Acasos do Destino - CapĂtulo 43 - Coisas loucas
Eu me sentia o cara mais estĂșpido, imundo e imbecil na face da Terra. Ă alguns segundos eu estava xingando e querendo bater no suposto âpaiâ do filho de Sophia, e entĂŁo ela simplesmente me conta que eu sou o pai. Agora Ă© que eu sentia mesmo vontade de me bater.
Ok, é muita informação pra processar. Vamos com calma. Primeiro eu teria que ir atrås de Sophia pra ela me explicar essa história direito.
âSophia, vĂĄ atrĂĄs dela!â, a minha mente me mandou um lembrete.
O choque foi tamanho, que eu simplesmente fiquei lĂĄ, parado, olhando pro nada. Foi como se tivessem me dado um soco no estĂŽmago ou um tapa na cara, e eu nĂŁo conseguia enxergar um palmo ĂĄ minha frente. Eu nĂŁo conseguia acreditar no que ela havia dito, e eu nĂŁo sabia que ficava feliz ou em pĂąnico. âVamos lĂĄ, Mika. Deixe pra desmaiar como uma garotinha depois, agora vocĂȘ tem que ir atrĂĄs da sua garota!â
Me levantei tĂŁo rĂĄpido que quase derrubei a cadeira e a mesa do quiosque. NĂŁo me importei. Joguei um pouco de dinheiro na mesa para pagar o lanche, sem me importar de conferir se estava certo, e saĂ dali apressado. Eu precisava encontra-la, precisava encontra-la...
Droga, eu nĂŁo conseguia vĂȘ-la.
Eu andava apressado, abrindo espaço entre as pessoas que caminhavam no calçadão. Andei por uns cinco minutos, meus olhos procurando insanamente por Sophia. Mas eu não via nada. Ela  não podia andar tão råpido, podia? Estava tão concentrado em acha-la, que nem percebi que estava correndo. Só quando parei, ofegante, foi que eu vi que jå estava chegando no prédio em que moråvamos.
Eu tinha percorrido em cinco minutos o caminho que eu levava uns vinte minutos. Uau.
Limpei minha mente, voltando ao foco que era encontrar Sophia. Resolvi atravessar a rua e entrar no nosso prĂ©dio. Perguntei ao porteiro se tinha visto Sophia passar por ali, mas o inĂștil disse que haviam muitos moradores e que nĂŁo os conhecia pelo nome. Perdi alguns minutos descrevendo Sophia, atĂ© que o porteiro finalmente se lembrou de tĂȘ-la visto passar. Segundo ele, Sophia estava apressada e parecia estar chorando.
Fui correndo até o elevador, mas quando cheguei, jå era tarde. O elevador fechara as portas e jå começava å subir. Se eu esperasse o elevador voltar, talvez não desse tempo de encontrar Sophia. Só havia mais uma opção, e eu não estava muito animado com ela. A escada.
Suspirei, enchendo meus pulmÔes de ar, me preparando para encarar lances e lances de escada.
Cheguei ofegante ao andar dos nossos apartamentos, meu coração parecia querer sair pela boca, mas sorri ao ver que o elevador ainda nĂŁo havia chegado â mas estava quase lĂĄ â. Eu conseguira ser mais rĂĄpido. Recuperei o fĂŽlego no exato momento em que o elevador parou. Eu me posicionei ao lado da porta do seu apartamento, cruzando os braços, e entĂŁo ouvi as portas se abrirem.
Sophia saiu de lĂĄ apressada, com passos pesados e duros, olhando para baixo enquanto enxugava as lĂĄgrimas do rosto. Senti uma dor aguda no peito ao vĂȘ-la assim, eu tinha vontade de pegĂĄ-la e cuidar dela.
Quando ela levantou os olhos por um instante para abrir a porta, percebeu que eu estava ali parado ao seu lado. Ela me olhou, surpresa e confusa, as sobrancelhas franzindo de um jeito fofo. Seus olhos estavam vermelhos por conta do choro.
â O quĂȘ... O quĂȘ raios vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui? Como chegou aqui primeiro que eu?! â Ela perguntava, sua voz subindo uma oitava. Linda.
Dei-lhe um sorriso de lado.
â Simples. Sou mais rĂĄpido do que vocĂȘ, loirinha. â Disse. Respirei fundo e mudei minha expressĂŁo para sĂ©ria. â Mas nĂŁo Ă© sobre isso que eu quero falar com vocĂȘ.
â A gente nĂŁo tem nada pra conversar, Micael. â E ela soava tĂŁo sĂ©ria quanto eu, apesar de sua voz estar um pouco grogue por conta do choro.
â Como assim a gente nĂŁo tem nada pra conversar?! â Eu disse, incrĂ©dulo. A raiva começava a tomar conta do meu corpo. â Sophia, vocĂȘs estĂĄ grĂĄvida, e o pai sou eu! NĂłs temos milhares de coisas sobre o que conversar, opinar, decidir... Ă o nosso filho, caramba! â Eu tentava, sem muito sucesso, controlar meu tom de voz. Respirei fundo umas duas vezes, tentando me acalmar. Vi que Sophia começara ĂĄ chorar de novo. Droga... â Olha, por que nĂłs nĂŁo entramos e conversamos sobre isso? Sem brigas, nĂłs vamos apenas nos sentar e conversar calmamente, como duas pessoas civilizadas.
â NĂŁo Micael, eu nĂŁo quero, e... â Sophia tentava falar em meio aos soluços. Eu odiava vĂȘ-la chorando, de verdade.
â VocĂȘ sabe que essa conversa vai acontecer uma hora ou outra. â Suspirei. Com uma mĂŁo, toquei levemente seu rosto e o levantei, para que olhasse para mim. â Agora que eu sei da verdade, tudo vai ficar bem, eu prometo. A gente vai dar um jeito. â Disse da forma mais gentil que consegui naquele momento, mas era difĂcil, eu ainda estava apavorado com a ideia de ser pai.
Nossos olhos se encontraram por um momento, e eu pude ver o quanto ela estava sofrendo com toda aquela situação. O quanto guardar aquilo estava fazendo mal pra ela. Naquele momento, minha vontade era beijĂĄ-la e confortĂĄ-la, nĂŁo queria nunca mais vĂȘ-la fragilizada daquele jeito. E entĂŁo ela me surpreendeu.
Bem ali, no meio do corredor. Um abraço apertado, cheio de mågoa, saudade e medo. Eu a abracei de volta. Apertei-a contra meu corpo, querendo não largå-la nunca mais. Beijei o topo de sua cabeça, aspirando o perfume de seus cabelos. Fechei os olhos, aproveitando o måximo daquele momento.
â Acho melhor a gente entrar para conversar. â Sophia sussurrou, levantando a cabeça que estava deitada em meu ombro, acabando com qualquer clima.
Mas concordei com ela. Quanto mais råpido começåssemos com isso, melhor seria. Nos desvencilhamos do abraço, e eu sorri sem graça.
NĂłs nos viramos e entramos em seu apartamento.
Sophia voltou da cozinha com dois copos de suco. Se sentou no sofå ao meu lado, me entregando um copo e ficando com o outro. Eu beberiquei um pouco do suco, mas não era isso que eu queria. Queria explicaçÔes. Queria saber porque ela nunca me contou que esse filho era meu.
Suspirei e me ajeitei no sofĂĄ, de modo que ficasse virado para ela. Pus o copo de soco quase intocado na mesinha de centro e ela me olhou, cabisbaixa.
â Por onde começamos? â Sophia murmurou, mexendo nervosamente as mĂŁos. O apartamento estava completamente silencioso, a nĂŁo ser por nĂłs ali.
â Bem, primeiro eu queria saber por que vocĂȘ nĂŁo me disse que esse filho era meu assim que descobriu que estava grĂĄvida? â Disse, sem fazer rodeios. EstĂĄvamos ali pra resolver as coisas, entĂŁo irĂamos resolver.
â Eu... Eu nĂŁo sei. â Ela falou, e pude ouvir sua voz falhando novamente, denunciando que a qualquer minuto ela poderia cair no choro de novo. â NĂłs vivemos brigando, discutindo, e eu estava com raiva e chateada. E eu nĂŁo queria que vocĂȘ perdesse sua liberdade por que engravidou alguĂ©m, mesmo esse alguĂ©m sendo eu. Meu desespero era tanto que atĂ© em aborto em pensei. Eu sei que antes de eu me mudar para cĂĄ, ĂĄ algum tempo atrĂĄs, vocĂȘ era diferente, saĂa muito, ficava com vĂĄrias mulheres, nĂŁo ligava pra nada... E que futuro eu e meu filho podĂamos ter com alguĂ©m que jĂĄ foi assim? NĂŁo, criar esse bebĂȘ sozinha seria o melhor a se fazer. Por mais que... Por mais que eu quisesse te contar, eu me convenci de que era melhor nĂŁo.
Eu nĂŁo sabia como reagir, nĂŁo sabia o que falar ou fazer. Tudo o que Sophia falara nĂŁo parecia real, parecia insano demais. Minha visĂŁo estava turva.
â E naquele dia, em que vocĂȘ me perguntou se eu estava grĂĄvida, e se a criança era sua... VocĂȘ nĂŁo faz ideia do quanto foi doĂdo pra mim ter que mentir sobre uma coisa dessas. VocĂȘ nĂŁo sabe como eu me senti dizendo que tinha dormido com outro cara, que esse filho nĂŁo Ă© seu. Foi tudo mentira. Tudo uma grande e estĂșpida... mentira.â Sophia continuou, olhando pro nada ĂĄ sua frente, os olhos marejados.
Eu nĂŁo sabia se queria mais ouvir. Queria acordar e perceber que tudo isso era um sonho.
Tudo era muito real. Sophia estava realmente gråvida, e logo nosso filho estaria ali conosco. Um nó se formou em minha garganta, me impedindo de respirar. Eu estava entrando em pùnico, podia sentir isso até em meus ossos.
â Mika... vocĂȘ tĂĄ bem? â A voz de Sophia me chamou a atenção por um instante, e o jeito como me chamou pelo apelido tambĂ©m. Quase como se tivesse preocupada. â VocĂȘ estĂĄ tĂŁo calado. Ei, vocĂȘ tĂĄ passando mal? Meu Deus, vocĂȘ estĂĄ pĂĄlido e suando!
Sophia agora estava definitivamente preocupada, e eu me forcei å parar de frescura. Fechei meus olhos e respirei fundo, tentando acalmar meus malditos batimentos. Virei meu rosto para ela, nossos olhares se encontrando. Peguei em uma mão sua, entrelaçando-a na minha, sem me importar o que ela acharia daquele gesto. Ela parecia surpresa, mas não retirou a mão dali.
â Desculpe, eu sĂł... Foi sĂł agora que caiu a ficha de que vamos realmente ter um bebĂȘ juntos. Ă uma coisa muito... intensa. â Disse, olhando-a.
â VocĂȘ acha que eu nĂŁo sei? â Ela fungou e limpou uma lĂĄgrima que escorria por sua bochecha. â Droga, odeio estar tĂŁo sensĂvel assim... â Ela murmurou, zangada, tentando se recompor. Eu sorri.
NĂłs ficamos alguns minutos bem desconfortĂĄveis em silĂȘncio. Um turbilhĂŁo de pensamentos confusos rodeavam minha mente, todos relacionados com o fato de eu me tornar pai.
â E agora? â Murmurei, tentando pensar em algo que eu pudesse fazer pra resolver essa situação. Os resultados nĂŁo eram animadores.
â Como assim âe agoraâ? â Sophia me olhou confusa.
â UĂ©, agora tudo vai mudar. Como vamos sustentar essa criança? E nĂłs? â Perguntei.
â Eu vou sustentar meu filho. Vai ser difĂcil, eu sei, mas eu dou um jeito. â Ela disse, orgulhosa, olhando para mim. â E nĂŁo tem ânĂłsâ. NĂŁo Ă© porque eu to grĂĄvida de vocĂȘ que nĂłs temos que ficar juntos.
â Do que vocĂȘ estĂĄ falando, Sophia? â Perguntei, nĂŁo acreditando no que ela dizia. Sophia podia ter ideias muito estĂșpidas ĂĄs vezes. â Mas Ă© claro que eu vou te ajudar a criar o nosso filho, e nĂłs vamos fazer isso juntos. Podemos procurar uma casa com mais quartos, mais espaço e um quintal grande. E Mel e Chay vĂŁo ser os padrinhos do nosso casamento, certo? Ă claro que vĂŁo ser. Ah, nĂłs podemos tambĂ©m ter um bichinho de estimação! Eu gosto de cachorros...
â PARA! â Sophia disse, elevando muito a voz. Olhei pra ela assustado. O que havia de errado? â Micael, serĂĄ que dĂĄ pra vocĂȘ parar de fazer esses planos estĂșpidos? Isso nĂŁo vai acontecer. NĂłs nĂŁo vamos ficar juntos e muito menos nos casar. O que sua famĂlia iria achar? Que eu estou dando o golpe do barriga, Ă© claro! E isso nĂŁo Ă© verdade!
â Sophia... â Tentei. Eu tava pouco me importando com o que a minha famĂlia acharia.
â Escuta Micael, eu nĂŁo quero que vocĂȘ se sinta obrigado a ficar comigo, se casar comigo e construirmos uma famĂlia juntos numa casa grande. Esse filho Ă© seu? Ă. Se vocĂȘ quiser pode ajudar financeiramente de vez em quando, mas eu nĂŁo faço questĂŁo. Eu posso criar meu filho sozinha, nĂŁo se preocupe. AlĂ©m do mais, vocĂȘ-
A beijei porque nĂŁo aguentava mais ouvir tanta besteira de uma vez sĂł saindo daquela boca maravilhosa. NĂŁo aguentava mais ela dizendo que nĂŁo terĂamos um futuro juntos, quando era isso tudo o que eu mais queria. NĂŁo aguentava mais... resistir ĂĄ ela.
Ela arregalou os olhos, assustada, mas no segundo seguinte jĂĄ correspondia o beijo. A boca dela era macia e quente. NĂŁo precisei de nem meio minuto para puxar seu rosto para perto e afundar minha lĂngua na sua boca aveludada. Sua mĂŁo foi para minha nuca, rapando as unhas ali, me fazendo arrepiar. Meu coração de repente batia num ritmo alucinado, sentia meu peito arder enquanto os lĂĄbios dela se encaixavam como se tivessem sido moldados exclusivamente para me beijar...
Não me lembrava de estar com tanta saudade de seus låbios, até estar beijando-a.
Nos separamos em busca de ar, ambos ofegantes.
â VocĂȘ... NĂŁo devia... Ter feito isso. â Sophia disse, aspirando grandes quantidades de ar, assim como eu.
Meus pulmÔes aos poucos foram voltando ao normal. A respiração de Sophia também pareceu se estabilizar.
â E vocĂȘ devia parar de falar tanta besteira. â Retruquei.
â Do que vocĂȘ tĂĄ falando? â Ela perguntou, hesitante. Seus olhos azuis estavam brilhantes.
â Disso de vocĂȘ querer criar essa criança sozinha. Eu nĂŁo vou deixar! â Respirei fundo, controlando minha raiva, e voltando ao meu tom de voz normal. â Olha, eu sei que vocĂȘ estĂĄ com medo e fragilizada. Mas eu tambĂ©m estou. E como eu disse antes, eu assumiria essa criança, mesmo que nĂŁo fosse minha. Amaria ela do mesmo jeito. E isso tudo sĂł porque esse bebĂȘ Ă© seu, Ă© uma parte de vocĂȘ. Agora que eu sei que tambĂ©m Ă© uma parte minha, eu quero ainda mais estar perto e ver meu filho crescer, feliz e com uma famĂlia.
â Eu entendo, mas... Mika, vocĂȘ sabe que nĂŁo ia dar certo. VocĂȘ sabe que nĂłs tentamos nos dar uma chance, mas sempre acontece alguma coisa. Sempre tem algo ou alguĂ©m pra estragar. â Sophia disse, sua expressĂŁo estava triste.
â NĂŁo precisa ser assim... â Eu disse, e tentei fazer um carinho em seu rosto, mas ela afastou minha mĂŁo dali.
â Micael, por favor. â Ela pediu, e me olhou. Os olhos jĂĄ cheios de lĂĄgrimas.
â NĂłs temos que tentar! Temos que tentar, pelo nosso filho, por nĂłs. â Eu disse, engolindo meu prĂłprio choro. Toda aquela situação dramĂĄtica estava mexendo comigo. â Me dĂĄ uma chance, dĂĄ uma chance pro nosso amor.
Sophia abriu e fechou a boca algumas vezes, tentando falar algo, mas nada parecia sair. Eu sabia como ela estava se sentindo.
â Eu... Eu quero muito isso. Quero mesmo. â Sophia baixou a cabeça e voltou ĂĄ brincar com as mĂŁos, visivelmente desconcertada. â Mas, e se as coisas entre a gente nĂŁo der certo? Como vamos fazer?
â Soph, vem cĂĄ... â Eu peguei em sua mĂŁo, e delicadamente a puxei para mais perto. Sorri quando vi que ela nĂŁo se afastou. â Eu sei que vocĂȘ estĂĄ apavorada com tudo isso, sei como se sente. Mas vocĂȘ precisa confiar em mim...
Nossos corpos se encostavam, e eu podia sentir o cheiro dela, era inebriante. Passamos alguns minutos em silĂȘncio, e ela parecia estar pensativa. Eu tambĂ©m estava perdido em meus prĂłprios pensamentos.
â Posso te contar uma coisa muito louca? â Sophia murmurou ao meu lado, suspirando. Deitou a cabeça em meu ombro e eu jĂĄ pude sentir meu coração batendo loucamente, e um sorriso bobo brotando em meus lĂĄbios.
Uma felicidade irritantemente deliciosa tomou conta de mim.
â Sim. â Disse, esperando que minha voz nĂŁo denunciasse como eu estava me sentindo.
â Eu acho que estou apaixonada por vocĂȘ. â Sophia disse, se aconchegando ainda mais em mim.
Nessa hora, meu coração não estava mais acelerado, ele simplesmente tinha parado de bater.
â Posso te contar uma coisa mais louca ainda? â Perguntei, meu sorriso havia aumentado tanto que minhas bochechas doĂam. Mas eu nĂŁo me importava. Eu poderia explodir de tanta alegria.