#1 Resistência (Mischling) - Affinity Konar
Resistência é o título do primeiro romance publicado pela autora Affinity Konar e, até começar a escrever este post, eu não fazia ideia de como seria difícil falar sobre essa história. Digo isso porque por mais diligente que eu seja na tentativa de transmitir os horrores relatados, não chegaria nem próximo do efeito alcançado pela narrativa da autora.
Ambientado na Segunda Guerra Mundial, o livro narrado em primeira pessoa introduz a dificuldade das gêmeas Stasha e Pearl ao serem levadas à Auschwitz e através do olhar infantil dessas duas crianças, presenciamos os horrores que elas e outras tantas crianças vivenciaram.
Stasha era sonhadora, criativa e acreditava na liberdade do mundo. Já a irmã, Pearl, era mais racional das duas, sempre com o pé no chão. Ela tentava constantemente trazer a irmã para a realidade que elas estavam. Por sua vez, Stasha conseguia buscar uma espécie de consolo ante a brutalidade na qual elas estavam inseridas e de certa forma, por mais que Pearl fosse racional, acabava se beneficiando disso em meio a tanto desespero.
Desde o início fica evidente a extrema ligação das duas.
Seja na forma de pensar ou de sentir as coisas, Stasha realmente queria ser igual a irmã. Queria até que os trejeitos das duas fossem iguais, de modo que ninguém conseguisse diferenciá-las, sendo este um dos aspectos psicológicos mais trabalhados na história. No entanto, todos os limites dessa conexão entre elas começa a ser testado (pelo médico, inclusive), diante de tantas torturas que ambas foram submetidas.
Lá, essas crianças foram expostas à todas as loucuras do famoso Dr. Josef Mengele (O Anjo da Morte), conhecido até hoje pelas suas práticas insanas. Mengele tinha fascinação por “mutações genéticas” que até então lhe eram peculiares, como por exemplo gêmeos, anões, albinos...
Milhares de crianças eram levadas para Birkenau, chamado carinhosamente pelo médico nazista de “zoológico”, onde ele realizava os experimentos mais assombrosos da humanidade.
Importante destacar também que as gêmeas que serviram de inspiração para as personagens da autora, foram sobreviventes das torturas de Mengele: Eva e Miriam Mozes.
“Trouxeram de volta do laboratório dois gêmeos ciganos que Mengele havia costurado um ao outro. Ele tinha tentado criar irmãos siameses...”
Através de um olhar extremamente infantil, elas transmitem não apenas as torturas que a elas eram infligidas mas também todos aspectos de suas próprias personalidades quanto gêmeas e isso intrigava o médico que queria saber até onde iria essa “conexão” enquanto gêmeos idênticos e como a separação os afetaria.
''Em meu rosa fetal, tive de encarar essa verdade: sem ela eu seria apenas um pedaço, uma coisa sem valor algum, um ser humano incapaz de amar.''
O peso histórico de “Resistência” é absurdo. Eva Mozes atualmente com 83 anos já concedeu diversas entrevistas contando a dura realidade que ela e a irmã - já falecida, provavelmente por problemas de saúde que lhe foram causados pelo médico, como por exemplo injeção de germes e outras doenças e tantas outras crianças sobreviventes (ou não) de toda essa tragédia.
Resumidamente, Josef Mengele foi um oficial alemão da Schutzstaffel e médico de confiança de Hitler. É fato notório que Auschwitz foi o maior campo de concentração da história e uma parte desse complexo chamada de Birkenau foi comandada por Mengele, que era extremamente respeitado.
Ao final da Guerra, com a invasão russa, Mengele foi um dos homens mais procurados do mundo. O foco de seus “experimentos” científicos era realmente testar os limites humanos: transplantava órgãos entre gêmeos (sem anestesia), media o nível de sobrevivência de bebês em fase de inanição, almejava alterar a cor dos olhos dessas crianças com tinta, o que deixou a maioria das sobreviventes cegas. Realizava procedimentos cirúrgicos de mudança de sexo entre as crianças, amputava membros, injetava germes letais para que ele pudesse acompanhar a morte delas pessoalmente. Sua obsessão também era com anões, realizando várias dissecações de anões vivos para que observasse o tamanho de seus órgãos, entre muitas outras.
Em 1949 ele fugiu para a Áustria, Itália e Buenos Aires onde viveu por 10 anos, sem sequer mudar seu nome. No entanto, para o seu tormento, a caça aos nazistas se intensificou e dessa forma foi obrigado a fugir para o Paraguai e terminou aqui mesmo, no Brasil, onde viveu seus últimos anos em São Paulo, portando uma nova identidade para que não fosse descoberto.
Segundo relatos, Mengele se sentia “deprimido” morando no Brasil. Considerava o país sub desenvolvido e habitado por uma sub raça, o que era insuportável para ele, dizendo várias vezes que preferia “a morte” do que conviver com brasileiros.
Em 1979, ele foi encontrado afogado em Bertioga, após sofrer um derrame enquanto tomava banho de mar em um passeio com a família.
Por Tatiane Priori Galimberti











