Na véspera de completar onze anos lembro da crise que tive porque minha idade não caberia mais nos dedos e, inconsolável, testava erguer um indicador de cada mão - um com um, onze. Como dois e dois são cinco.
Não avisei vocês mas eu to mudando de quem eu sou. Ta ruim mas tá bom. Pensei que a persona seria combativa, mas pelo jeito não passaram de três sonhos no divã com a louraça Ana Paula Renault. Entre uma piscina e outra, antes de notar, amansei. Feito um tigre albino no zoológico de Buenos Aires, aqueles dopados até os óssos, mas em algum caso imaginário em que o bichano aceita ser domesticado em troca da alisada em seu pelo grisalho. Aliás, foi nesse dia que encontrei meu primeiro cabelo branco. Antes disso, quando cheguei aos 9, fui congratulada via email por ser tão dócil. Boazinha que só ela. Chata pacas.
É bem assustador ficar mais velha. A gente nunca se sente tão sozinho quanto no dia de amanhã. Mas, dia desses, cruzando a florestinha da batata, cheguei a pensar que é melhor ter 21 do que ter 19. E que é melhor ter 17 do que ter 14. Que é melhor do que ter 11, um numero tão grande, incompatível com a ingenuidade de crer que, para os maiores de década, ainda se conta a idade nos dedos. Me pergunto se, caso tivessemos dedos ilimitados, manteríamos a tradição. Quero pensar que não, que a puberdade leva esse mecanismo com a anatomia, assim o buraco é menor.
Amanhã vou usar uma camisa social pra ir à aula. Foi o que fiz para provar algo no nascimento da minha irmã. Sabe-se lá o que. Marnie Michaels-ass move. Dafuk.