É noite e o vento entra pela janela. Vejo o leve balanço da luminária. Vejo o suave balanço das folhas. Olho para elas e sei bem como se sentem, ali paradas, onde suas raízes sufocam nos vasos minúsculos que outrora eu jurava serem do tamanho ideal. Algumas precisam ainda de apoio para se manterem em pé - ironia talvez? Mas sei como se sentem. Sei que sentem o alívio do vento gelado após um dia quente. Ou talvez eu não saiba como se sentem afinal. Podem estar sentindo esse vento enquanto almejam o calor da luz do sol. Aqui onde estou, apesar de ver o efeito do vento, não o sinto. Não sinto várias outras coisas também. Um cômodo escuro, onde vento e luz não penetram pois não existe abertura pra isso. Não entram afetos, não entram amores, nunca sequer entrou cuidado. Cuidado real, não cuidado disfarçado de sobrevivência. Aqui entrou o medo, e por aqui fez morada. Temo que um dia entre luz, e que essa luz revele quem mais aqui adentrou. Monstros dos quais não sei o nome, não conheço a face, mas sinto o cheiro, sinto o esbarrão na escuridão de vez em quando. Vejo uma tenra luz que tenta passar por debaixo da porta. Mas não me atrevo a ir até lá e romper com a escuridão. Temo o que está do outro lado, mesmo podendo ser algo bom. Com a escuridão já estou acostumada, é confortável aos olhos. Talvez a luz me cegue, como fez na alegoria da caverna, posso não ter capacidade para viver além daquela porta. Finjo caminhar em direção a ela - tenho pernas? Nunca saio do lugar. Sinto que não saio do lugar. Mas as vezes olho pra trás e sinto que caminhei. Olho pra frente e a porta cisma em parecer mais próxima. Seria uma ilusão?
— AMDL.














