X.P.T.O.
Ć uma obsessĆ£o, essa, por prĆ©dios antigos.Ā āVelhosā, decrĆ©pitos, caindo aos pedaƧos. Abandonados atĆ© pelos ratos e baratas, Certamente apenas alguns espĆritos devem continuar frequentando esses lugares, fechados pra nós por cadeados invisĆveis do medo. Só deve ter permissĆ£o pra entrar aquele que enxerga.
Eu atravesso a ponte do SĆ£o Raimundo e sempre sinto uma leve tontura enquanto vou subindo. Ć alta, e embaixo passa o igarapĆ© preto no verĆ£o, laranja na secura do inverno. Do lado esquerdo avisto a antiga cervejaria. Me disseram que era uma cervejaria assim que eu cheguei em Manaus. Parece um castelo. Parece uma fĆ”brica de filme preto e branco, cenĆ”rio de antes da primeira guerra.Ā
Eu vou ladeando o rio por cima do concreto, que dizem ser um parque. HÔ dias em que quatro, cinco, seis cachorros raivosos são os únicos a tomarem conta desse lugar. Os guardas isolados em suas guaritas, sem tirar os olhos de seus celulares, talvez nem percebem quando eu entro. HÔ um mar enorme ali no fim do igarapé, Negro queimado de sol que embrasa as nuvens no fim da tarde. Manaus, tão feia, tão surrada, tão feladaputa ela. Tão linda de longe. Parada num tempo onde as nuvens não se mexem.
āEu olho a antiga cervejaria ali do outro ladoā. Assim nasce um poema, escutando a mĆŗsica Marco Polo, da Lorena McKennit. Aqui tambĆ©m Ć© um deserto. Tem garƧa, tem bicó e tem lixo, muito lixo ondulando nas Ć”guas desse braƧo do rio. Mas Ć© um deserto Ć”rido de gente, de sentido. Carece de sentido esse prĆ©dio no meio desse lugar.
Eu pasei meses sem coragem de chegar mais perto desse prĆ©dio. Só o via de longe. Da outra margem. Da ponte. Me enganava por dentro, dizendo pra mim mesmo que era medo de ser assaltada. Acho que era mais receio da decepção de nĆ£o ver nada, sentir nada, Ć© só um velho que teima impĆ“r a sua presenƧa, como outros tantos outros prĆ©dios e casarƵes em ruĆnas da beira do centro dessa cidade. JĆ” foi tanto, em outros sĆ©culos. Agora Ć© nada, a cidade e o progresso dando as costas pra esse grande rio.Ā
E uma noite virei fantasma. Atravessei a ponte antes de tempestade de repente, que os repentes são comuns em Manaus. Eu seguia outro fantasma que disse um dia ter saltado do ponto mais alto dessa ponte, em madrugada de ressaca e dores. Nessa noite, sei lÔ porque a cervejaria estava iluminada, foi como viajar pra outra época, outra dimensão. Vai ver é por isso é que alguns se encantam com a noite, onde se enxerga além.
Dois fantasmas entraram na ruaĀ āsem saĆdaā, que a saĆda Ć© o próprio rio, no fim. Ou no comeƧo. Entre o medo e o fascĆnio de chegar tĆ£o perto desse sĆmbolo sei lĆ” do que, nem explicar. NinguĆ©m na rua. Nem, como eu disse, ratos e baratas. O mundo congelado pra que eu pudesse olhar pra essas paredes. Janelas tampadas de cimento, pintadas de branco. Assim, no escuro, a cervejaria nĆ£o parecia em ruĆnas. Só gasta. Pichadores nĆ£o se atreveram a macular a fachada branca, haveria uma redoma invisĆvel a impedi-los?
Apesar de me sentir fantasma nĆ£o atravessei as paredes desse castelo. Era um fantasma com medo da chuva forte, que a qualquer momento ia desabar no caminho de volta, do Aparecida para o Centro. Mas ainda fiquei por ali, peambulando por um galpĆ£o abandonado na beira do igarapĆ©, fumando cigarros de palha J. Silva e mirando agora a margem do lado de lĆ”, no SĆ£o Raimundo. As luzes por baixo da ponte. Os flutuantes batendo de leve em ca noas e pequenos outros barcos. A Ć”gua preta arrulhando feito pomba, indo e voltando de um barranco inexistente.Ā
Eu agora, quando lembro, entendo porque me senti como uma espĆ©cie de espĆrito vagando na noite. Como preso a num limbo entre o passado e o presente, onde o Ćŗnico movimento Ć© o das Ć”guas. Ć um tempo da nostalgia, por aquilo que eu nĆ£o vivi ou por aquilo que ainda tenho pra viver. Por quantos outros dias atravessei a ponte, carregando caderno e caneta, escrevi poemas, suspirei por saudades do inexistente, do que nĆ£o conheƧo. Eu assim o fiz em outros lugares, de vastos casarƵes e aparentes ruĆnas, tentando descobrir a vida desses sĆmbolos de outros tempos.
Ainda sinto nostalgia quando olho fotos aleatórias na hora de arrumar arquivos no computador. NĆ£o as busco de propósito. Elas aparecem, como fantasmas. Eu lembro imediatamente daquela noite em que a chuva juntou dois seres de planetas diferentes, tentando encontrar sentido num velho prĆ©dio, numa noite escura e no ir e vir da cidade. Penso em tantas outras noites, tantos outros encontros testemunhados por velhos casarƵes desse velho Centro de Manaus. A cidade nĆ£o Ć© cenĆ”rio, a cidade tem alma, as construƧƵes vibram, as praƧas conversam, as ruas nos desafiam a olhar para um universo que pode estar em desencanto, mas nĆ£o caĆdo.Ā
Tantas histórias, que nos cruzam, feito as paredes que tentamos que tentamos atravessar.
PS: X.P.T.O. Descobri algum tempo depois que era o nome da cerveja fabricada nesse lugar. Eram servidas, ao que parece, nos navios que saĆam de Manaus para a Europa. Que longa viagem de ia ser essa, sair do Negro, ganhar o Amazonas e dali o outro lado do AtlĆ¢ntico. Abreviatura do nome de Cristo em grego, segundo Santo Google.Ā








