, vou ter uma crise de ansiedade, e eu ando em todos os cantos na rua achando que a qualquer hora isso pode acontecer. Ă horrĂvel, e se torna pior por nĂŁo ser algo que eu possa controlar, ninguĂ©m entende, Ă© irracional, Ă© por isso que ainda faço terapia.
Eu ainda nĂŁo consigo ouvir seu nome sem sentir uma porção de coisas ruins junto, eu ainda nĂŁo consigo ouvir as mĂșsicas que gravei pra vocĂȘ e te dei de presente no nosso primeiro dia dos namorados juntos, nĂłs fomos jantar no CamarĂ”es sem pagar nada por causa de um texto que hoje vejo que era tudo mentira. âOvacionados pela multidĂŁoâ, Yesak Ymmas Ă© meu cĂș!
Eu ainda nĂŁo entendo porquĂȘ namorei vocĂȘ depois de todas as provas que vocĂȘ me deu de que nĂŁo valia porra nenhuma, e que eu sempre fui segunda opção na sua vida. Por que eu achei que vocĂȘ ia me dar suporte e ficar comigo no momento mais difĂcil da minha vida quando vocĂȘ sĂł pensava em si mesmo? Eu ainda nĂŁo entendo como fui ingĂȘnua.Â
A parte boa Ă© que eu nĂŁo amo mais vocĂȘ. Virou tudo pĂł, mĂĄgoa, cinza, ĂĄlcool, sexo com desconhecidos, virou coisas terrĂveis, mas qualquer coisa Ă© melhor do que amar alguĂ©m que nunca foi recĂproco comigo, que sĂł mentiu e me desestabilizou.
Eu ainda lembro de vocĂȘ todos os dias da minha vida, nem que seja sĂł por alguns segundos, atĂ© vir uma lembrança melhor e me salvar de tanto devaneio ... dois anos se passaram e eu ainda nĂŁo entendo o porquĂȘ.










